Caparica Primavera Surf Fest: a confirmação de um fenómeno chamado Slow J

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Hélder White

A noite inaugural do Caparica Primavera Surf Fest, que apresentava como argumentos principais as actuações de Slow J e de Diogo Piçarra e que ainda encaixava April Ivy, esgotou a sua lotação, sinal claro das novas dinâmicas de construção de fenómenos pop, mais apoiadas nas plataformas digitais do que em modelos tradicionais de promoção.

Para o Rimas e Batidas, a apresentação de Slow J constituiu o foco claro de uma primeira jornada de um cartaz diverso que nos próximos dias ainda levará até à Caparica gente como Allen Halloween, Valas, Holly Hood e Regula.

 


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Há exactamente um ano, Slow J passou pelo Lisboa Dance Festival de forma discreta, mas intensa o suficiente para aí ter ganho um passaporte para se apresentar num dia que foi especial para o hip hop no âmbito do Super Bock Super Rock. Pode dizer-se que a “promessa” ficou aí bem exposta: na altura, Slow J estreou a sua formação de palco que ainda hoje o acompanha – Francis Dale e Fred Ferreira em teclados, guitarra e bateria. Verdadeiro power trio que, depois de meses em que foram sendo apresentadas algumas novidades, voltou a subir ao palco no passado mês de Março na apresentação oficial do álbum The Art of Slowing Down, no Mercado Time Out, em Lisboa, por ocasião da festa de aniversário do Rap Notícias. Aí, perante uma plateia igualmente esgotada, Slow J ascendeu claramente da condição de “promessa” para um superior estado em que o seu estatuto de voz de uma nova geração parece já não carecer de confirmação: é uma certeza!

E ontem, mais um importante degrau: ao desfilar um alinhamento (ver foto) composto sobretudo de material de um álbum que nem um mês de rua possui e que ainda assim é cantado a uma voz de uma ponta à outra, Slow J sublinha essa condição rara de artista que canta o que os ouvidos presentes querem ouvir, de uma garganta que entrega a esta geração palavras que são barro para a sua própria identidade.

 


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A dinâmica de palco é simples e vive sobretudo do aparentemente inesgotável carisma de um João Lento que comunica olhos nos olhos com o público, que acede a um pedido de “parabéns” de um elemento da plateia, que concentra olhares femininos e masculinos porque dele emana uma verdadeira energia. Slow J sabe estar em palco, embora se preveja aí também um enorme crescimento, assim a experiência se acumule permitindo-lhe testar novas ideias. Para já basta a luz, a música e o magnetismo da sua presença. E, claro, o material feliz de canções como “Casa”, “Sonhei Para Dentro”, “Comida”, “Serenata” ou esses monumentos modernos de identificação que são “Cristalina” e “Vida Boa”.

Ontem, Slow J provou que é um dos artistas com maior potencial de crescimento no actual panorama musical, alguém que pode de facto fazer ao Rui Veloso – e aos Ornatos Violeta, quiçá a Capicua e até a Sam The Kid – aquilo que o Ronaldo fez ao Figo: pegar num exemplo maior, honrá-lo, aprimorá-lo e tomá-lo como ponto de partida para a imposição do seu próprio estilo, da sua visão, da sua arte. Se daqui a uns anos surgir um busto algures nas margens do Sado, talvez num pequeno beco de Setúbal onde circulem sonhos de futuro, não estranhem…

 


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Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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