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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 28/04/2022

Na companhia dos grandes.

Chef9: de Alvalade até à pgLang de Kendrick Lamar à boleia de loops

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 28/04/2022

Hoje já nem é preciso ter boca para ir até Roma, só precisamos de ligação à Internet e, se soubermos usar bem a informação, somos capazes de chegar a qualquer destino. Esta é a máxima com que Chef9, o nome com que o Gonçalo Brás assina enquanto produtor, conseguiu chegar aos ouvidos de Wiz Khalifa, $not, Pi’erre Bourne, Yeat e tantos outros.

No entanto, o que nos captou a atenção foi a sua associação à pgLang: o seu nome consta nos créditos da música de estreia de Tanna Leone, “With The Villains”, ao lado de um gigante da produção musical, Cardo, alguém que, só para começar, trabalhou em “goosebumps” de Travis Scott, “God’s Plan” de Drake, ou “GOD.“, de Kendrick Lamar. Coisa pouca…

Estivemos à conversa com ele, partindo da curiosidade que tínhamos para descobrir como é que esta colaboração com Leone aconteceu e deparámo-nos com um dedicado artista que desde o inicio da quarentena usou todas as horas vagas para se dedicar à produção. E descobrimos pelo caminho que em breve teremos mais novidades de um jovem que sorrateiramente colocou a produção feita a partir de Portugal nos ouvidos americanos (e a partir daí sabemos que o mundo passa a prestar toda a atenção).



Primeiro, para aqueles que não te conhecem, fazes uma breve apresentação?

O meu nome é Gonçalo, tenho quase 23 anos, vivi sempre em Lisboa, em Alvalade. Não sei propriamente tocar nenhum instrumento musical, teoricamente não sei nada de música, é só de ouvido. É basicamente isso.

Ok. Então, estás-me a dizer que aprendeste a fazer música sozinho.

Sim, sozinho, através de canais do YouTube. Tentativa e erro.

De onde partiu esse gosto pela produção?

Foi para aí em 2014. Sempre fui um miúdo da Internet, estive sempre dentro das modas. Comecei a gostar de hip hop mais ou menos na altura do Yung Lean e A$AP Rocky. Estava sempre a ouvir a mixtape do A$AP, o Live.Love.A$AP. Mas muitas vezes ia só procurar ao YouTube o nome das músicas e depois metia instrumental. A partir daí fui dar ao Clams Casino, o meu produtor favorito, então só ouvia as mixtapes do Clams, [só] de instrumentais. Mas para aí a partir de 2018 é que comecei realmente a olhar para o trabalho deles de uma forma mais curiosa e partiu daí.

Qual foi o disco do Clams Casino?

Foi o Instrumentals.

Já houve um certo digging nesse disco.

Foi, e depois ouvir cuts que não estavam na versão oficial. Já estava completamente mergulhado na discografia do Clams Casino. É um dos músicos que mais me influencia. Aliás, foi o disco do A$AP que me fez descobrir Clams Casino.

Mas ficando na parte das influências. Nos type beats que tens no YouTube aparecem muito os nomes de Playboi Carti, Yeat e por aí além. Mas, por exemplo, os beats de Playboi Carti se calhar partem da influência do Pi’erre Bourne.

Sim, em 2020 fui ao concerto live do Pi’erre no Estúdio Time Out. Depois de ver o concerto fiquei interessado e fui ouvir todo o catálogo. A partir daí inspirei-me imenso, comecei a juntar influências do Clams Casino e do Pi’erre e explorei esse tipo de som. É engraçado porque agora produzo imensas coisas para o Pi’erre e eventualmente sairá um disco quase todo produzido por mim.

Já colaboraste com nomes como $not, D Savage e por aí além. Como é que esse contacto surgiu?

Foi tudo através do YouTube. Coloco lá loops, nunca os beats inteiros. Eu faço loops. Na verdade, esses contactos surgiram porque eu disponibilizei loops e depois os produtores usavam-nos para terminar os deles. Tenho quase a certeza que é por causa disto: antes de ir dormir, mando sempre a DM a uma lista de produtores, e se não me responderem repito a prática até conseguir resposta. Para além disso, também tem a minha fotografia de perfil, que há muitos produtores que dizem que abrem as mensagens porque não estavam à espera de um gajo com um cigarro no nariz.

