Chicago: ontem, hoje e amanhã

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

 

O espaço criativo pode assumir várias caras e formas. Um exemplo: Silicon Valley, um lugar que encerra em si muito do futuro da tecnologia e que só por si influencia os mais variados sectores, desde a saúde até à educação. Chicago tem vindo ao longo da história da música a mostrar que é uma cidade plena de vitalidade, abençoada com criadores influentes que ajudaram a impôr a marca da Windy City no mais vasto panorama americano e mundial. Muddy Waters, Frankie Knuckles, Herbie Hancock ou Kanye West são nomes de destaque e exemplos que comprovam que Chi-town tem um legado que certamente perdurará nas mentes dos curiosos, estudiosos e entendidos.

O blues que desaguou no rock’n’roll, o Warehouse de Frankie Knuckles a definir o que hoje conhecemos como house, o som único da soul de Curtis Mayfield ou Sam Cooke e o hip hop de Common ou Yeezy que já deu Óscares e GRAMMYs que cheguem para que sirvam de atestado para os que virão. Mas é no rap que vamos concentrar o nosso olhar, para mostrar que alguns dos artistas mais criativos desta área estiveram, estão e irão estar concentrados nesta cidade no estado de Illinois.

 

[A EMANCIPAÇÃO DO CHIPMUNK SOUL ENQUANTO FORÇA NO UNIVERSO HIP HOP]

Ligamos a máquina do tempo e voltamos atrás para nos centrarmos na ascensão de Kanye West. Yeezy teve um impacto brutal em todos artistas que estavam envolvidos na música da “Chi-City” e conseguiu impor-se com qualidade reconhecida. Apesar da sua importância, Kanye não seria Kanye se não tivesse existido um mentor como No I.D.

Ernest Dion Wilson, o “Padrinho do hip hop de Chicago”, criou as raízes para as idiossincrasias que reconhecemos no rap que sai da cidade ventosa. O ex-Presidente da G.O.O.D. Music  deixou marca em vários êxitos dos maiores artistas rap: “Holy Grail” do último álbum de Jay-Z ou “Black Skinhead” de Yeezus foram dos últimos temas a encontrar o seu nome entres os créditos. Como qualquer mestre, o produtor convidou Mr.West para as suas sessões – a teoria antes da prática – com Common e deu-lhe as ferramentas para se tornar no génio criativo de que ouvimos falar (praticamente) todos os dias.

 



Common, outro filho de Chicago, e No I.D conseguiram, juntos, o reconhecimento artístico dos seus pares através de Resurrection, exercício de lirismo complexo e produção de excelência. Common tem sido dos mais activos artistas do midwest dos Estados Unidos da América e um dos mais celebrados também. A sua longa carreira – editou o primeiro álbum em 1992 – tem sido de grande fulgor criativo, tendo em Like Water For Chocolate e Be os seus ex-libris. Kanye West chamou-lhe o “Marvin Gaye do rap” e é fácil compreender porquê: as letras com assertividade social e a musicalidade nos seus álbuns sustentam sem dificuldades a comparação. Common integrou os Soulquarians – colectivo onde militavam também um certo Ahmir “?uestlove” Thompson, um certo James “Dilla” Yancey ou, por exemplo, um tal de Kamal “Q-Tip” Fareed – , experimentou a representação e o ano passado até foi coroado com um Óscar e Globo de Ouro para melhor música com “Glory”, dividindo os louros com John Legend.

A transcendência criativa que preenche a memória colectiva da cidade de Chicago é incrível, como se anjos e demónios convivessem de forma amena no mesmo espaço. A “Grande Migração”, movimento que deslocou em massa a população negra residente no Sul para outros pontos do território americano, foi o principal responsável por este fluxo de ideias que tomou conta da cidade desde cedo. Se acreditarmos que existe esse tipo de memória colectiva, o hip hop que ouvimos em Kanye West é a perfeita sincronização de todos esses elementos, assumindo-se como um mar de contradições representados numa alma incompreendida e condenada a ser julgada até ao último dos seus dias. Como todos os que pensam à frente do seu tempo, Yeezy é uma força de natureza que continua a juntar inimigos, muito devido à sua vida pessoal. O engano poético não entra na obra de Kanye, sendo a sinceridade em doses generosas um dos principais pilares da contínua criação efervescente. A metamorfose constante é notória no desenvolvimento na carreira do filho pródigo de Chicago. O pré-BlueprintCollege Dropout é a fase em que vai produzindo para nomes menos conhecidos, aperfeiçoando uma sonoridade que haveria de ser classificada como “Chipmunk Soul” – a aceleração das vozes “sampladas”, muito delas recrutadas de antiguidades soul.

