Caparica Primavera Surf Fest – Dia 3: Expandir ou comprimir?

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Hélder White

O terceiro dia do Caparica Primavera Surf Fest 2018 ficou pautado por uma avaria técnica, logo no início da noite, que “roubou” cerca de uma hora de tempo útil à festa, prejudicando, por isso, as actuações dos artistas, com especial incidência nos DJs propostos para o final do alinhamento, que viram o seu set reduzido a pouco mais de meia hora (Davide Pinheiro e Shaka Lion conseguiram, ainda assim, levar dezenas ao rubro com escolhas que foram do trap ao funk brasileiro). Durante os longos minutos que o problema levou a ser resolvido, o público investiu em cânticos futebolísticos (da irritante melodia de “Seven Nation Army” à habitual canção do Éder) e ainda evocaram a “Minha Casinha” dos Xutos e Pontapés.

“Desta vez não foi a baixo!”. As palavras exclamadas ao microfone pelos GROGnation, no final da interpretação de “Chama-me Nomes”, isto depois da organização ter admitido marcar novas datas para os concertos caso o problema se voltasse a repetir, espelham bem todo o sentimento de “vai não vai” que tingiu de negro o arranque da actuação: esta não era a primeira vez que o colectivo entrava em palco para depois ter que voltar a sair. O azares acontecem, importa é resolvê-los. E a verdade é que desta vez era a valer e com pompa a condizer. “Canal”, “Molio” e “Shots de Grog” uniram esforços para devolver a energia à audiência e recolocar a locomotiva nos carris certos.

Talvez o público tenha sido o grande protagonista da noite, por nunca ter baixado os braços e por ter prontamente acarinhado os artistas na missão em questão. O pedido de isqueiros e luzes de telemóvel em “Voodoo” foi prontamente correspondido; a explosão em “Barman” foi imediata. Nota máxima para esta multidão.

 


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Daqui a uns bons anos, quando o ser humano viver refugiado em asilos subterrâneos ou até quando a vida terrestre se tiver transportado para outro planeta, falar-se-á certamente da lenda de um colectivo que conseguiu honrar os mais variados estilos musicais numa mistura única. Esse conjunto, de seu nome Orelha Negra, actuou ontem na Costa de Caparica, provando, mais uma vez, que as fronteiras só existem se o homem assim o quiser. As canções do mais recente disco vão adquirindo estruturas fortes à medida que são articuladas ao vivo por Fred Ferreira, Samuel Mira, João Gomes, DJ Cruzfader e Francisco Rebelo, enraizando-se num alinhamento que parece investir cada vez menos nos medleys que outrora ocuparam um espaço considerável nas escolhas do quinteto.

Do mais recente álbum dos Orelha Negra chegaram-nos “Ready”, a dar o tiro de partida para o espectáculo, “Última Volta”, “A Sombra” e “Santa Ela”, entre outras. Tais temas são autênticos documentos elementares de um álbum com uma vasta matéria para explorar. Se a coesão entre estes cinco elementos no exercício ao vivo já era muita, capaz de nos baralhar os sentidos na tentativa de separar o trigo do joio, ganha agora uma nova forma quando se faz acompanhar da riqueza deste novíssimo leque de canções, de onde é possível retirar também “Parte de Mim”, uma das mais poderosas armas arremessadas aos nossos ouvidos. As primeiras páginas destes lendários cavaleiros já estão mais que escritas. Venham mais.

 


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Um só caminho?

Com o passar dos anos, Valete vai aprimorando o seu espectáculo ao vivo, recorrendo, sempre que possível, ao conteúdo audiovisual. Os temas fazem-se acompanhar de uma projecção-vídeo que trata de ilustrar as palavras do rapper (em certos casos, como acontece em “Poder”, chega a assumir características de lyric video), com o intuito de complementar um concerto que, só por si, já está bastante oleado. Há também uma dinâmica de palco que surge cada vez mais bem ensaiada e fluída, como serve de exemplo a coreografia em “Não Pára”, colaboração entre Valete e Mind da Gap que beneficia em palco das rimas de Bónus, artista da velha guarda que dá suporte vocal às actuações do anfitrião, e “Johnny Walker”, canção que versa sobre uma fase menos positiva que o rapper viveu na sua vida, onde o mesmo surge sentado à mesa, no centro do palco, para uma entrega de cariz íntimo.

“Subúrbios” é uma primorosa visita a uma das mais intocáveis obras do hip hop português, o álbum Serviço Público, editado em 2006. O público, maioritariamente adolescente, não é unânime no acompanhamento à letra, porém, há casos isolados que não poupam uma palavra que seja à música. “Fim da Ditaura” é acompanhado de fio a pavio, assim como “Roleta Russa”, numa versão de textura rock que se desprende da original, beneficiando o caminho que a voz percorre do microfone aos nossos ouvidos. É talvez esta uma das maiores qualidades de Valete enquanto artista que sobe ao palco: ter a noção que certas músicas precisam de um tratamento especial quando passam do conforto do estúdio para o ambiente nem sempre controlado de uma sala de espectáculo. E diga-se que, apesar de alguns decibéis a mais na mistura final, toda a massa sonora nos chegou pujante e equilibrada.

Apesar de ter alguns temas novos na bagagem, Valete necessita urgentemente de material novo em forma de obra de longa-duração. “Rap Consciente” é combustível infalível para uma explosão ao vivo: que o testemunhem aqueles que, nas primeiras notas da música, se apressaram a erguer os braços e a afinar as gargantas. A letra, apesar de altamente conservadora, parece servir na perfeição as exigências de um público que, na sua maioria, não viveu aqueles que são considerados os anos de ouro do hip hop português. Não deixa de ser curiosa esta vontade de fechar uma cultura que sempre viveu além-fronteiras num só ideal, numa só direcção, sem margem para grandes desvios e expansões.

 


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