Calibro 35: “Trabalhar com Roc Marci ou Madlib? Estás a brincar? Dá-lhes o nosso e-mail”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Enrico Gabrielli, Fabio Rondanini, Luca Cavina, Massimo Martellotta e Tommaso Colliva são os Calibro 35, banda que surgiu há uma dúzia de anos nos radares de quem vivia sintonizado com a vibração de bandas sonoras vintage carregadas de groove, funk cinemático clássico e, claro, library music italiana.

Depois de um disco homónimo lançado em 2008 para a Cinedelic, os Calibro 35 não pararam de crescer, tanto em estúdio como ao vivo, tendo-se apresentado nalguns dos mais importantes festivais que definem a modernidade. Entretanto, alargaram a sua discografia tendo em 2013 registado a sua estreia na Record Kicks, uma das casas que no presente defende as cores do groove mais orgânico, seguindo o exemplo de editoras americanas como a Daptone.

Pelo caminho, os Calibro 35 tornaram-se referência, viram a sua música ser samplada por Dr. Dre, Damon Albarn ou Jay-Z e chegam a MOMENTUM, novo álbum que será lançado no próximo dia 24, em máximo topo de forma, equilibrando sobre a sua fórmula clássica de library grooves óbvias influências do hip hop — facto que os levou a recrutarem Illa J para o fantástico “Stan Lee” — e até das sinuosas malhas de guitarra da África Ocidental que o mundo descobriu através do manancial de reedições que nos expõe a todos aos tesouros do passado.

Este é o momento dos Calibro 35 e isto é o que nos têm a dizer…



Aconteceu muita coisa na cena musical internacional desde que apareceram há 12 anos. Vocês sentem que o mundo da música que temos actualmente está mais preparado para receber a vossa música?

Não tenho bem a certeza. Por um lado, nós somos/éramos retardatários — chegámos dez anos depois do revival do funk produzido pela cena acid-jazz; pelo outro, as bandas sonoras e a library music vêem actualmente uma exposição sem precedentes e estão a influenciar profundamente outros géneros como o hip hop e a electrónica. Dito isto, por favor não se esqueçam que nós somos influenciados por música que ouvimos e desenvolvemos e mudamos os nossos gostos também — eu nunca tinha ouvido tanta música africana, por exemplo –, por isso a nossa música é mais do que nunca uma óptima mistura de coisas.

Existe um conceito por trás do novo disco, MOMENTUM?

Não há um conceito estrito, mas a ideia mais abrangente era ter uma abordagem ao AGORA em vez de estar ligado ao PASSADO, como fizemos em alguns álbuns. Basicamente nós começámos Calibro há dez anos para recriar o som e a atitude das bandas sonoras italianas da era dourada e, enquanto estudávamos esse assunto, nós fomos naturalmente desenvolvendo a nossa própria personalidade e som. Agora achámos que era altura para tentarmos dizer como é que nos sentíamos ACTUALMENTE, vivendo num mundo tão conectado e cheio de coisas diferentes para ouvir.

Como é que correram as sessões do álbum? Foi rápido de se gravar? Onde é que fizeram estas faixas e quais foram as histórias que coleccionaram desta vez?

Os álbuns de Calibro sempre foram rápidos de se fazer e — à semelhança dos anteriores — este demorou mais ou menos uma semana a ser gravado. Nós participamos todos na escrita trazendo ideias para o estúdio a fim de estudá-las, arranjá-las e aperfeiçoá-las em conjunto. Eu acho que o facto de todos escrevermos canções contribui para a maior variedade do disco, onde podes encontrar coisas tão diferentes como “Fail It Till You Make It”, “Death Of Storytelling” e “Stan Lee”.

O que é que vocês descobriram sobre vocês enquanto artistas na última dúzia de anos que possam ter utilizado neste novo álbum?

É fácil esquecer e subestimar a quantidade de coisas que aprendemos ao longo dos anos, mas cada vez que ouço o nosso primeiro álbum sinto que estou a olhar para uma fotografia da escola primária. Nós primeiro começámos por tentar replicar um som, uma atitude, música vinda do passado — de Itália dos anos 60 — mas naturalmente passámos essa fase a certa altura e começámos a usar ferramentas que nós aprendemos a usar de formas diferentes. Também ajuda estarmos envolvidos noutros projectos: assim podemos ir buscar ideias a outro lado e trazê-las para Calibro.

Falem-nos sobre trabalhar com o Illa J: como é que isso aconteceu?

Foi difícil pensar em alguém para colocar letras nas nossas canções… nós somos uma banda instrumental há TANTO tempo! Mas quando a ideia surgiu nunca tive dúvidas: Illa J estava no topo da lista de featurings que eu queria investigar. Ele é um MC fantástico e — à semelhança do que nós fazemos — está a levar o estilo da golden age para o futuro. Ele tem um flow! Eu acho que ele está a levar a tocha do rap bem-feito há anos. O hip hop está em todo o lado, mas o “bom rap” parece que às vezes é difícil de se fazer ouvir.

