Capicua: “Posicionei-me na música cumprindo a minha visão artística da forma mais independente possível”

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTO] André Tentugal

Nunca foi artista de singles e é por isso normal a distância que separa Madrepérola, álbum editado hoje, de Sereia Louca, o muito aplaudido registo de 2014. Capicua não trabalha para o momento (“não fiz hits de Verão e não é por não saber como”, garante-nos em “Passiflora”, canção de abertura) mas sim para a intemporalidade, à boleia de uma carreira repleta de notáveis episódios discográficos, dos quais se mostra assumidamente orgulhosa. Para Ana Matos Fernandes, um álbum não é uma simples compilação de músicas mas sim um trabalho desenvolvido com base num conceito, numa abordagem, reflectindo o que o momento pede, desenhando um quadro temporal ou retratando uma fase da sua vida. Madrepérola centra-se no mundo actual, das redes sociais ao estado do hip hop, mas foca-se sobretudo no presente recente da artista, da questão da maternidade ao limbo onde diz encontrar-se no que diz respeito à sua posição na cultura em particular e na música portuguesa em geral. O Rimas e Batidas esteve à conversa com a artista portuense na loja de discos Chasing Rabbits, em Lisboa.



Na recta final do teu concerto inserido na edição de 2017 do Festival Iminente deste a entender que precisavas de isolar-te para começar a escrever música nova. Madrepérola sai hoje à rua. Quanto tempo ao certo é que demorou todo este processo?

Eu diria que a recolha de beats começou em 2017. A fase da escrita e gravação deu-se em 2018, um ano em que tive muitos concertos, alguns deles fora do país – toquei em Paris, Barcelona, Guadalajara e São Paulo, o que atrasou de certa forma a construção. Fui mãe no início de 2019, e retomei o trabalho passados alguns meses. Aproveitei para melhorar algumas coisas, gravar os convidados. Seguiu-se a mistura, a masterização, o artwork, houve também uma mudança de editora. Aconteceu muita coisa em 2019. Como tive um bebé no princípio do ano, os 15% que faltavam do álbum demoraram imenso tempo. Foram vários os processos dentro dessa baliza de finais de 2017 e início de 2020.

Já deves ter respondido inúmeras vezes a esta pergunta, mas é inevitável: Madrepérola porquê?

Primeiro pela alusão à maternidade, porque foi um disco que escrevi e gravei grávida. Essa ideia está muito presente na própria palavra. Mas também pela metáfora da ostra e da pérola. As ostras só produzem pérolas quando há um grão de areia que as incomoda, que entra na concha. Quando isso acontece, elas criam uma espécie de baba que as protege, ou seja, acabam por fazer desse incómodo algo belo. Achei essa metáfora superpoderosa. E resume também a própria vibe do disco, que é mais solar que o habitual. Até nos temas mais sérios tentei ir pelo lado mais positivo, irónico, cómico. Senti que seria para mim um desafio fazer música de uma forma mais positiva, leve e suave. Acaba por ser o retrato desta fase da vida.

Houve uma Sereia Louca, depois veio a Medusa, agora a Madrepérola. Tens um certo fascínio pelo mar, não tens?

Tenho [risos]. Eu costumo dizer que este é o terceiro capítulo de uma trilogia não planeada. Não tinha em mente fazer uma saga marítima, aquática, mas acabou por acontecer. Toda essa ligação tem muito a ver com o facto de eu enquanto miúda ter vivido ao pé do mar e de todo o fascínio que isso gerou em mim, era algo muito presente no meu quotidiano. Eu morava a 300 metros do mar e minha escola também não ficava muito longe. Mesmo a Sofia de Mello Breyner, que está muito presente nos meus discos, tem uma ligação forte com o mar. Essa dimensão aquática sempre me inspirou muito. As referências, a mitologia, o imaginário. Os portugueses em geral são muito inspirados pelo universo marítimo. Eu acho que esse fascínio começou de uma forma muito inconsciente. Agora é uma coisa óbvia, mas durante muito tempo não foi.

No teu álbum tens um tema intitulado “A Minha Ilha”. Podemos dizer que é a “Casa no Campo” de Madrepérola?

