Cálculo: “A Zul é um álbum feliz, que traz boas vibrações”

[ENTREVISTA] Bruno Martins [FOTOS] Direitos Reservados

 

Hugo Martins é um dos 350 mil portugueses que saiu de Portugal nos últimos quatro anos. Como cada um deles, Hugo teve os seus motivos. Importa que está feliz, apesar da natural saudade que se vai sentindo da terra. Sobretudo por falarmos de uma troca de Barcelos por Londres, um dos grandes centros europeus. “Eu moro abaixo de Brixton, na zona Sul de Londres”, diz-nos Hugo – com a alcunha de Cálculo, que já foi DST – que editou, este ano, numa espécie de trânsito entre Inglaterra e Portugal, o seu disco de estreia, A Zul. A música e o hip hop são uma espécie de redutor de saudade, sobretudo no que à escrita diz respeito.

Este disco de estreia, com clara influência na era dourada do rap e na herança do hip hop português nortenho, é feito com a cabeça e coração nas nuvens (não aquela cabeça-nas-nuvens que nos valia castigos na escola). Um disco que me soa ainda mais a honesto depois de conversar com Cálculo, acabado de chegar a casa de um dia de trabalho – “num escritório a organizar eventos educativos” – e que me pede, via Skype, só mais um minuto para poder beber um café.

Durante a conversa, directamente da sua sala de produção (o seu quarto), o produtor e rapper conta-nos então como foi sair de Portugal: o que perdeu e o que ganhou. Um dos seus triunfos foi, precisamente, este disco, que, finalmente, vê a luz do dia depois de tantos anos a dizer que “estava quase”. Da discografia de Cálculo contam-se algumas produções – os barcelenses Sonoplastia e o rapper de Leça da Palmeira SimpLe, que é um dos convidados deste A Zul – e temas soltos feitos aqui e acolá com amigos da cena hip hop. Na memória de Cálculo está também uma mixtape quase com dez anos, nunca editada, com 22 faixas escritas, gravadas e produzidas num Verão lá para 2005 e 2006. Mas esse trabalho… bom, é melhor ficar escondido. Talvez daqui a uns anos valha muito dinheiro. Por agora, concentremo-nos em A Zul.

 


Como é que começa a tua relação com Londres?

A minha decisão [de emigrar] foi rápida, há cerca de três anos. Estava em Portugal, a trabalhar, mas como sempre fui produtor – e isto aqui é uma cidade de música – quis sair de Portugal, experimentar novas coisas. Estava farto, porque sou de Barcelos, uma cidade pequena. Via sempre as mesmas caras e então quis sair. E fiz por isso. Agora trabalho num escritório a fazer eventos educativos, para a associação dos colégios de Inglaterra. Quando vim para cá foi meio à toa, mas ficou tudo bem.

Mas trabalhas com música?

Não! Às vezes estou a pensar em música enquanto trabalho, mas só em casa. E é uma coisa diária. Faço todos os dias, nem que seja só ouvir! Tenho o meu home studio e vou fazendo por aqui o que é preciso.

Este teu disco de estreia, A Zul, já nasce em Londres? Já reflecte a tua vida aí na cidade? É que parece ser feito com um bocadinho da cabeça em Portugal…

Sim, mas se calhar estou mais perto de ir a casa do que tu de ir ao Porto – de carro. Mas concordo que o disco é uma mistura de Portugal e Inglaterra, sim. Acabei por ganhar um horizonte mais vasto aqui por conhecer tanta gente, tantas raças, culturas diferentes, sons diferentes… Conceptualmente, A Zul acaba por ser uma construção sem pensar muito. E até no título, sabes? Londres é uma cidade muito cinzenta, mas por cima das nuvens está sempre A Zul. Talvez seja um pouco a pensar em Portugal…

Sem dúvida que tem alguns temas de memória: adolescência, referências na música, no hip hop…

É um disco muito intimista. Dá para conhecer um bocadinho do que eu sou. Acho que é um álbum feliz, que acaba por trazer boas vibrações. Era um sentimento que queria que transmitisse. Fala de coisas simples, mas que são as coisas essenciais da vida: o amor, a razão de eu estar aqui, a razão de eu ter vindo para aqui. Não foi simples de fazer, mas acabou por ser natural, orgânico e espontâneo.

