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Texto: Vítor Rua
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 02/04/2026

O tempo em redemoinho.

Caleidoscópio Coletivo e a música quando o relógio deixa de funcionar

Texto: Vítor Rua
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 02/04/2026

[O instante em que o tempo começa a desfazer-se]

Há obras que parecem nascer de uma pergunta simples, mas que transportam consigo uma inquietação muito mais profunda. Vórtice “Para o fim de um tempo”, do Caleidoscópio Coletivo, surge precisamente desse tipo de pergunta: o que acontece à música quando o próprio tempo — esse elemento invisível que organiza toda a experiência sonora — começa a vacilar?

Desde sempre aprendemos a escutar a música como sucessão. Um som conduz a outro, uma frase abre caminho à seguinte, e o ouvido percorre o tempo como quem atravessa uma paisagem. Mas o projecto Caleidoscópio Coletivo parece querer suspender momentaneamente essa lógica e observar o fenómeno sonoro a partir de outro ângulo: como se o tempo não fosse apenas um eixo linear, mas uma matéria maleável, capaz de se dobrar, fragmentar ou girar sobre si própria.

O colectivo nasce do encontro entre três compositores — Daniel Moreira, Catarina Sá Ribeiro e Miguel Resende Bastos — e um conjunto de intérpretes e criadores que partilham um mesmo território de experimentação. Mais do que um agrupamento tradicional de música contemporânea, trata-se de um espaço de investigação artística onde composição, interpretação e concepção sonora se cruzam de forma orgânica. A música não surge aqui como produto final de uma escrita isolada, mas como resultado de um processo colectivo onde ideias, timbres e gestos passam de mão em mão, transformando-se pelo caminho.

No centro deste processo encontra-se uma formação instrumental aparentemente clássica — piano e sintetizadores, clarinete, violino e violoncelo — mas que rapidamente se expande através da mediação do som captado, manipulado e pensado como matéria composicional. Os técnicos de som deixam de ser apenas mediadores técnicos e passam a participar activamente na própria construção do objecto musical. O estúdio, o microfone e o espaço acústico tornam-se assim instrumentos adicionais dentro da obra.

A ideia do vórtice não é apenas uma metáfora poética. Funciona como imagem estruturante do próprio projecto. Num vórtice, forças distintas convergem e começam a rodar em torno de um centro comum, criando um movimento simultaneamente caótico e ordenado. Algo semelhante acontece aqui: três imaginários composicionais diferentes encontram-se dentro de um mesmo campo de escuta e passam a interagir como correntes de um mesmo redemoinho sonoro.

O título para o fim de um tempo sugere ainda outra dimensão. Não se trata necessariamente do fim do tempo físico — esse continuará sempre a existir enquanto houver movimento e matéria —, mas talvez do fim de uma certa forma de o imaginar. A música contemporânea vive hoje num mundo onde a experiência temporal se tornou fragmentada: fluxos digitais, sobreposição de memórias, paisagens sonoras contínuas que raramente começam ou terminam de forma clara.

Neste contexto, Vórtice apresenta-se quase como um laboratório perceptivo. Um lugar onde a escuta pode observar o tempo a transformar-se diante de si: ora dilatado até se tornar paisagem, ora comprimido em gestos microscópicos, ora suspenso num instante que parece não querer avançar.

Como se estivéssemos a entrar num fenómeno que já estava em curso muito antes da nossa chegada.

E, nesse momento, compreendemos que talvez não estejamos a ouvir apenas um conjunto de peças.
Estamos a assistir ao instante preciso em que o tempo começa lentamente a desfazer-se dentro da música.



[O laboratório do caleidoscópio]

Um caleidoscópio é um instrumento curioso. Não cria propriamente novas matérias — reorganiza-as. Fragmentos dispersos, pedaços de cor, pequenas superfícies reflectoras que, ao rodarem lentamente dentro de um tubo, produzem figuras inesperadas. Cada rotação revela uma configuração que nunca existiu antes e que nunca voltará a repetir-se da mesma forma.

O Caleidoscópio Coletivo parece nascer de uma lógica semelhante. O nome não é apenas uma metáfora estética; descreve também um método. O projecto reúne três compositores — Daniel Moreira, Catarina Sá Ribeiro e Miguel Resende Bastos —, quatro intérpretes — Dalila Teixeira (piano e teclados), Eduardo Seabra (clarinete), Laura Peres(violino) e Teresa Soares (violoncelo) —, e uma equipa de criação sonora formada por José Afonso Monteiro, Daniel Santos e Ricardo Torres. O resultado não é simplesmente um ensemble de música contemporânea, mas uma estrutura de trabalho onde os papéis tradicionais se tornam mais permeáveis.