Vocês soam como uma banda que está consciente do seu potencial para ser samplada, com ritmos muito fortes e funky, tons dramáticos, etc. Isso é algo em que pensam quando estão a trabalhar em novo material?

O mais engraçado é que o meu amor pelas bandas sonoras começou porque eu estava a pesquisar por samples quando era adolescente e os meus únicos interesses na vida eram graffiti e beatmaking!

A questão do sampling não fazia parte da ideia inicial de Calibro, mas aconteceu ao longo dos anos algumas pessoas gostarem da nossa música e darem-lhe uma nova vida na sua produção. Começou com alguns nomes mais underground e depois continuou a crescer até chegar a gigantes como Timbaland ou Dr. Dre, não sei o que vai acontecer a seguir!

Dito isto, nós não pensamos muito nisso enquanto gravamos, nós apenas fazemos música que gostamos e sentimos.

Vocês foram samplados pela realeza do hip hop. Como é que lidaram com isso? Suponho que tenham aberto uma garrafa de champanhe depois de receberem os primeiros cheques…

[Risos] Não consegues imaginar o quão chocado eu fiquei quando percebi que o Dr. Dre tinha samplado uma coisa música que eu tinha feito para uma faixa com o Snoop Doog.

Há alguns anos, eu recebi um e-mail bastante simples de um escritório de advogados de Los Angeles a perguntar quem eram os detentores de direitos de uma das nossas faixas. Eu respondi a dizer que éramos nós, por isso marcámos uma chamada por Skype sem que eles me dissessem nada sobre quem tinha samplado e para quê. Começámos a conversa e eles tocaram-me a canção pelo telefone, a forma encontrada para prevenir potenciais leaks, mas eu reconheci facilmente a voz do Snoop — como é que NÃO o faria?!? Quando a canção terminou, eles disseram: “esta é uma canção para o novo álbum do Dr. Dre, Compton, e gostávamos de ter autorização para usar o vosso sample… pode ser?



Alguma vez recusaram um pedido para utilizar um sample da vossa música?

Ainda não aconteceu até agora e eu gosto realmente que a nossa música dê ideias a outra pessoa. Se eu ouvir novamente aquilo que o Child of Lov e o Damon Albarn fizeram com a nossa versão da “Una Stanza Vuota” do Morriconce, por exemplo, é excelente, e isso aplica-se a todos os outros.

Alguma vez foram chamados para uma sessão de trabalho com um nome grande?

É difícil definir o que são “NOMES GRANDES”, mas fomos convidados pelo Jim Abbiss (produtor de Adele, Arctic Monkeys e Kasabian) para ser a banda de estúdio para o último álbum do Nic Cester (dos JET), e isso foi bem grande, para ser justo.

A library music de Itália tem recebido muita atenção nos últimos anos através de reedições. Isso colocou a vossa música numa nova perspectiva, não acham? A música que esses mestres criaram no passado serviu de inspiração, certo?

Completamente. Nós sempre gostámos muito disso. O nosso primeiro álbum contém um retrabalho de uma faixa de library, “Spiralys”, e no último ano nós lançámos um álbum em que refazemos música do noss compositor favorito de library music, Lesiman.

No ano passado, Paul Elliott e o Shawn Lee fizeram um documentário fantástico sobre a library music feita por esse mundo fora e eu ajudei-os a transcrever as entrevistas em italiano.

Podem dizer-nos três ou quatro discos de library que possam ter ajudado a definir o vosso som?

The Group – Feedback;

Braen Machine – Imphormal

Lesiman – High Tension Volume 2

Sandro Brugnolini – Overground

Falando de hip hop: os BadBadNotGood fizeram um álbum com o Ghostface Kilah e eu pagaria uma pequena fortuna para ver-vos a trabalhar com pessoas como o Roc Marciano ou até o Freddie Gibbs e o Madlib. Vocês aceitariam um convite desses artistas?

Estás a brincar? Claro que sim! O meu e-mail é t*****o@t***i.it. Estás à vontade para partilhar.

Que produtores de hip hop é que vos inspiram hoje em dia?

Tantos grandes ainda andam por aí… mas tendo em conta que tenho 38 anos — e por isso sou old school — eu gosto daquilo que o Ali Shaheed Muhammad, o No I.D. e o Madlib estão a fazer.

Vocês vão andar em tour com o novo álbum? Portugal vai poder ver-vos?

Adorávamos voltar. Não tenho a certeza se vamos fazer acontecer esta Primavera, mas talvez o Outono traga boas notícias.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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