The Blueprint é o ponto de viragem na carreira de Kanye e um dos momentos mais fortes na discografia de Jay-Z. Um clássico do hip hop recheado de produções do agora aspirante a Presidente dos Estados Unidos da América. A partir daí, o seu nome passou a ser uma marca familiar e esse reconhecimento viria a desaguar no seu primeiro álbum de originais, que foi impulsionado por um acidente que lhe ia tirando a vida. Se os três primeiros álbuns (College Dropout, Late Registration, Graduation) de Kanye West foram uma história de amor com um final feliz, 808s & Heartbreak foi o aviso de que não estaríamos perante um artista com barreiras auto-impostas. My Beautiful Dark Twisted Fantasy é uma obra épica a demonstrar que Mr. West tem uma obsessão pela perfeição pelo menos tão grande como o seu ego e Yeezus é um testamento para o fim do mundo no universo digital – no meio destes dois, ainda temos Watch The Throne, álbum que proclamou Jigga e Ye como os donos do jogo.

 



Mas nem tudo em Chicago (ou no mundo…) gira à volta do marido de Kim Kardashian, apesar de ser difícil fugir da sua sombra. Lupe Fiasco é um MC que sempre se manteve à tona, mas que nunca sobressaiu, apesar de ter conquistado a crítica em diferentes alturas da sua carreira – a sua estreia com Food & Liquor e o último lançamento Tetsuo & Youth são exemplos desse reconhecimento. De Twista a Da Brat, o hip hop de Chicago encerrava em si outra forma de se viver, mostrando-se capaz de vender milhões e trazer sempre algum elemento fora do comum para o centro do tabuleiro.

 

[A JUVENTUDE WESTIANA A PROPAGAR A PALAVRA DE YEEZUS]

A banda Kids These Days pode não dizer muito aos leitores, mas é uma parte importante dos artistas que vão mostrando o porquê dos MCs de Chicago serem dos mais diversificados e inovadores, quebrando regras como se a música nunca tivesse barreiras a separar géneros. Vic Mensa e Nico Segal, também conhecido como Donnie Trumpet, faziam parte dos quadros desse grupo de Chicago e demonstravam seriedade e vontade de alterar a concepção do que é a música hip hop.

 



 

A sua separação acabou por ser frutuosa e existem dois nomes que, neste momento, parecem preparados para grandes coisas, e, quem sabe, ultrapassar o legado de Yeezy: Vic Mensa e Chance The Rapper. O primeiro chamou a atenção com a mixtape INNANETAPE, assinou com a Roc Nation de Jay-Z e colaborou com Kanye (Waves tem “Wolves” com Mensa) ou os produtores Skrillex e Kaytranada; o segundo vai juntando créditos como um dos mais promissores MCs a aparecer nos últimos anos, tendo como imagem de marca o seu flow sem régua nem esquadro a quebrar linhas e batidas – um Busta Rhymes com um timbre mais agudo. Madonna ou Justin Bieber também se renderam ao jovem de Chicago que é mais um claro exemplo da polivalência do sangue fresco desta cidade: os seus mais jovens nativos envolvidos no jogo do rap são hiperactivos, conscientes socialmente, tecnicamente evoluídos e saltam de géneros com a maior das facilidades. Acid Rap e Surf são dois excelentes exemplos que mostram que o hip hop de Chance vive de outros maneirismos, facto que muito se deve a uma banda liderada pelo já referenciado Donnie Trumpet.