A música contemporânea foi durante muito tempo organizada segundo uma hierarquia relativamente clara: o compositor escreve, o intérprete executa, o técnico regista. Neste projecto, porém, essa verticalidade começa a dissolver-se. A composição deixa de ser apenas o acto inicial de um processo e passa a estender-se ao longo de todo o percurso criativo. Os intérpretes participam activamente na construção tímbrica das peças; os técnicos de som deixam de ser apenas mediadores e tornam-se agentes composicionais. O estúdio, o microfone e o espaço acústico entram no campo da própria escrita musical.

O processo aproxima-se, por vezes, de um pequeno laboratório de escuta. Experimentam-se disposições acústicas, formas de captação sonora, maneiras alternativas de fazer vibrar instrumentos conhecidos. O piano pode tornar-se superfície ressonante ou mecanismo percussivo; o clarinete transforma-se em fluxo de ar que atravessa o espaço; as cordas do violino e do violoncelo deixam de ser apenas linhas melódicas para se tornarem campos microscópicos de fricção e energia.

Mas talvez o aspecto mais interessante deste laboratório não seja técnico — é conceptual. A ideia do projecto nasce, em parte, de uma reflexão inicial de Dalila Teixeira sobre Quatuor pour la fin du temps de Olivier Messiaen e sobre a possibilidade de explorar musicalmente a percepção do tempo e da luz. A partir daí surge uma pergunta que atravessa todo o processo criativo: como imaginar a música quando o próprio tempo parece aproximar-se do seu limite?

Cada compositor responde a essa pergunta a partir do seu próprio universo. Mas esses universos não permanecem isolados. No interior do projecto, as ideias circulam, transformam-se, reflectem-se umas nas outras como imagens num sistema de espelhos inclinados. Um gesto tímbrico experimentado numa peça reaparece noutra sob uma forma diferente. Uma textura torna-se memória. Um silêncio prolonga-se no trabalho de outro compositor.

Assim, Vórtice “Para o fim de um tempo” não é apenas um conjunto de composições independentes. É o registo de um processo colectivo onde a escuta se torna partilhada. O que ouvimos no disco não é apenas o resultado final das peças, mas também o rasto desse processo: as experiências, as transformações, as pequenas decisões que foram reorganizando continuamente o material sonoro.

Num panorama musical frequentemente marcado pela afirmação da autoria individual, o Caleidoscópio Coletivo propõe uma ideia discretamente diferente: a de que a criação pode ser um fenómeno distribuído, quase atmosférico, onde as ideias circulam entre pessoas, instrumentos e espaços antes de se fixarem momentaneamente numa obra. Talvez por isso a música deste projecto possua uma qualidade particular. Ela não soa apenas construída. Soa, muitas vezes, como se tivesse sido descoberta como se todos os participantes estivessem simplesmente a observar um fenómeno que já existia algures no silêncio, esperando apenas que alguém rodasse ligeiramente o tubo do caleidoscópio para que a figura finalmente aparecesse.



[Três compositores dentro do mesmo turbilhão]

Se Vórtice “Para o fim de um tempo” pode ser imaginado como um campo de forças, então os três compositores que o alimentam são como correntes distintas dentro desse mesmo redemoinho. Cada um traz consigo um percurso, uma formação e uma sensibilidade própria. No entanto, dentro do espaço do Caleidoscópio Coletivo, essas diferenças não produzem fricção estéril. Pelo contrário, começam a comportar-se como movimentos complementares de um mesmo fenómeno.

Daniel Moreira, nascido no Porto em 1983, pertence a uma geração de compositores que atravessa simultaneamente a prática artística e a reflexão teórica. A sua formação passa pela composição, pela análise e pela investigação sobre a temporalidade musical — temas que surgem frequentemente no centro do seu trabalho académico e criativo. Talvez por isso a sua música revele muitas vezes uma atenção particular aos processos internos do som e do tempo. Nas suas peças, a matéria sonora parece organizar-se como se obedecesse a uma lógica quase física: pequenas transformações acumulam-se lentamente, as texturas ganham densidade por camadas, e o discurso musical evolui menos por contraste abrupto do que por metamorfose contínua. O som comporta-se como um organismo em desenvolvimento, onde cada alteração subtil altera o equilíbrio do todo.

No universo de Catarina Sá Ribeiro, cuja formação atravessa o piano clássico, o jazz e a composição, a relação com o som parece emergir frequentemente de uma experiência muito concreta da prática instrumental e da escuta corporal da música. Pianista de formação e criadora envolvida também em contextos pedagógicos e performativos diversos, o seu trabalho tende a privilegiar a continuidade do gesto e a fluidez das texturas. A música desloca-se com naturalidade entre camadas, como se cada acontecimento fosse o prolongamento orgânico do anterior. Há uma qualidade quase respiratória no modo como os materiais se transformam: as ideias não se impõem por ruptura, mas por infiltração gradual dentro do espaço acústico.

