Carly Rae Jepsen: a economia da pop e o sofisticado maximalismo de Dedicated

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Direitos Reservados

Vamos lançar um nome e queremos que o fixem durante um segundo: Carly Rae Jepsen. O que é que vos despertou este gatilho? O zumbido familiar de “Hey, I just met you” ou o delírio de um saxofone indomado? Se foi o primeiro, temos um problema — bem, corrige-se facilmente, como se provou em 2015. A resolução para a fartura de “Call Me Maybe” veio no neoclassicismo pop de Emotion, que nesse ano atingiu uma estranha forma de ubiquidade, como clássico de culto entre as comunidades alternativa e queer. A sua vitória é agora assegurada em Dedicated. Um disco mais limado, que os ecos da telefonia já estão longe de perturbar.

Hoje, o legado radiofónico de 2012 soa estéril: os últimos latidos da boémia electrónica — já monocromática, via LMFAO e David Guetta — por entre um fluxo de pop descarnada, cortesia de Ellie Goulding, Fun e outros perpetradores. Não custa perceber o sobressalto com Jepsen: veio inocente com uns arpejos, uns versos dóceis e fáceis (a árdua feitura da pop mais excelente tende a apresentar-se como descomplicada). Antes mesmo do refrão, já tínhamos capitulado à melodia; “Hey, I just met you”, efectivamente. Canadá, terra que viu nascer Jepsen ainda como cantora de folk, foi o paciente zero em 2011; um ano depois, o tema do álbum Kiss inscrevia-se na psique global como um vírus insanável, usando a qualidade orelhuda como arma de arremesso.



A saturação de Jepsen no éter e no digital previu a trajectória do seu campo de trabalho (no feminino): a irredutibilidade da fórmula verso-ponte-refrão, em fundo bubblegum, ainda era isco para o êxito, mas em regime extraordinário — concretizada desde então nos rendimentos marginais de uma indústria feita nicho. Quando se reinventou em Emotion, a cantora e compositora bateu com a porta da sua rampa de lançamento na cara, e ainda assim foi recebida com o tipo de ânimo para revitalizar uma carreira moribunda — o reconhecimento de uma obra-prima no momento, e não 20 anos depois, como tende a ser a apreciação da pop.

Hoje, Carly Rae Jepsen não é sinónima da (genial) purpurina de “Call Me Maybe”, a não ser para quem se abastece unicamente das provisões das rádios comerciais. Destrinçou-se desse circuito tirano com esse monumental LP (e um EP de material cortado do alinhamento original, em EMOTION Side B), o que não é para indicar uma mudança abissal no seu som algo oitocentista, imaculado, de mil octanas—só se tornou mais nocturno, mais urgente e inegável.

Começou por envergonhadamente se consagrar um reduto da pop que se tolera amar para o povo alternativo, antes de espoletar uma quase radical onda de poptimismo—aquele que valoriza em tempo real e desconhece o prazer culpado. Soube ultrapassar os seus coevos ao recordar um auditório importante (aquele que mais espezinhava a pop mainstream) da sua vocação: percorrer quilómetros, o mar a nado, a terra a pé, destruir versos e esboçar novos, gravar mil takes para ficar com o primeiro — dando-se a tribulações imemoriais para cristalizar uma boa, gutural, primal emoção.



A propósito desse Emotion, escrevia Spencer Kornhaber no The Atlantic: “Não há necessidade de sentir-se culpado sobre falar das mesmas coisas de que toda a gente fala, especialmente quando se pode ter algo novo a dizer.” Poderia ser esse o mote com que Jepsen partiu para a concepção do sucessor Dedicated…

…mas foi, na verdade, “música para limpar a casa”. Sim. Decerto que um dos vultos do zeitgeist em 2015 não deixou o sucesso (bastante específico) chegar-lhe à cabeça — muito menos deixou a falta de milhões de singles vendidos afastá-la dos lavores da pop mais acessível, ainda que intrincada e de estranheza latente. É quase sabido que, a este ponto, Jepsen não é capaz de fazer mossa nas tabelas nem com a mais segura fórmula — um dos singles de avanço, “Now That I Found You”, é do mais ultra-enérgico, aeróbico, de esmurrar o ar, e nem equipado com um teledisco de gatinhos fez mossa nos charts. O que a artista faz no novo álbum é tornar-se o ponto de inflexão entre os formatos clássicos de consumo e uma bizarria mais virada para dentro; também uma mediatriz a dividir a intempérie emocional da sofisticação.



O maior poder de Jepsen reside naquilo que faz com essas formas prontas-a-usar, que costuma ser injectar-lhes uma sobrecarga de delícia, bravura, espanto — na entrega melódica, vocal e sonora. O verso-ponte-refrão de “No Drug Like Me” é, em teoria, absoluta e banalmente pro-forma; agora, oiçam a música e tentem negar a perseguição espectral do falseto e a pegada do pesado baixo, embrulhados na sua synthpop gélida. Jepsen é talvez a melhor da sua geração a reciclar uma forma clássica para a espevitar de forma convincente — outros exemplos são a angulosa “Automatically in Love” e, claro, o perfeito carro-chefe “Party for One”, curiosamente relegado para a edição especial. Uma outra economia da pop, que estudou em Kiss, para se tornar doutoranda em Emotion, e continuar agora.

