Carlão: “Nunca deixei de olhar para mim como um puto”

[ENTREVISTA] Ricardo Miguel Vieira [FOTOS] Direitos Reservados

 

“Ter-me desligado dos terrenos do hip hop até aos 5-30 abriu espaço para fazer Quarenta. Quando os Da Weasel terminaram, senti necessidade de respirar e fiz coisas bastantes diferentes do meu registo, como Os Dias de Raiva e Algodão. Este último, em termos de energia, é completamente diferente: vim de uma coisa hardcore para algo quase spoken word. Por vir de uma coisa mais calminha, recebi de bom grado o projecto 5-30 porque me devolveu a vontade para fazer coisas para as quais já não estava voltado. Por exemplo, não estava com pica nenhuma para tocar em palcos grandes e não estava nos meus planos voltar a rimar como rimava com Da Weasel. Mas o Regula, o Sam The Kid e o próprio Fred [Ferreira] partiram-me imenso a cabeça e embarquei em 5-30, despertando um bichinho que estava adormecido. Daí que fazia sentido produzir Quarenta, algo impensável há dois ou três anos. No fundo, é isto que a minha cabeça e o meu corpo estão a pedir neste momento.

 


 


Desejava que Quarenta fosse um disco diverso como eu sou. Há temas no disco que gosto bastante mas se todos fossem assim, então perderia a pica. O Fred [Ferreira] e o King Kong, com quem tenho estado mais próximo, fizeram metade do disco e aí o som está muito próximo daquilo em que me sinto mais à-vontade. Tendo essa parte, queria que o disco fosse para outras direcções e aí fui falar com o Branko, que dá uns beats mais tropicais – a ideia nunca foi ter zouk bass, mas ouvimos aquele beat [“Os Tais”] e achei que podia dar uma cena fixe, embora o pessoal se esteja a passar um bocado, mas que se foda; há um tema do Agir, que tem uma ideia clara sobre como criar uma boa canção; ao Glue pedi dois beats à maluca, não sabia o que viria dali e acabou por ser uma surpresa muito fixe, foge um bocado à estrutura habitual de uma canção; e o Holly Hood apresentou-me o “Crioula”, que é para mim um dos temas mais fixes do disco. Basicamente sabia que a espinha dorsal do disco seriam Fred e King Kong e depois quis abrir espaço para outras pessoas. Feliz ou infelizmente, os meus trabalhos derivam sempre de coisas muito pessoais, quase todos os meus discos são de reflexão, mas não me sinto na meia-idade, embora acuse o toque do número, é bastante avançado para quem nunca deixou de olhar para si próprio como um puto.

É evidente que os nomes que adopto são identificadores e que por vezes confundem as pessoas. Carlão é o meu nome de sempre, desde puto. Se os Da Weasel tivessem aparecido dois anos mais tarde do que quando apareceram, eu não seria Pacman e sim Carlão, e o projecto provavelmente teria um nome em português. Nessa altura estávamos completamente vidrados na cena americana, então Pacman pegou de estaca e ficou. Com Os Dias de Raiva adoptei Carlão porque é o meu nome de sempre e em Algodão meti Carlos Nobre porque me apeteceu. Pacman é um nome que não me faz sentido utilizar hoje em dia porque era um nome mesmo dos Da Weasel. Carlão ou Carlos Nobre vai dar ao mesmo, não é uma espécie de heterónimo do Pessoa, com estruturas e envolvências diferentes.


 


As editoras usam-nos como nós as podemos usar. O Regula, por exemplo, não queria fazer 5-30 com uma editora, mas senti que se não o fizéssemos as coisas não estariam prontas a tempo, nem seriam feitas da maneira certa para sair naquele ano. Aquele disco tinha de ser naquele momento e até fiz alguma pressão junto dele para fazermos o disco, e lá o produzimos. Em Quarenta, o projecto foi pensado de forma diferente e faz sentido não tenha selo. As editoras, hoje em dia, querem ir buscar dinheiro aos gigs, ao merchandising, porque não se vendem discos e isso é muito injusto. Há uns anos era caríssimo alugar um estúdio para gravar e felizmente hoje em dia qualquer gajo grava uma cena minimamente boa em casa. Em termos de divulgação e promoção também tens ferramentas que não tinhas antes, portanto não me importo que me vão buscar dinheiro aos concertos desde que façam por isso. Faz sentido que uma editora me peça uma percentagem dos meus concertos se agendar uma série deles. Já o irem buscar dinheiro a uma coisa em que o trabalho é exclusivamente meu ou de uma agência – a quem já pago para executar esse trabalho – parece-me excessivo. Mas não quer dizer que não volte a deixar tinta no papel com uma editora, mas prefiro sempre fazer edição de autor.


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“Foi bom os Da Weasel acabarem quando acabaram. A brincar, a brincar foram 16 anos, fizemos bons discos e marcámos uma geração.”


Eu sou de classe média, a minha rua, não sendo bairro, era a que tinha mais pretos. Dali emergiu um bocado de tudo: desde o junkies mais fodidos, criminosos, até gajos que estão no Parlamento, que são outro tipo de criminosos. A minha rua era uma verdadeira mistura e vivi imensas coisas diferentes. Depois há a cena estranha de ser assim mestiço, era o preto-russo quando era pequeno, e ouvia sempre umas bocas e isso fez-me um bocado confusão. Aí procurei adaptar-me, queria agradar, fazer parte de um grupo ou movimento, que é muito importante e natural na adolescência. Mas cheguei a uma altura em que pensei que tinha de ser o que tivesse de ser, eu sou assim e não tenho de seguir um rebanho. E, felizmente, ao longo da minha vida, tenho-me dado com gente de todos os estilos e esta vivência toda está muito presente na faixa “Comité Central”.

É impossível existir pressão para igualar a dimensão dos Da Weasel e também é impossível igualar a carreira do grupo. Da Weasel é uma coisa que é muito especial para todos os elementos da banda e para o povo e era uma coisa que vivia muito das pessoas que lá estavam. Nunca houve essa pressão e ainda bem, porque seria sempre frustrada. Da Weasel é uma cena altamente que acabou quando devia ter acabado. É muito difícil uma banda passar décadas incólumes, os membros criam rotinas, acomodam-se. Talvez por isso os Rolling Stones sejam o que são. Talvez um Bob Dylan ou Neil Young consigam reinventar-se mais facilmente e ter uma carreira criativa até bastante mais tarde porque estão sozinhos. Foi bom os Da Weasel acabarem quando acabaram. A brincar, a brincar foram 16 anos, fizemos bons discos e marcámos uma geração. A ideia agora não é fazer mais e melhor: é simplesmente fazer música. Isto é mais forte que um gajo.”

 

Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.