Carincur: “Coloco-me sempre em estados desconfortáveis para criar”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTOS] Direitos Reservados

Carincur lançou o seu primeiro álbum, o desafiante Sorry If I Make Love With Sound, através da ZABRA Records. A sub-label da Zigur Artists volta a apostar num projecto diferenciador, alargando ainda mais o espectro estilístico do seu catálogo.

O minimal repetitivo que compõe a atmosfera do disco de estreia chega a ser inquietante, talvez pela profundidade dos temas — entramos na pele da artista a cada nova faixa. A entrega tão pessoal a este projecto parece muito pensada ou preparada, mas Inês Cardoso confessa que o momento, o impulso e a intuição definem a sua criação. Um reflexo coeso e continuado sobre a condição humana: da ansiedade à saudade, da castração à angústia. Os instrumentais acompanham a temática e, embora etéreos, estão imbuídos de experimentação e de um olhar inocente (mas pensado) sobre o som. A artista, já com um vasto currículo tanto ao nível de projectos como ao nível de formação, vem dum contexto “erudito” e mais académico, embora valorize uma abordagem transdisciplinar na sua criação. É também co-fundadora do colectivo Yuuts Ruoy.

O carácter único deste álbum dá-se até na individualidade da edição física: ao abrir o livreto que acompanha o CD, com as letras que dão voz a Carincur e aos seus samples, ainda temos algumas pétalas secas e um texto, personalizado e diferente para cada ouvinte. Um excerto dizia: “E de repente, saí do meu corpo e vi-me ali a mim mesma. De repente haviam duas. Uma que não sabia de onde vinha e a outra, a que eu achava no espaço físico presente”. Mais uma prova de que o formato físico potencia a experiência sonora.

O Rimas e Batidas falou com a artista sobre o processo artístico de Sorry If I Make Love With Sound, o papel da mulher na música electrónica, a importância do corpo na criação e o repensar dos rótulos relacionados com a arte e o som.



Introduzes este disco com a mítica entrevista de John Cage, na qual ele reflecte sobre o som, a música e o que define e distingue estes dois conceitos. Pensas que essa concepção livre e despreocupada do som defendida pelo Cage se reflecte muito no modo como trabalhas a tua produção e as tuas composições?

O John Cage foi extremamente importante a certa altura da minha vida. Eu venho do Conservatório de música, onde me foi passada a tal técnica musical. Foi a minha querida professora, com quem tinha conversas lindas, que me introduziu o Senhor Cage. Apareceu e fez-me questionar o que para mim era música, fez-me agir, tomar decisões, inclusive abandonar essa academia. 

A partir daí, a minha busca começou a ser focada principalmente nesta questão: os rótulos que nós usamos como saquinhos na sociedade para nos conseguirmos entender, e como isso nos limita. O que é composição, som, música? Bem como nas outras disciplinas. O que é coreografia, dança ou teatro? Eu acredito que para chegar à essência da composição é preciso colocar o corpo e o pensamento fora do campo do julgamento. Encontrar o lugar da pura intuição. E para isso, antes de construir, é preciso desconstruir todas as ideias pré-estabelecidas. Eu não diria que essa concepção é despreocupada. Para mim, é super organizada, teórica e matemática. Esquecem-se que a música é simplesmente uma ordenação de sons. São frequências, é física e matemática. Quanto à musicalidade, isso está presente em toda a natureza.

Neste contexto, sinto que a música experimental sofre sempre um julgamento muito grande. “Isso não é audível”, “isso não é cantar”, até mesmo “isso não é música”. Todas as minhas composições são o resultado deste meu pensamento, seja ele considerado válido ou não. Não planeio nada, não faço ideia do que vai acontecer, ou qual vai ser o resultado e é isso que me estimula. Pretendo desafiar o espectador em relação a estes rótulos, quais são os seu limites e romper esses sacos, pois tenho muita dificuldade em inserir-me num deles. 

Por isso sim, o Cage é muito importante porque também desafiou o espectador nesse sentido. A introdução no álbum é uma homenagem e ao mesmo tempo pretende preparar o ouvido do espectador para o que irão receber.

Expressa-lo também no título do disco. O que está, então, por trás deste Sorry If I Make Love With Sound?

Sorry If I Make Love With Sound vem de um dos meus textos que surgiu durante o processo. Surgiu da minha pesquisa onde trabalhei com sons interiores do meu corpo. Por isso, este título é literalmente o que ele diz. Achei que era oportuno, por ser um trabalho tão autobiográfico. Como neste trabalho sou simplesmente eu, a ser verdade, a partilhar estes meus pensamentos em relação ao mundo, a partilhar o meu íntimo. E não há nada mais íntimo do que fazer amor. Porque é isso que para mim ele é.