Por um lado, como esse lugar utópico que eu amo e onde me sinto feliz, é. Mas acho que a “Casa no Campo” é uma música muito mais cor-de-rosa, estabelecendo uma correspondência directa com a “Planetário”, o tema com a Mallu Magalhães. Digamos que a “Casa no Campo” é prima das duas no sentido de ser igualmente cor-de-rosa quanto a “Planetário” e de falar desse lugar utópico que é quase o arquétipo de paraíso eterno como “A Minha Ilha”. Por acaso nunca tinha pensado nisso. Obrigado [risos].

Em “Passiflora” dizes que o hip hop que queres para o futuro “não será conservador nem machista nem burro”. Sendo uma rapper que anda há muito nisto, achas que o paradigma está melhor ou pior?

Acho que está igual. Por um lado houve coisas que evoluíram, no sentido de hoje em dia ser normal haver miúdas a fazer rap – não há tanto preconceito como havia no passado. Acho que isso melhorou um bocado. Por outro lado, acho que tens um rap ostensivamente materialista e politicamente incorrecto, no mau sentido do termo. No passado as pessoas se calhar tinham mais pudor em afirmar-se de uma forma tão in your face na sua misoginia e na sua agressividade. Com algumas excepções, como é óbvio. Evoluímos em muita coisa, também. Antigamente os rappers diziam coisas abertamente homofóbicas e se calhar hoje em dia os mesmos rappers já não o fariam. Como nestas coisas há sempre retrocesso e avanço, a coisa equilibrou-se e acho que o machismo continua o mesmo. Ou seja, em termos de proporção. Mas não tem a ver só com o hip hop. Nós vivemos numa cultura machista. Às vezes somos muito implacáveis com o meio do hip hop e somos pouco implacáveis com a cultura em que vivemos. Porque eu oiço toda a gente dizer que o rap é um meio misógino mas a verdade é que vivemos num mundo misógino. E não vejo as pessoas a apontar esse dedo com a mesma intenção.

E não é um mal que resida apenas no rap, estender-se-á certamente a outros géneros musicais…

Sim. No geral, os meios musicais são quase todos dominados por homens, e mesmo num contexto como o fado em que as mulheres têm mais protagonismo, tu vês quem são os autores, os letristas, os editores, os managers e os instrumentistas: são todos homens. São eles que controlam o game. Mas ainda assim temos evoluído. Em Portugal tens muito mais mulheres a fazer a sua música, a controlar a sua carreira. Vês também muitas mulheres na própria indústria. As principais editoras em Portugal são comandadas por mulheres. Aos poucos, estão a tomar conta do mercado musical, contudo, naquilo que tem a ver com as tribos urbanas, continuamos a ver muitos boys clubs. É muito difícil encontrares a paridade ou veres sequer que é um meio acolhedor para as miúdas que estão a começar.

Ainda deve ser muito complicado vingar num meio assim…

Tens que ser uma miúda com uma atitude do caraças que se está a marimbar ou então tens que ter a sorte de ir com uma amiga ou um amigo que te amortize o impacto. Eu acho que tive as duas coisas. Por um lado estava-me a marimbar e por outro tinha a M7 e o D-One que me ajudaram a suavizar o choque. No geral não é um meio fácil porque acho que a maior parte dos gajos do rap não tem amigas. Vivem muito entre eles, estás a ver? E às vezes não é machismo declarado é mesmo falta de comunicar com mulheres de igual para igual.

Mesmo que muitas vezes possa acontecer de forma inconsciente…

Dá-se de forma natural porque são rapazes, têm as mesmas conversas aos 15, aos 30 e aos 45. As mulheres com quem convivem são as irmãs, as namoradas, mas não são os bros, percebes? Acho que é um pouco uma tribo de gajos sem amigas e isso faz com que haja uma estranheza, não sabem muito bem como comunicar connosco, há uma espécie de desconforto. E mesmo que não seja de uma forma declarada, acaba por ser difícil para nós encontrar um espaço seguro em que nos incluam. Se isso no primeiro impacto é óbvio, quando entras, acaba por se manter quando ficas e quando mostras o teu valor. Às vezes até são mais motivadores no início do que quando tens provas dadas. Começas a incomodar e já ninguém se quer comparar contigo porque és uma mulher. Acabas por ficar numa caixinha lateral estilo “esta está aqui na prateleira”. E só pode haver uma vaga de cada vez. Quando entra uma nova, existe uma necessidade de dizer mal da anterior para justificar essa presença. É algo ridículo mas acontece. Até no rap americano. Quando apareceu a Cardi B, toda a gente começou a dizer mal da Nicki Minaj. No dia em que vingar outra rapper, a Cardi B deixa de prestar. Só há vaga para uma. É ridículo porque aparecem mil rappers homens por dia e há espaço para todos.

