Choker // Honeybloom

[TEXTO] Vasco Completo 

Antes de carregarmos no play, o booklet de Honeybloom apresenta o que aí vem: um confronto entre cores e texturas. Cerca de 15 meses separam silenciosamente dois trabalhos — PEAK é o título do seu primeiro disco — que procuram o mesmo caminho. Honeybloom é a prova de como a destemida abordagem do jovem rapper, produtor e cantor do Michigan não só não se esgotou, como também tomou uma dimensão mais compacta e madura.

É fácil franzir o sobrolho ao ouvir a dimensão vasta e dispersa que contém os registos de Choker. A falta de limites estilísticos, parcialmente proveniente das diversas e diversificadas influências do multifacetado cantor, fazem navegar o seu registo por uma mescla de ritmos, timbres, melodias e flows, mas especialmente de espaços sonoros. Encontramos desde faixas completamente synth-based, como “Starfruit NYC”, a alteração de pitch de samples e de voz, até às guitarras carregadas de efeitos de “Windbreaker”. Tal como Choker aponta numa entrevista com o Bandcamp, a junção entre os vários géneros dá-se através de um olhar atento para os elementos que conhece e o influenciam, criando a partir daí um novo imaginário que aglutina tudo e que, neste caso, existe na intersecção entre rock psicadélico, indie, r&b, hip-hop, soul e electrónica.

Acaba por ser isso que torna tão interessante a composição tão livre deste obsessivo criador, que facilmente se “aborrece” com uma música sua, dada a velocidade com que muda de ideias. Desde PEAK, Choker demonstrou que apreendeu bem o conceito que J Dilla utilizou em Donuts — o desenvolvimento curto de uma boa ideia, que imediatamente cai, dando lugar a uma nova. No produtor vimos isso acontecer com a sucessiva passagem das músicas. Passados 13 anos, Choker apresenta uma abordagem em que (quase) não repete momentos ou timbres. À Pigeons and Planes, o artista disse que é importante captar a atenção do ouvinte, mas que não tem grandes preocupações com a estrutura das músicas.

Nas deambulações entre a auto-análise e as relações interpessoais, Choker aparece com um projecto que segue a linha de Ctrl, Flower Boy, CARE FOR ME – álbum de Saba que se pode facilmente colocar como parte desta nova vaga de artistas r&b — ou até A Seat at the Table. Também surge como um dos primeiros filhos de Blonde Endless, os últimos dois discos de Frank Ocean. Ninguém hesita na hora de associá-los, e é uma comparação lógica: a voz, o uso livre da mesma, com e sem auto-tune, a alteração do pitch a dobrar as vozes, a variação entre canto e rap, a refinada criação melódica e a criatividade na aplicação de tudo isto em produções invulgares. Choker assume a influência — nem poderia ser doutra forma –, mas ressalva que tem a sua própria “identidade sonora”.

Acima das restantes, “Windbreaker”, “Fuji Unlimited” e “Daisy” confortam-nos nesta viagem intitulada Honeybloom. Este disco não se ouve só uma vez: existe muito (emocionalmente e musicalmente) para absorver nas canções de Choker.

 


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