Miguel Resende Bastos, pertencente a uma geração mais recente de compositores portugueses, traz para o projecto um imaginário particularmente atento às relações entre música e outras formas de expressão — literatura, teatro, dança ou electrónica interactiva. A sua formação internacional e o contacto com diferentes ambientes de criação contemporânea refletem-se numa música que parece frequentemente interessar-se pela energia e pelo contraste interno da matéria sonora. As suas peças exploram zonas de tensão entre rarefacção e densidade, entre silêncio e concentração súbita de actividade. O som torna-se, por momentos, um campo eléctrico onde pequenas partículas acústicas entram em movimento e reorganizam o espaço da escuta.

O mais interessante é que estas três perspectivas não funcionam como territórios separados. Dentro do projecto, elas comportam-se antes como diferentes modos de observar um mesmo fenómeno. Como quando se olha para um redemoinho num rio: de um lado vê-se a superfície da água a rodar lentamente; de outro percebe-se a corrente subterrânea que a alimenta; e, se nos aproximarmos mais, distinguem-se pequenas turbulências microscópicas que determinam a forma do movimento.

No disco, cada compositor contribui com quatro peças. No entanto, a experiência da escuta tende rapidamente a dissolver essa divisão aritmética. As obras começam a reflectir-se umas nas outras: uma textura encontra eco noutra peça, um gesto tímbrico ressurge transformado, uma ideia sonora parece continuar o pensamento iniciado por outro compositor.

É aqui que o Caleidoscópio Coletivo revela uma das suas intuições mais interessantes. O projecto não procura apagar as identidades individuais — pelo contrário, permite que cada compositor mantenha intacto o seu imaginário. Mas coloca essas vozes dentro de um sistema de criação partilhado onde cada gesto inevitavelmente influencia os outros. Assim, depois de algum tempo de escuta, deixamos de ouvir apenas três autores distintos. O que emerge é outra coisa: uma música que gira lentamente sobre si própria, onde três imaginações diferentes aprenderam a mover-se dentro do mesmo vórtice de escuta.



[Cartografia do vórtice]

Escutar Vórtice “Para o fim de um tempo” como uma simples sucessão de doze faixas seria perder a natureza real do objecto. O disco não se comporta como uma narrativa linear, organizada em capítulos que conduzem inevitavelmente a um desfecho. A sua lógica aproxima-se antes de uma cartografia: um conjunto de pontos dispersos dentro de um território sonoro em constante transformação. Cada peça funciona como uma coordenada. Um lugar onde a escuta pousa por instantes antes de continuar o percurso.

A abertura com “A persistência da memória” sugere imediatamente um território onde o tempo não é estável. O título evoca uma memória que não permanece intacta, mas que insiste, reaparece, reorganiza-se. A música parece emergir lentamente desse terreno instável, como uma paisagem que se revela através da névoa. Não se trata de recordar algo definido, mas de observar a própria memória a reconstruir-se dentro do som.

Em “Água perpétua”, o disco começa verdadeiramente a circular. A ideia de fluxo torna-se central: as texturas deslocam-se, transformam-se, infiltram-se umas nas outras. A música comporta-se como um sistema hidráulico invisível, onde pequenas correntes sonoras se cruzam e reorganizam continuamente o espaço acústico.

“Aproximadamente 300.000 km/s” introduz outra dimensão: a propagação. O título aponta para a velocidade da luz, e a peça parece sugerir precisamente essa qualidade de expansão. Os eventos sonoros irradiam no espaço, multiplicam-se em ecos e ressonâncias, como se a música estivesse menos interessada em avançar no tempo do que em espalhar-se dentro dele.

Segue-se “Electricidade”, onde o território sonoro ganha tensão microscópica. Há aqui a sensação de matéria em constante actividade: pequenas partículas acústicas entram em fricção, libertando energia. O silêncio deixa de ser ausência e passa a funcionar como um campo carregado, onde cada gesto sonoro desencadeia uma pequena descarga perceptiva.

Com “O desfiar do tempo”, o disco parece suspender momentaneamente o movimento. A música torna-se quase táctil. As linhas sonoras comportam-se como fios que se entrelaçam e se desfazem lentamente, como se o próprio tecido temporal estivesse a ser manipulado diante da escuta.

Depois surge “O sopro suspenso”, uma peça que parece habitar a fronteira entre som e respiração. Tudo se move com extrema delicadeza, como se a música estivesse constantemente à beira de desaparecer. O silêncio torna-se matéria activa, e cada gesto sonoro surge como um breve movimento dentro desse espaço respiratório.

No centro do disco encontra-se “(vazio)”. O título não indica ausência, mas espaço potencial. Um ponto de recolhimento onde a música parece suspender-se por um instante, criando uma zona de equilíbrio dentro do percurso global da obra.

