Digital

Charli XCX

how i'm feeling now

Warner/ Asylum / 2020

Texto de Miguel Santos

pub

A música pop sempre teve personagens, ícones, artistas que nos inspiram através de um sem fim de hits memoráveis e exuberância musical, com canções apelativas e acessíveis. E depois temos Charli XCX e “pink diamond”, o tema que a britânica escolheu para começar o seu novo álbum how i’m feeling now, um projecto que nasce no isolamento forçado. E esse açucarado assalto sonoro é uma metáfora perfeita para um dos vários estágios pelo qual Charlotte Aitchison passou, bem como uma demonstração do lugar único que ocupa na música pop. Mas nem tudo é abrasão dentro das quatro paredes de um quarto, e nesse sentido how i’m feeling now é um versátil showcase dos vários ambientes sonoros onde Aitchison se encaixa.

Momentos após o caos introdutório, somos recebidos de braços abertos por “forever” e a sua paixão que se crê eterna, complementada por estática que varre tudo quando soa e um arranjo quente de vozes que circunda a melodia de Aitchison. Há algo de choroso na declaração de amor que é proferida, ciente de que pode acabar mas certa de que é para durar, como demonstra em “7 years”. É um tema docemente caótico e Charli XCX canta com muito sentimento. Mas apesar da entrega perscrutante e profunda, há uma inocência na sua cadência, uma estética sonora home-made que nos parece convidar para um quarto solitário em que os fones são o bilhete para uma viagem de avião onde não existem nuvens, mas melodias no ar.

E é desse quarto que mal pode esperar para sair como mostra em “anthems”, uma música de teclas disparadas e serradas que alimentam um desejo de retomar à normalidade e ao êxtase das grandes festas e das grandes noites. Há humor e ferocidade na demonstração do cansaço da sua realidade e na solidariedade com o restantes “reclusos” em confinamento (“Try my best to be physical/ Lose myself in a TV show”), como uma “birra” electrónica com que todos compactuamos. Mas o “espalhafato” de temas como este não ofuscam o tom mais contido do álbum, aplicado com sucesso em “enemy”. A música leva-nos de casa aos anos 80 como banda sonora para um cenário paranóico e sombrio em que o seu maior confidente é o seu inimigo.

É um conjunto de canções que mostra um lado mais introspectivo, fruto dos tempos que todos atravessamos e uma demonstração clara da arte enquanto reflexo da vida. Mas ainda que seja claramente influenciado pelo presente, how i’m feeling now não descura o passado que Charli XCX tem vindo a construir, mostrando a sonoridade da artista tal e qual como é: vibrante, surpreendente, orelhuda, revelando, passo a passo e cada vez mais, a singularidade do seu som.


pub

Últimos da categoria: Críticas

RBTV

Últimos artigos