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Texto: Paulo Pena
Fotografia: Leeor Wild

O EP de estreia veio confirmar o potencial da artista do Alabama.

CHIKA está mais do que pronta para vingar nesta indústria

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Leeor Wild

Carismática, engraçada, irónica (quanto baste) e, sobretudo, com um talento gigante para a escrita e interpretação, como podemos ver, por exemplo, pelo seu Tiny Desk Concert, eis Jane Chika Oranika, uma das promessas mais entusiasmantes a abrir recentemente asas a partir do hip hop. E, visto daqui, nem o céu parece um limite para a rapper.

Filha do Alabama, CHIKA carrega a dor dos seus antepassados na forma como aborda os temas, mas traz também consigo o gospel, um dos géneros mais consumidos durante a sua infância, na sua voz. De raízes profundamente vincadas, a semente já deu flor, e as primeiras pétalas, cheias de cores, começaram a aparecer em INDUSTRY GAMES, o EP de estreia de CHIKA, lançado há duas semanas e praticamente todo produzido por Lido. Mas já lá vamos, que uma flor não brota de um dia para o outro.  Com apenas 23 anos, feitos no passado dia 9 de Março, CHIKA deu os primeiros passos debaixo dos holofotes do rap (apoiada pela pequena comunidade criada à sua volta através dos covers que ia postando no Instagram), elaborando, a certa altura, um freestyle viral por cima de “Jesus Walks”, onde se dirigia a Kanye West criticando a sua decisão em apoiar publicamente Donald Trump. Aí, a atenção de alguns tubarões da indústria, como Diddy, fora captada. A partir desse momento, tudo estava do seu lado — só faltava pôr mãos ao trabalho. Seguiram-se então os primeiros singles, e, em especial, uma colaboração com JoJo, em “Sabotage”, que lhe valeu uma ainda maior exposição enquanto artista emergente.

Chegados a Março de 2020, chegou também o primeiro projecto de CHIKA, INDUSTRY GAMES, “embrulhado” pela Warner Music, editora pela qual assinou depois de provar que era um diamante em bruto. A verdade é que Jane não se ficou pelas ameaças, e prova disso é este EP, que conta com sete faixas, uma espécie de apresentação/portefólio como rapper e cantora que é “abertamente queer“. E em jeito de introdução, CHIKA apresenta-se com um currículo curto mas extremamente valioso: “I met Hov last week, that shit was hella cool/ Diddy introduced me as best of the new school/ I’m not too shabby for an Alabama bitch/ Fuck gettin’ rich/ I got respect from heavy hitters and did it without a disc”. INDUSTRY GAMES aborda a perspectiva de quem chegou a este jogo e rapidamente se habituou a jogá-lo. E, em relação a CHIKA, é caso para se dizer, inversamente, “hate the game, not the player”. Ainda assim, a rapper com ascendência nigeriana veio para “matar o game”. Detentora de uma entrega camaleónica, oscila entre o rap de fast flow e os refrões confortavelmente melódicos. Tem voz; tem escrita; tem musicalidade. E tem, acima de tudo, uma capacidade rara, e, por isso, invejável, em mudar de registo com uma surpreendente naturalidade. É daqueles casos em que tudo parece encaixar sem grande esforço. Porém, a chave está precisamente no grande esforço que investe na sua arte, como confessa na reveladora entrevista à DJBooth A abordagem, essa, não se fica pela mera observação exterior. Não se deixem enganar pelo título deste EP. INDUSTRY GAMES fala-nos muito mais sobre Jane do que sobre esses “jogos”. Mostra-nos uma maneira de pensar, uma postura, tanto irónica (quanto baste, já se sabe) como consciente, relativamente ao processo de passar de fazer uns covers no quarto para encontrar Diddy e Jay-Z no corredor. A vida é isso mesmo. Um dia estamos a fazer música no quarto e no outro encontramos dois dos maiores nomes da indústria. E, com empenho e sorte à mistura, pode ser que um dia estejamos nesse corredor, de igual para igual com os grandes. Por isso, recorrendo às palavras da MC em “INTRO”, uma mensagem final: “i hope this music make you think”.

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