A voz acaba por ser uma maneira de juntar todas estas experimentações sonoras e torna-as num todo coeso conceptualmente. Como surge a escolha destes instrumentais para estes títulos e para este trabalho? Tiveste de passar por um processo de selecção ou sabias exactamente o que querias para o álbum?

Os instrumentos não tiveram uma selecção prévia, eu nunca trabalho nesses moldes. Eles apareceram. Foi através da descoberta que surgiram naturalmente como instrumentos a minha voz, o meu corpo e outros corpos vivos como a planta e a água. Consequentemente, para poder usá-los como materiais mais plásticos, surgiram os instrumentos electrónicos, como ferramenta para explorar. Permitindo a captura, modulação e composição.
Os títulos são motes, são frases-chave que levantam as questões propostas por mim, sobre os temas em que vou viajando e partilhando com o receptor. São tudo questões que, de alguma forma, me atormentaram, que me fizeram também levantar questões e a vontade de falar sobre elas. Eu não sabia exactamente o que queria para este álbum. Sabia que não queria fazer só um CD dentro de uma capa acrílica com canções, nem dar só uns concertos. 

Então surgiu este objecto, onde estão presentes itens pessoais. Cada pessoa terá um objecto único. São tudo coisas que guardei ao longo deste processo, como recortes de textos dos meus cadernos. Sabia que também queria chegar a algo autêntico, intenso e pessoal. Uma partilha genuína e verdadeira com o mundo. Sabia que queria criar um ambiente imersivo, onde o espectador pudesse pertencer e ao mesmo tempo provocá-lo. Provocar no sentido de o fazer questionar. Dar-lhe outra possibilidade para o que pode ser música, e ao mesmo tempo partilhar o meu pensamento sobre determinados temas que começam por ser pessoais, mas que se tornam gerais à existência humana.

Este trabalho também vai ao encontro da fuga de certos mecanismos e técnicas. Coloco-me sempre em estados desconfortáveis para criar. Ao habitar o corpo enquanto estúdio de gravação onde o aleatório e o acaso operam como instrumentos sónicos. Procuro desafinar, encontrar sons menos agradáveis, menos “musicais”. Mesmo que não chegue lá, tento.

Há algo de muito visual e teatral na tua música, e na tua apresentação ao vivo. Quanta desta teatralidade e noção de performance foi pensada logo à partida, durante a composição?

Nada disto foi pensado durante a composição. Quando comecei este processo nem pensei no resultado dele como um álbum. Eu venho das artes visuais e do teatro, por isso creio que seja normal ver um pouco dessas influências no que faço. Mas não penso em fazê-lo, de todo. Se me pedissem agora para fazer agora alguma coisa, estava pronta. Estou sempre, mas não sei para o quê. Adoro a intuição e a capacidade de acção repentina. Para a performance de lançamento no Desterro, pensei uns dias antes o que poderia fazer e que elementos levar, sem grande preparo ou reflexão. Fiz o que o meu corpo pediu. Como artista, não me interessa saber o que vou fazer. É o momento presente que decide.

Como foi trabalhar com a ZABRA na edição do teu disco de estreia? Como se deu a ligação?

A ZABRA é uma história muito bonita para mim. Surgiu numa altura muito vulnerável. Tinha acabado de chegar de uma temporada em França e vinha cansada, derrotada e assustada com a ideia de voltar para Portugal como artista. Terminava de gravar o álbum quando falaram comigo. A verdade é que nunca pensei estar a trabalhar com uma editora. Já conhecia e seguia o trabalho deles, que sempre achei super interessante, com uma identidade musical muito própria, de mudança.

Acredito muito no que eles fazem e que são uma contribuição muito importante para o desenvolvimento da música electrónica em Portugal. Ao mostrar estes músicos com uma vertente mais plástica, mais visual, mais provocativa no que toca ao rótulo vigente de música electrónica. Fiquei rendida com o convite. Primeiro por ser a primeira mulher a chegar a esta label e depois porque a química foi imediata. Não tinha melhor sítio para estar e não podia estar mais grata. Estou muito ansiosa para os próximos lançamentos que farei com eles. Sinto que estou em casa e que tenho um espaço seguro para experimentar. Eles permitem-me ser o que sou e isso é raro. 

Apesar da tensão e inquietude da tua música, há também algo de muito etéreo e atmosférico no Sorry If I Make Love With Sound. Quais são as tuas maiores influências artísticas?

