Caparica Primavera Surf Fest – Dia 5: Os rappers também sabem dançar

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Hélder White

Em mais uma sessão esgotada de hip hop português do Caparica Primavera Surf Fest, TNT, Jimmy P e Carlão souberam fazer a festa no recinto. Uma das grandes mais-valias do rap é a mistura despudorada, e foi isso que ouvimos na noite passada: funk, electrónica, semba ou kuduro fizeram parte da receita. “Samplando” o título do novo livro de Kalaf, Também os Brancos Sabem Dançar, o mote estava dado: os rappers também sabem dançar.

A jogar em casa — não se fartou de referi-lo durante a sua actuação –, TNT teve a missão mais complicada da noite: conquistar um público que, como pudemos constatar, não era o seu. E fê-lo com groove, alicerçado numa aliança imbatível entre Pedro Martinho (baixo) e Ariel Rosa (bateria), que tiveram DJ Sahid e Sérgio Polho (teclas) como reforços de peso. Sem esquecer Maura Magarinhos, voz soulful que, idealmente, irá conquistar o seu espaço a solo.

MDO, longa-duração lançado em 2017, foi a base do alinhamento. A abertura do espectáculo aconteceu com “O Futuro”, o funk de “Andaver” agitou o corpo e a alma, a banda sonora de verão que é “MS Pride” aqueceu a sala e “Check In”, que, na companhia de Melo D, se desdobrou em “Boas Vibrações”, fez a ponte entre o passado e o presente.

De resto, “Picar o Ponto”, tema dos M.A.C. — Tom e MLK substituíram Kulpado — , “Fod** o Rap” — que não contou com Blasph mas que teve direito a uma interpolação de “Feeling Good”, de Nina Simone, pela voz de Maura — e uma homenagem ao malogrado DJ Bernas foram pontos altos de uma estreia num palco muito desejado pelo líder da Mano a Mano. 

 


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Depois de um pequeno intervalo, Rusty, o DJ de Jimmy P, fez o aquecimento e passou faixas de Cardi B (“Bodak Yellow”), Travis Scott (“Goosebumps”), DJ Khaled (“All I Do Is Win”), Fat Joe & Remy Ma (“All The Way Up”) e Drake (“God’s Plan”), que, sem excepção, tiveram reacções histéricas de um público maioritariamente adolescente que encheu o espaço no quinto dia da programação musical do festival.

Acompanhado por Jepê, o hype man de serviço, o autor de Alcateia, a sua mais recente mixtape, não se pôde queixar da recepção do público: letras na ponta da língua e energia no máximo para acompanhar temas como “Não tás a ver”, “On Fire”, “Amigos e Amantes” ou “Storytellers”, que se misturou com o instrumental de “Can’t Hold Us”, de Macklemore.

O reportório do concerto de Jimmy P é uma espécie de rap “EDMesco” — muito dele concebido com a ajuda preciosa de SuaveYouKnow a.k.a. J.Cool a.k.a. Forever Suave — que encaixa perfeitamente neste contexto festivaleiro. No entanto, as “barras” não ficaram esquecidas e Phoenix RDC e Loreta KBA subiram ao palco para interpretar “Todo o Santo Dia”, faixa do novo projecto.

No campo das homenagens, o rapper falou sobre as suas referências e não se coibiu de colocar Boss AC nas colunas do espaço, regressando rapidamente à actualidade através dos Wet Bed Gang. O grupo não esteve presente, mas a reacção estrondosa a “Não Tens Visto” e a “Young Forever” deve ter chegado aos seus ouvidos.

 


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Não esquecendo a “after-party” com Sam The Kid & DJ Big, o grande “finale” chegaria com Carlão, que se fez acompanhar por Bruno Ribeiro, DJ Glue, Gil Pulido e Nuno Espírito Santo. Bicho de palco que não perdeu a fome depois de entrar nos Quarenta, Carlos Nobre Neves, “poeta da vida airada”, renovou a sua palete sonora e, hoje em dia, vemo-lo deambular entre sons da afro-lisboa e a produção hip hop mais moderna, tudo produzido pelos nomes mais frescos do panorama nacional: Holly Hood, PEDRO, Here’s Johnny ou Branko são alguns dos produtores a quem recorre frequentemente.

E foi com “A Minha Cena”, banger à la Costa Oeste, que deu o pontapé-de-saída. Daí para a frente, o ex-membro dos Da Weasel tocou os temas mais fortes do álbum editado em 2015 (“Entre o Céu e a Terra”, “Krioula”, “Topo do Mundo” ou “Os Tais”) e do EP de 2016, Na Batalha (“Hardcore” e “Uma Vez É Demais”). “Viver Pra Sempre”, “Agulha No Palheiro” ou “Chegou a Hora”, dos 5-30, foram outras músicas que fizeram tremer o chão. Literalmente. É notável a maneira como o artista de Almada conseguiu mudar o seu material, mantendo-se à tona sem precisar de grande esforço.

No meio do espectáculo, DJ Glue ficou sozinho em palco e deu um autêntico show de “real DJing”, mostrando técnica superlativa a unir scratch e vídeo. Mais uma prova, para aqueles que ainda duvidam, que estamos perante um dos DJs mais competentes do hip hop português — e a resistir à passagem de tempo com graciosidade, diga-se.

“Contigo”, single do novo álbum de Carlão, Entretenimento?, teve estreia absoluta no Caparica Primavera Surf Fest e, tal como os temas anteriormente produzidos pela dupla da Enchufada, Branko e PEDRO, é um “doce” para a anca. A facção feminina poderá certamente comprová-lo…

Curiosamente, um dos melhores momentos, se não o melhor, foi o regresso a uma remistura muito especial de “Dialectos Da Ternura”, da autoria dos Buraka Som Sistema. E existe algo para considerarmos: a idade média da audiência deveria rondar os 15/16 anos e, mesmo assim, a faixa lançada em 2007 estava, de alguma forma, na ponta da língua de uma geração que não testemunhou o fenómeno “Doninha”. Quando Carlão canta, “Meu Deus, eu vou viver pra sempre”, deve ser a isto que se refere…

 


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