Os grandes álbuns tentam-nos a criar um molde para os seus autores e, no pós-Emotion, Jepsen viu-se identificada como a senhora que vocifera docilmente, que pinta as emoções em sons sempre mais garridos, para que possamos gritar ao seu lado (as egrégias “Run Away with Me”, “Gimmie Love”, “When I Needed You” nasceram para isto). A rainha de sentir no limite de “Warm Blood”—que volta neste disco para a fervilhante “Want You in My Room”—, a dona da intempérie de sensações, do amor puro (a faixa-título do álbum anterior, ou “All That”) ao amor-desespero (“Your Type”), sem esquecer a prerrogativa (o dever) de ser universal. Não é a emoção a matéria-prima que Dedicated vem transformar, mas a forma como a retrata: é essa a sua identidade e a divergência maior.

A meio do disco de capa cinzenta, que soa mais transicional do que definitivo, está o seu coração, o seu modelo: é “Too Much”. Só lendo a letra, percebe-se que Jepsen trava as suas investidas sobre um interesse amoroso, advertindo-o contra as suas próprias tendências para o drama e a intensidade. Diz-nos que pensa, bebe, dança—sente demasiado. Esse maximalismo do sentir permanece, é exposto com transparência, mas já não ganha corpo sonoro no clamor—é materialmente travado também. Já não há o pico de glicémia de “Turn Me Up” ou “Boy Problems”. As palavras são submetidas a um ritmo morno, um estalido regular e a pressão de um sintetizador; uma colisão diferente, que inaugura outra dinâmica emocional: a do controlo, de uma contenção económica e expressiva, uma nova sofisticação.



“Julien” com a sua disco robótica, inventiva e eufórica—o híbrido Daft Punk/Kylie Minogue que não merecíamos—como uma despedida em jeito de abraço eterno, fragmentado no tempo. A constância do piano e a saturação do toque físico em “The Sound”; a sensual e obsessiva, marginalmente assustadora “Everything He Needs” sombreada pelo minimalismo de um teclado que podia ser de brincar. Cada faixa podia convocar um crescendo, um grito de revolta. E é num purgatório minimalista, nem tanto à terra nem tanto ao mar, que estas e outras faixas germinam.

Às vezes, surge um ou outro empecilho. “Happy Not Knowing” ganha peso pelo impacto dos graves, para não a cortarmos como a divertida redundância que é; a pálida “Feels Right” não tem salvação. Quanto mais tempo subsistirá o disco neste modus operandi sintético, elegante, sem se tornar árido? Alguns trunfos não lho permitem: “I’ll Be Your Girl”, com o seu ska derivativo e a sua inveja palpitante, é feroz; a luminosa “Real Love”, com os seus disparos de EDM, é fazer corresponder à definição de amor uma única palavra — adrenalina.

Há uma perda de poder, com a moderação geral, na capacidade de manuseamento de Jepsen sobre os modelos cabais da pop. Manifesta-se em secções isoladas de cada canção — as mesmas que, em Emotion, eram cozidas até ganharem vida — e que aqui truncam o seu melhor crescimento: a transição para o desfecho de “Automatically in Love” é murcha e a de “Right Words Wrong Time” somente preguiçosa.

Eis que, nos últimos minutos de Dedicated, “For Sure” escancara novas possibilidades: Jepsen faz tábua rasa das estruturas em que se sagrou mestre, para reacordar liberta. Palmas, pássaros a chilrear; a abertura ofusca-nos com a luz que banha uma voz franca. Lá fora, a roupa lavada e o sol de sábado, e dentro, o segredo matinal sussurrado, ternura ou algo ainda por anunciar. A intensidade aumenta a cada repetição do mantra, mas de forma pouco linear, interrupta, à volta do lampejo de um cântico espiritual e curioso. É este tipo de coisa que ainda não tínhamos recebido de Carly, que nos deixa a pensar o futuro.



Imediatamente a seguir, “Party for One”. Pois. A perfeita, mas tão esquadrinhada “Party for One”. Um verso (sobre um amor não correspondido), uma ponte (de dúvida e empoderamento), um refrão (que a reitera)… Conhecemos isto. Conhecemos isto muito bem, aliás. Mas não com esta execução, escassas vezes com esta verve na produção e na voz. Os arpejos escondidos na produção ilustram um conto de fadas mortífero, um amor-próprio que nunca ferveu desta forma, ou nesta forma. Um final em estado de graça, aquele em que a imaginamos sempre.

“Aquilo que acho que devo aos meus fãs”, declarava Jepsen recentemente, “é ser destemida e intemperada, fazer algo de que poderão não gostar, e ser vulnerável”, por oposição a tentar “adivinhar” os seus desejos. O delicioso Dedicated lança as sementes para isso, e já obtém alguns resultados ostensivos, mas deixa-nos num impasse.

Após ter vendido milhões e visto o número reduzido a milhares, após ter feito a pop mais gritante e sublime para depois a refinar novamente, o que é para Jepsen ser intemperada? Como é que o revela em Dedicated, um conjunto que privilegia exactamente a temperança, em moldes tão reconhecíveis? Artista e ouvinte não têm de coincidir, é claro. Um desafio possível está em conseguir equilibrar os pratos da forma clássica e do território selvagem, algo a que, neste momento, Jepsen apenas alude. Mas é possível que esteja a pensar demasiado. Quando pensamos, pensamos mesmo demasiado.


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