Isso é sempre uma pergunta muito complicada para mim. Porque poderia ficar três horas a fazer referências. São tantas… Tantas as coisas que absorvo. Nós estamos constantemente a ser influenciados pelo que está à nossa volta. Tudo o que leio, escuto, vejo, acaba por me influenciar. Passa sempre por temas autobiográficos. Sociedade, comportamento humano, realidade, ficção, o meu próprio corpo, pensamento e o seu impacto na sociedade, na economia, na cultura e na política do mundo.

Interessa-me pura e simplesmente trabalhar com o que já tenho, o concreto, uma herança da música concreta, experimental e subversiva. John Cage, Laurie Anderson, Fátima Miranda, Steve Reich, Cathy Berberian, Meredith Monk, Sidsel Endresen, Nina Hagen, até mesmo Bjork. Podia ficar aqui o dia todo…

Numa nota um pouco diferente, o que nos podes contar sobre o trabalho que desenvolves com o Yuuts Ruoy?

O projecto Yuuts Ruoy é como se fosse um filho e uma mãe ao mesmo tempo. Vi-o crescer, mas foi ele também que me permitiu crescer como artista. Foi aqui que pude desenvolver e partilhar grande parte do meu trabalho. Co-fundei o Yuuts Ruoy em 2012, nas Caldas da Rainha. Surgiu com a urgência de um colectivo de artistas em criar.  Surgiu de forma muito ingénua. Fazíamos mostras, eventos, performances e não sabíamos sequer muito bem o que estávamos a fazer ou o que era isto dos Yuuts Ruoy. 

Foram muitas as circunstâncias que diziam que este projecto ia terminar. Por sentirmos tanta revolta e frustração, por não conseguirmos fazer o nosso trabalho como artistas de forma saudável, decidimos tornar o Yuuts Ruoy numa plataforma. Com o intuito de apoiar, desenvolver e arquivar arte emergente, não-convencional, experimental e assim facilitar o trabalho dos que partilham das mesmas dificuldades. É uma manifestação política da posição dos artistas em Portugal e no mundo. 

Vamos fazer uma revista, uma espécie de catálogo. A sua primeira edição será lançada ainda este ano, seja qual for o nosso orçamento para tal. Funciona como objecto artístico colaborativo de curadoria — dá lugar aos artistas para apresentarem a sua obra, percurso, ideologia ou identidade. Assume o valor de conservar, mas também um valor documental de uma época cultural em Portugal. Vamos também continuar com as mostras. Estes showcases ou experiências funcionarão como laboratório. Contarão com uma programação multidisciplinar com inclinações experimentais, com um modo próprio e particular de serem incógnitos. Disponibilizando ao espectador o acesso a um universo estimulante e de constante descoberta.

O trabalho desenvolvido resume-se em provar aos estados, aos sistemas, aos mercados, que é importante existir trabalho criativo, que existem soluções saudáveis e viáveis para ser praticado. Portanto, essa é uma preocupação geral com a qual nós assumimos compromisso e dedicação. Continuar com esta espécie de energia latente e continuar a gerar resultados relevantes ao cenário cultural do nosso país.

Existem algumas editoras que se têm esforçado especialmente a favor da representatividade feminina neste meio musical, como a INTERA ou a naive, por exemplo, mas ainda é preciso trabalhar mais para uma maior equidade na indústria. Como vês o cenário da música electrónica actual?

Sinto que ainda temos que mudar um certo paradigma ao associar a música electrónica ao clubbing, espaços nocturnos, raves, festas. Baseado em criar ambientes centrados no entretenimento e felicidade momentânea. Sendo também produzida muitas vezes para fins comerciais, abrangendo uma maior variedade de público para gerar mais lucro.

Não pretendo criar polémica em relação a este assunto, mas não nos podemos esquecer que, na sua definição, música electrónica é todo o tipo de música que é criada através do uso de equipamentos e instrumentos electrónicos. Por assim dizer, tudo o que está fora desse ambiente também o é.

Sinto que começam a surgir projectos com esta urgência, muito vincados. A comunidade LGBTTQQIAAP, por exemplo, tem estado a fazer grandes avanços e a propor matérias profundas e interessantes, desafiando a ideia de clubbing. E a presença da mulher começa a ser cada vez mais evidenciada. Como a ZABRA, vemos cada vez mais labels a abrir um leque mais variado quanto ao género. De qualquer das formas, a representatividade do feminino ainda tem muito para caminhar e reeducar. É engraçado, mas os meus seios descobertos na última performance que fiz é o meu manifesto em relação a isso. E os feedbacks foram de opiniões super positivas, mas tantas outras negativas ou indelicadas. Isto só confirma como as coisas ainda estão. Como costumo dizer, a revolução sexual vai alcançar o seu clímax quando o homem desconstruir a sua imagem e tiver a capacidade de se pôr no mesmo plano que a mulher. E aí vamos atingir a igualdade plena.


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