No caso do Pi’erre, não estás a fazer apenas loops, pois não?

O caso do Pi’erre é parecido com o do Tanna Leone. O produtor com que estou conectado, de quem faço parte da equipa, o Cardo, o gajo que produziu o “goosebumps” do Travis Scott e a “God’s Plan” do Drake… ele é um produtor lendário e adora as minhas cenas, tanto que já trabalhamos há um ano e tal. Foi com ele que surgiu a tape do Pi’erre. Ele já tem uma chamada Pi’erre & Cardo’s Wild Adventure, e eu vim satisfazer a necessidade de existir uma segunda, porque criei loops que facilmente poderiam ser usados por ele. 



Como é que te sentiste pela primeira vez quando soubeste que alguém “grande” tinha usado a tua música?

A primeira pessoa foi o Cardo. Fiquei completamente em choque. Nem acreditava que estava a acontecer. Depois, passado três dias, estava numa live do Pi’erre e ouvi-o a cantar uma melodia minha, nem consegui reagir. É algo que ainda hoje eu nem acho real.

Como é que te sentes ao fazer parte de projectos tão grandes? 

Por exemplo, fico super contente por estar na primeira música do primeiro álbum do Yeat. Já estou a chegar ao ponto em que quase desconfio que isto não é real. Estou um pouco dormente em relação à sensação de ter estes artistas a usar as minhas músicas. Não consigo explicar como é que me sinto em relação a isto. Para mim é surreal.

Achas que o facto de apenas contactarem digitalmente não influencia essa sensação?

Sim, é mais ao menos aquela frase: nunca conheças os teus ídolos. E como eu nunca os vi ao vivo é como se nunca os tivesse conhecido, e o facto de eles usarem a minha música ainda adiciona mais surrealismo a isto. Eu era mega fã de K Suave e de Trippie Redd. Nunca saiu nada oficial, mas só o facto de ele ter ouvido e cantado sobre uma música minha… isso para mim é surreal.

E já trabalhaste com algum artista português?

Não. Nem tive nenhum contacto com algum artista português. Um bocado do que eu faço é pôr os beats na net e quem quiser usar usa. Eu não estou muito a par da situação de música portuguesa, então não consigo dizer propriamente produtores portugueses com quem queira trabalhar. Produtores americanos consigo acompanhar muito melhor. 

Não é que não vá trabalhar com nenhum produtor e artistas portugueses, não me importava nada, até seria um desafio que aceitaria. Não é porque odeio música portuguesa, não tem nada a ver com isso, é simplesmente porque nunca houve oportunidade.

[Depois da entrevista lembrou-se que já tinha co-produzido “Frequência“, faixa destacada na #69 da rubrica Rap PT – Dicas da Semana, com Fabrice.]

Pois, seguiste um rumo diferente.

Sim, exacto, é mais focado na situação underground americana que vemos agora a surgir.

O trabalho com o Tanna Leone parece-me um salto enorme. É das primeiras músicas lançadas pela label do Kendrick Lamar, a pgLang. De certa forma estás a traçar os passos para aquilo que vem para a frente.

Eu não cresci musicalmente com a malta da minha zona, que é o que muita gente começa a fazer, e que tem a ideia que é a única forma de pores cá fora e distribuíres o teu som. Basicamente o que fiz foi fazer os meus sons, colocá-los no YouTube e os frutos acabaram por chegar.

Não é preciso street cred para teres sucesso.

Não, é só trabalhar e esforçares-te… Aliás, desde o início da pandemia que não faço mais nada senão beats. E o bom da internet é que não existem barreiras. Tu consegues produzir música que podes tanto ouvir na Rússia como podes ouvir nos Estados Unidos.

Agora sai o próximo projecto do Pi’erre, não é?

Sim, pelo menos nos próximos meses, a capa já está feita. Já está prontinha para sair.


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