“Pelo inconformismo o mundo castiga-te com o seu descontentamento”, diz em adágio Ralph Waldo Emerson, que bem pode ser trazido para acicatar o modo de estar da super-banda Cara de Espelho. Está na estrada o seu segundo longa duração, e depois do bem sucedido Cara de Espelho (2024), trazem em B (2026) uma continuação da lição anterior, e bem estudada. Sem apelo nem agravo. Afinal são uns quantos de nós a fazerem-nos olhar sobre nós — nós daqui e vós daí…
Loulé viu actuar no carismático cineteatro — muito bem composto de quem os esperava (sabendo bem ao que vinha) — Maria Antónia Mendes na voz, os irmãos Martins (Luís e Pedro da Silva) nas guitarras, Carlos Guerreiro nas flautas e instrumentos (em muito inventados), Nuno Prata no baixo, Sérgio Nascimento na bateria e com a participação especial de Gonçalo Marques nas flautas. O conceito de super-banda deriva das muitas vidas prévias destes músicos, desde o GAC (Grupo de Acção Cultural), aos Gaiteiros de Lisboa, passando por Deolinda, Naifa, Ornatos Violeta, ou Humanos, entre outros. Gente bem batida e com muita disposição em continuar a bater (e bem) de malho no bombo. Algum dia isto trará o desejado efeito… ou então não, e o simples motivo de existir no dizer traz um doce alívio, paz de espírito.
A terra que viu o “poeta-cauteleiro” António Aleixo em muito recitar, como tão bem sabia, de seu ar irónico, faz-lhe merecida herança ao receber a poética de veia satírico-jogral de Cara de Espelho. “Porque o povo diz verdades / Tremem de medo os tiranos / Pressentindo a derrocada / Da grande prisão sem grades / Onde já há milhares de anos / A razão vive enjaulada”, rimava Aleixo; e parece tão evocada a memória quando se escuta em palco, e neste lugar, “Fujam fujam, muitas cautelas / Tranquem portas, cerrem janelas / Não tem freio nem protocolo / O pica, pica, pica-miolos”. Presságios de uma noite que trazia muitas das novas canções a palco. Sem contudo esquecer que são comuns como os demais ali sentados. De pronto se encarregam de esclarecer, como em “A Seita”, que: “Quem aceita é parte da seita / Aceita e és parte da seita”, uma declaração de intenções, plena de lirismo. A corrente dos dias é passada em revista, fuga à normativa é o que se deseja, mas invariavelmente subjugado à fanfarronice do capital, como se prestam a assumir com “Bem-Vindo”.
A palavra que vai na frente, sem pedir licença, dispensando protocolo, onde nem a cadeira disposta em palco resiste á entrada em cena. Aqui diz-se tudo de pé, deixem passar, sem demora! A música assume recortes de genialidade, até parodiante, muito na esteira do que é a invenção instrumental de Guerreiro — mestre construtor de ideias sonoras que expressam folias e ironias. Há carretos a matraquear cordas e vozeirões instrumentais soprados de fundo, entre flautas e flautins. Fica em desejo dar-lhes ou saber deles os nomes. A combinatória instrumental aliada à cenografia que aponta à escultura funcional. De engrenagens feita, disposta a recombinar caras, com almas de ferramentas delirantes. O que lhes vai na cabeça, pois então, tudo gira na roda viva deste palco e transpõe o mundo lá de fora cá para dentro. Ana Viana assina a identidade visual deste propósito, assim como a arte gráfica do disco que já roda a bom rodar. Daqui seguem viagem. Olhos e ouvidos postos neste andamento que eles “andem” aí, de terra em terra. Isto é uma farra mas que é feita para reflectir. Que se cuide a quem a palavra lhe assenta mal… tal e qual como em “Aldeia Fantasma”, quando deixam por aviso:
“Passou aqui noutro dia
Bem falante, um autarca
Que esta aldeia é muito rica
Dá mais lítio que batataDiz que é prós telemóveis
Carros e o diabo a sete
Mas pra quê num fim do mundo
Sem estrada ou internet?”