Em “Cartas a Jovens Poetas” abordas um pouco essa questão das mulheres no rap, certo?

Eu faço três cartas diferentes, e uma delas é para a miúdas do rap. A outra é para o principiante que acha que devia ter mais reconhecimento do que aquele que realmente tem – acontece muito nesta geração de Internet os artistas acharem que basta meter uma música online para as pessoas lhe reconhecerem o talento, ou seja, numa expectativa de sucesso imediato. A terceira carta é para aquele músico que teve um disco com muito êxito e teme que, quando passar o hype, haja algum desinteresse, algo que acontece muito no nosso meio e na música portuguesa em geral. Há muito hype. Num ano toda a gente fala de um artista mas logo a seguir deixa de ser fresh: está-se tudo nas tintas e vem outro.

Como é que nasceu esta ideia?

A ideia partiu do facto de eu receber muitas mensagens a pedir opinião acerca de letras e músicas. Há muitas miúdas que me pedem conselhos disto e daquilo. E também recebo muitos e-mails de pais de miúdos que querem ser rappers a perguntarem o que os filhos devem fazer. Por um lado sinto-me um pouco desconfortável por ter que aconselhar alguém ou comentar a música de alguém: não me vejo nessa posição. Por outro lado não me sinto bem em não responder porque as pessoas têm essa necessidade real de tirar dúvidas e receber algum feedback, alguma orientação. Cruzei-me com um livro de Rainer Maria Rilke, um escritor alemão, no qual troca cartas com um rapaz que está a começar a escrever. Ele também está nessa contradição. Se escrevemos por necessidade vital, não faz muito sentido ir perguntar a outra pessoa se os nossos versos são bons. A conclusão é básica: olha para o teu interior e para as tuas motivações e percebe se precisas mesmo de escrever. Se sim, procura em ti a matéria-prima e não esperes pela aprovação. O livro acabou por me inspirar nesse sentido.

Ainda em “Passiflora” dizes que não és pessoa de fazer hits de verão. Sentes que trabalhas para a intemporalidade?

Sim. Em “Egotríptico”, uma canção do Medusa, digo “não tento ser inovadora, eu escolhi ser intemporal, isso do futuro é rápido e eu já sou imortal”. Eu nunca trabalhei para a popularidade nem para o mercado, no sentido de não me querer posicionar no mainstream puro e duro no qual tenho que chegar a um certo número de streams e views para justificar a minha qualidade artística. Nunca foi a minha cena. Posicionei-me na música alternativa cumprindo a minha visão artística da forma mais independente possível. Sempre vivi um pouco entre essas duas margens. Não faço hip hop comercial, apesar de algumas das minhas músicas terem furado nas rádios mais mainstream, como a “Vayorken”. Nunca o fiz conscientemente. Aliás, até foi uma surpresa para mim. Então sinto que fico ali um pouco no meio, na encruzilhada. Os puritanos antigos acham que já não sou hip hop porque o meu público é diverso. Todavia, também não sou uma artista mainstream que atinge grandes números e views. Sou uma espécie de ornitorrinco. E vivo bem com isso. Acabo por um lado por sentir que me excluíram da tribo sem me terem mandado uma carta registada para casa, porque o meu público é diverso, transversal e adulto, e se calhar não corresponde ao arquétipo de rapper dread, com público teen, bad boy. Sou intelectual e transversal demais para ser da tribo. Depois também não sou o comercial suficiente para ser do mainstream. Digamos que sou patroa da minha música, só cumpro a minha própria visão artística, não estou a cumprir expectativas. É um pouco isso que retrato na “Passiflora”.



A dada altura dizes para aproveitarmos este disco porque “pode ser o último”. Não estamos perante um derradeiro episódio discográfico, pois não?