A partir daí, o território sonoro regressa transformado. Em “Canção das águas internas”, o motivo do fluxo reaparece, mas agora de forma mais introspectiva. Já não se trata de correntes exteriores, mas de um movimento mais íntimo — como se a música passasse a escutar o seu próprio interior.

Com “Lama”, a matéria sonora ganha densidade. O som torna-se espesso, viscoso, como se atravessasse um terreno onde cada movimento exige esforço. As texturas acumulam-se lentamente, criando uma sensação de peso e sedimentação.

Em “Vesta”, o imaginário desloca-se para outra energia elemental. O título remete para o fogo antigo, para uma chama primordial. A música irradia uma luminosidade discreta, uma combustão lenta que ilumina o espaço sonoro sem nunca explodir.

Já perto do final surge “O granito do tempo”, onde o disco parece adquirir uma dimensão quase geológica. As texturas tornam-se mais sólidas, mais minerais. O som sugere permanência, como se o próprio tempo tivesse deixado de fluir para se tornar matéria.

E então chegamos a “Vórtice“. Não exactamente uma conclusão, mas a revelação da força que sempre esteve em funcionamento. As peças anteriores deixam de parecer episódios isolados e passam a ser percebidas como movimentos de um mesmo fenómeno rotativo.

Quando o disco termina, não temos a sensação de que o processo se tenha encerrado. O vórtice não desapareceu. Apenas deixou de ser audível — como um redemoinho num rio que continua a girar silenciosamente muito depois de termos desviado o olhar.



[A música depois do tempo]

Talvez a pergunta mais silenciosa que percorre Vórtice: para o fim de um tempo seja esta: o que acontece à música quando o tempo deixa de ser apenas o seu eixo organizador e passa a ser também o seu próprio objecto de reflexão?

Durante séculos habituámo-nos a pensar a música como a arte que existe dentro do tempo. Um som sucede a outro, uma frase conduz à seguinte, e a escuta desloca-se como quem percorre um caminho: começo, desenvolvimento, conclusão. Mas neste projecto do Caleidoscópio Coletivo essa lógica começa subtilmente a deslocar-se. As peças não se limitam a avançar. Parecem antes habitar o tempo.

Em vez de narrativas lineares encontramos estados, atmosferas, pequenas ecologias acústicas onde os sons coexistem e se transformam lentamente. A escuta deixa de seguir um percurso previsível e passa a mover-se dentro de um campo de presenças sonoras: acontecimentos que emergem, desaparecem e regressam, como fenómenos naturais observados numa paisagem.

O próprio título do disco sugere essa deslocação conceptual. Para o fim de um tempo não aponta necessariamente para um apocalipse literal, mas para o fim de uma certa ideia de tempo musical — aquela que o concebia como trajectória inevitável, como progressão dirigida para um destino formal. Aqui o tempo parece tornar-se mais poroso, circular, quase geológico, permitindo que os acontecimentos sonoros se acumulem, se dissolvam e reapareçam sob novas formas.

Esta percepção está intimamente ligada ao próprio método do projecto. O Caleidoscópio Coletivo, ao integrar compositores, intérpretes e criadores sonoros num processo verdadeiramente colaborativo, desloca também a ideia tradicional de obra musical. O resultado não é apenas um objecto fechado, mas um campo de interacções onde diferentes gestos criativos se encontram, se transformam e deixam vestígios uns nos outros. Nesse sentido, Vórtice propõe mais do que um conjunto de composições. Propõe uma forma de escutar.

Uma escuta que aceita a instabilidade das formas, que se demora nas pequenas metamorfoses do som, que observa a transformação tímbrica como quem observa um fenómeno natural em lenta evolução. O ouvido deixa de procurar apenas direcção ou resolução e começa a interessar-se pelo próprio comportamento da matéria sonora. É nesse momento que ocorre uma pequena deslocação perceptiva. O verdadeiro vórtice já não está apenas na música — está na própria escuta.

Ao longo do disco, o ouvido começa por procurar orientação: quer saber para onde a música se dirige, onde começa e onde termina. Mas pouco a pouco essa expectativa dissolve-se. A escuta aprende a mover-se dentro do fluxo sonoro como quem observa uma corrente de água ou um sistema atmosférico: não para o dominar, mas para acompanhar o seu movimento. E então acontece algo raro. A música deixa de ser apenas sucessão de sons. Torna-se uma experiência de tempo transformado.

Quando a última faixa termina, não ficamos apenas com o silêncio que segue a música. Ficamos com a sensação de que o próprio mecanismo invisível que organiza a nossa percepção temporal foi ligeiramente deslocado. Como se alguém tivesse rodado, quase imperceptivelmente, o tubo de um caleidoscópio. E de repente o tempo — esse material aparentemente estável — revelasse outra geometria possível.


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