 



No entanto, o mundo ainda aguarda os álbuns de estreia oficiais de Vic Mensa ou the Chance The Rapper, mas a passagem do tempo vai criando um hype assinalável que eleva esses futuros registos à lista dos mais esperados. BJ the Chicago Kid está na mesma situação e tem um In My Mind – álbum marcado para sair dia 19 de Fevereiro – que promete ser mais uma marca alta para a nova vaga de artistas neo-soul – Anderson .Paak tem qualquer a dizer sobre isto. O seu último lançamento ainda está fresco e demonstra bem onde é que o rapaz de Chicago vai buscar inspiração: D’Angelo, o messias com catálogo portentoso a inspirar toda uma geração de cantautores que procuram encontrar a sua voz. BJ, o tal Chicago Kid, não passou despercebido aos “grandes” e a sua voz pode ser encontrada em músicas de Kanye West, Kendrick Lamar, Dr. Dre ou MF Doom.

O futuro está agora reservado para os mais novos, preparados para seguir as pisadas de Chance The Rapper ou Vic Mensa. Dos nomes novos, existem quatro que vão tentando saltar e que se encontram em fases diferentes de evolução: Mick Jenkins, Saba, Tink e NoName Gypsy.

Pelo que já ouvimos, Mick Jenkins apresenta-se como o mais sério candidato a tomar a frente da corrida. A obsessão pelo conceptual demonstra que é um artista de corpo inteiro e encontramos nele todas as qualidade que definem um bom MC: técnica, conteúdo e flow. Por exemplo, The Water(s) é um registo que contém rimas que nos dão a volta à cabeça, atirando-nos versos num tom calmo e ponderado, a melhor maneira de se dissolverem nas batidas que nos parecem sempre preparadas para um estado meditativo. O rapper de Chicago já assinou com a Cinematic Music Group, que conta nos seus quadros com Joey Bada$$, e é em trabalhos como o acima citado ou o mais recente Wave(s) – Yeezy andou a ouvir o miúdo? – que nos baseamos para dizer de forma descomplexada que este é um dos diamantes à espera de ser lapidado.

 



Nesta altura já são vários os nomes que vão saltando à vista, mas existe alguém em comum entre eles: Saba. O MC/produtor já colaborou com todos os nomes emergentes de Chicago e é, apesar de contar apenas 21 anos, um músico já experimentado. O seu background familiar levou a que tivesse envolvido no universo musical desde cedo e as aulas de piano foram só o princípio. Os Open Mics foram a sua casa até aos 18 anos e o seu palco de experimentação, tendo sido numa dessas sessões que se cruzou com Chance The Rapper. Essa relação acabou por torná-lo num dos nomes a ter em conta com o seu primeiro brilharete a acontecer numa das melhores canções de Acid Rap, Everybody’s Something”, que também conta com BJ the Chicago Kid.  

Em Chicago parece mesmo haver talento por todos os lados e por isso é natural chegarmos ao fim desta viagem a bajular o compo feminino. Tink é protegida por Timbaland, um selo importante, e o seu estilo vagueia entre Lauryn Hill ou Erykah Badu, mudando facilmente de um registo cantado para beast mode a rimar. Se no início foi o drill rap – que teve como principal percursor Chief Keef – a dar-lhe uma voz, hoje ouvimos as suas músicas e não encontramos essa raiva e sujidade que era patente nos seus primeiros passos.  Com algumas mixtapes na bagagem, a rapper/cantora vai tentando cimentar o seu espaço e essa dualidade junta-se à habilidade para contar histórias, ou seja tudo importantes argumentos para no futuro conseguir furar as tabelas, encontrando um espaço só seu no meio de tantos outros nomes.

 



Last but not least, a pérola NoName Gypsy. Provavelmente já viram o seu nome na tracklist de Surf de Donnie Trumpet & Social Experiment ou Acid Rap de Chance The Rapper, Late Knight Special de Kirk Knight e na mixtape feita a meias por Chance The Rapper e Lil B”The BasedGod”. O que é que todas estas faixas têm em comum para além do nome da MC? Apenas o pormenor dos seus versos terem “esmagado” os dos seus anfitriões. Capaz de entrar em qualquer beat, NoName Gypsy tem arrasado com as suas colaborações, mas ainda não tivemos um lançamento a solo que nos permitisse perceber até onde é que ela consegue chegar sozinha – Telefone é a sua primeira mixtape e já podemos ouvir dois singles do registo.

E então, Chicago tem ou não um lugar especial no mapa global do rap?