Não sei [risos]. Mesmo que eu continue a fazer música não sei se vai continuar a haver espaço para álbuns. Começaste por me perguntar quanto tempo é que levei a construir este disco. Levou três anos. Quanto tempo é que vai ser investido na escuta? Quanto tempo é que as pessoas vão realmente dedicar a ouvir o disco inteiro? Serão provavelmente poucos os que vão ouvir na íntegra…

Vivemos numa cultura de singles

Singles, playlists. Ou seja, o tempo do disco, da arte, do processo criativo, não se coaduna com o tempo do mercado, com o tempo do consumo. Esse desencontro também faz com que seja um pouco desmotivante estar a tentar manter a todo o custo um formato que se calhar é obsoleto aos olhos do mercado. Claro que não trabalhamos só para o mercado e se eu tiver vontade de fazer discos vou continuar a fazer. Lá está, eu nunca fui a artista dos singles. Nada contra, mas nunca foi essa a minha cena, porque eu gosto de pensar num conceito, no que quero dizer, aquilo a que me proponho, as abordagens. Se são coisas mais políticas, mais sociais, mais emocionais. Se quero algo mais dançável, mais alegre, mantendo sempre os temas interessantes. Percebes? Esse processo de reflectir sobre o que queres fazer, qual o momento, o que é que o momento te pede, o que é que o mundo te pede. Fazer um retrato do tempo, de uma fase da tua vida. É uma coisa que gosto. Mas é um grande investimento de tempo, dinheiro, meios. Mesmo que se colabore com editoras – no meu caso, tive o apoio da SPA, que financiou grande parte do disco – começas a pensar em tudo o que investiste em estúdio, nos ensaios, no artwork, no pagamento aos músicos. Dá para te questionares se vale a pena insistir e continuar. Por que razão? Por romantismo? Por teimosia? Pode ser. Mas até quando? Não sei. Se calhar é o último. Mas não quer com isso dizer que vou deixar de fazer música amanhã.

Esperemos que isso nunca te passe pela cabeça…

Eu sou de uma geração que nunca imaginou viver do rap. As minhas referências são os Dealema, os Mind da Gap, os Matozoo. É claro que os Mind da Gap conseguiram viver da música, e foram para uma editora major. Houve também o caso do Boss AC. Mas foram todos uma excepção. Maior parte do pessoal que eu conheci nunca pensou sequer conseguir viver da música. Hoje em dia para a malta mais jovem o rap pode ser uma coisa lucrativa e uma profissão. Isso para mim nunca foi uma ambição, é um bónus. Se tiver que ir fazer outra coisa eu vou, nunca tive expectativas de fazer disto vida. E já provei o mais difícil: ser uma mulher a fazer vida disto em Portugal. Mostrei que era possível. Eu sei que o rap implica ser fresh, aparecer e bater na hora. Mas depois quando a frescura passa tens que arranjar uma forma de te manteres relevante, e isso não é para todos. O sprint é fácil…

Mas a maratona é mais importante…

Não é só a maratona mas também a corrida de obstáculos. Isso é que é difícil. Felizmente, já tenho uma discografia que me permitiria ficar orgulhosa caso não fizesse mais nada. Mas não vai ser esse o caso. Eu prometi que fazia três partes para a mixtape e ainda só fiz duas. Nem que fosse por essa promessa. Estou contente com aquilo que tenho. Até porque há muitos rappers com mais anos de carreira do que eu que não têm uma discografia como a minha.

Nunca escondeste o teu fascínio por Sérgio Godinho, e há uma espécie de homenagem em “Parto Sem Dor”. Fala-me um pouco sobre esta música.

Basicamente, peguei numa letra dele de 1979, de um disco chamado Campolide. Fez todo o sentido não só porque queria escrever sobre o processo da gravidez, da maternidade, mas também porque a ouvi naquele momento com outros ouvidos. Para nascer enquanto mãe havia uma parte de mim que tinha que morrer, ou seja é quase como se houvesse um luto e um renascimento. É um bocadinho a imagem da crisálida e da borboleta, dessas metáforas que uso na letra, que, na verdade, nasceu de uma crónica que eu escrevi para a Visão. Eu ouvi a música dele e achei que tinha que me apropriar dela e usá-la como refrão. É uma das canções que melhor retrata o que estava a viver na altura. É das que eu mais gosto, super emocional. Espero em breve conseguir tocá-la ao vivo com o Sérgio Godinho.

Não deixa de ser curioso o facto de tu e o Allen Halloween terem decidido homenagear Sérgio Godinho nos vossos mais recentes álbuns…

É porque o Sérgio Godinho tem um tipo de escrita que qualquer rapper gosta. É uma escrita super sofisticada, com uma métrica fora do comum…

Quase rap…

Às vezes é quase rap. Quando ele canta mais pausadamente, o tipo de rimas que ele faz assemelha-se muito ao tipo de rimas que nós, rappers, fazemos. Não rima só nas terminações, faz muitos jogos de palavras, parte as frases em sítios menos esperados. Qualquer rapper vai achar interessante esse tipo de escrita. Ele foi o percussor desse parentesco com o rap.

Em “Mátria” quase repetes a fórmula do Língua Franca, convidando Emicida, Rael da Rima e trocando apenas Valete por Rincón Sapiência. No álbum contas ainda com a participação de Mallu Magalhães e Karol Conka. É um trabalho muito influenciado pelo lado de lá do Atlântico, não é?

Este disco é muito marcado pelo Brasil e por essas pontes que eu fiz no Língua Franca. Eu sou muito fã da música brasileira e do rap brasileiro. Tem também a ver com o facto de o disco ser muito mais solar que o habitual, eles têm essa forma de fazer música alegre com muita classe e muita facilidade. Têm aquele jeito alegre de ser triste que eu também trouxe para a escrita deste disco. Mas há também muitos convidados portugueses: Camané e Ricardo Ribeiro no fado; a Lena D’Água e a Catarina Salinas que representam duas gerações diferentes da pop. E o Pedro Lamares, actor portuense.

É um álbum com muitos inputs. Há aqui uma imensidão de texturas, sotaques e vibrações…

Eu queria fazer um disco mais musical, mais dançável, mais cantado. As músicas pediam não só cantores mas também pessoas que trouxessem outras melodias e cores. Porém, apesar de ser um disco muito participado e muito partilhado, é um trabalho muito pessoal dado o facto de eu escrever músicas de uma forma solitária. Quando vou buscar um contributo é porque aquela música me sugeriu aquela pessoa. É quase a cereja no topo da música previamente construída num processo pessoal e intransmissível. Eu passo mesmo muito tempo sem mostrar as músicas a ninguém, acho que só o D-One que me grava as demos é que tem algum tipo de acesso. Praticamente ninguém as ouve durante meses.

Em “O Quadrado Perfeito” abordas a questão das redes sociais e do seu efeito no nosso quotidiano. De que forma é que achas que esse estranho mundo nos está a prejudicar a todos? Como é que olhas para o futuro?

Não sei. Também não quero estar aqui a ser a velha do Restelo e dizer que está tudo mal. Eu tentei ironizar, fazer uma crítica cómica, sarcástica, ao universo das redes sociais porque acho que há muita coisa que nos condiciona de forma negativa. Não só a ideia de termos que vender a nossa imagem para atingirmos a popularidade, como a ilusão de te sentires politicamente activo por causa de uma petição online ou de um post. Também o fear of missing out, essa coisa de teres que estar permanentemente actualizado e a postar. A ideia falsa de perfeição, de tudo o que está naquele quadrado ser maquilhado e organizado de forma a camuflar a vida real, demasiado trashy. Todo esse condicionamento e essa forma de alienação marca muito o nosso quotidiano e eu tinha necessidade de falar disso, sendo irónica, já que a abordagem deste disco vai mais por aí.

Percebe-se isso no final da música quando convidas o ouvinte a “fazer like no post, subscrever o perfil e activar as notificações”…

No fundo, toda a gente critica mas, como dizia o Virgul, “é na mesa do café que toda a acção fica”. Toda a gente aponta o dedo mas quase toda a gente tem uma rede social. Acabamos todos por usá-la como ferramenta de trabalho mesmo que não se goste. Às vezes estás ali a tentar promover a tua música e tens a blogger logo ao lado com a tosta de abacate ou o outro com o vídeo dos gatinhos. Estamos todos ali a tentar chamar à atenção. Tudo se mistura. E depois parece que o disco que andaste a fazer há três anos tem a mesma validade que uma tosta de abacate ou a selfie da teenager. E na verdade tem. Às vezes até menos. E isso é super ingrato. Tem a ver com tempo de antena que nós escolhemos dar a coisas que se calhar não são assim tão interessantes. A forma como nos alimentamos dessas influências tem um impacto na nossa vida. É como se escolheres só comer fast food: também vais sofrer as consequências na tua saúde. Ali é a mesma coisa. Mais do que uma crítica, eu tentei fazer uma reflexão, expondo também as contradições. No quadrado mágico tanto escolhes a forma como te apresentas ao mundo como enviesas a forma como observas a realidade.


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