 


 


Não é segredo para ninguém que vivemos tempos conturbados: em termos cívicos, económicos, que depois reflecte-se no social e até no lado emocional de cada um. Há muitos amigos que, todas as semanas, nos vão dizendo que vão embora, à procura de sorte para outro lado. E eu nunca sei se hei-de ficar triste ou contente… Há uns tempos pensaria que era bom, mas hoje vejo como se andassem a ser empurrados daqui para fora. Tu, mesmo estando longe, és feliz com a tua vida em Londres?

Eu acabo por estar sempre perto. Em Julho tive três concertos aí. Agora, em Novembro, vou ter mais dois. Às vezes uma pessoa vem em busca de um bem maior – dinheiro, perspectivas de futuro… – e esquece-se das coisas simples, como a cerveja com um amigo ao fim de um dia de trabalho, um café e um pastel de nata, o cheiro a mar… Mas prefiro pensar que é uma fase e que as coisas vão melhorar. Sinto-me sempre nos dois sítios, só que aqui em Londres trabalho um bocadinho mais longe que Barcelos (sorri), mas obviamente que a minha realidade é diferente: vivo numa metrópole com 10 milhões de pessoas.

Independentemente disso, Barcelos é uma cidade pequena, mas tem um ritmo cultural muito grande, seja a produzir rock, hip hop ou electrónica. Precisaste de mais espaço para ti?

Sim. Nós lá em Barcelos até costumamos dizer, no bom português nortenho, que é uma pasmaceira e que não se faz nada e que está parado. Mas até temos lá um festival de música, o Milhões de Festa – já lá toquei em 2011, no RedBull City Gang -, e, curiosamente, tenho muitos amigos que andaram comigo na escola que fazem parte das bandas. Até é fixe pensar nisso, porque pode despertar vontade à malta: “não se passa nada, vamos mas é fazer qualquer cena!” E faz-se música.

Voltando a A Zul: este é o teu disco de estreia – nem EP nem mixtapes antes! Como é que te apresentas musicalmente enquanto produtor, que ideias tinhas para esta estreia?

Eu sou produtor e rapper. Gosto muito das duas coisas. Talvez invista mais tempo nos instrumentais porque tem que ser. As letras podem aparecer num momento de inspiração, enquanto os instrumentais requerem mesmo tempo à volta deles. Os beats foram surgindo: alguns beats inspiraram a letra – o caso de “Dualidade” – e outros são já beats antigos, que tenho há muitos anos. Sempre trabalhei com MPC, mas há pouco tempo comprei uma [drum] machine o que facilita na hora de fazer mais beats em quantidade: parece que dá para fazer mais rápido as coisas simples, enquanto na MPC é mais arcaico, demora mais tempo a samplar.

Cada instrumento com a sua piada.

Sempre serei fã da MPC. A cena é ter ouvido, ter talento e criatividade. Como diz o Sam The Kid: “O que importa é o que tu fazes com o pouco que tens”.

Mas é curioso que nunca tenhas lançado nada antes. Só faixas soltas, não é?

Nada. Já fiz alguns sons, mas… (pausa) Eu fiz um EP, tinha uns 16 anos, numas férias de Verão. Mas nunca o lancei. Tinha 22 faixas! Tudo produzido, escrito, “misturado”, gravado num daqueles microfones de computador por mim. Até eu fiz a capa, no Photoshop, com o símbolo do underground de Londres. Mas agora nem tenho interesse que isso saia (risos). Passei a vida toda a dizer que estava a fazer um álbum… Com um perfeccionismo tal que me levava a dizer: “Ainda não está fixe”.


 

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Conceptualmente, A Zul acaba por ser uma construção sem pensar muito. Até no título. Londres é uma cidade muito cinzenta, mas por cima das nuvens está sempre A Zul. Talvez seja um pouco a pensar em Portugal…
– Cálculo


Em termos de influências, parece haver da tua parte uma clara absorção da escola mais clássica do hip hop, sobretudo do fim dos anos 90. Estou certo?

Não estás muito longe! Gosto mesmo dos noventa e tal BPM, dos beats tipo break your neck, de baixo e batida forte. A nível de produtores e influências gosto muito do late 90s e early 2000. Gosto de samplar e também adoro tocar tudo, fazer tudo original, investir muito nos drums e linha de baixo o que acaba por deixar tudo com o mesmo feeling.

Estes três anos em Londres já te influenciaram também musicalmente? Tens descoberto novas bandas, novas referências?

Aqui acabo por encontrar música em qualquer canto, mesmo que seja um homem no metro a tocar saxofone. Mas claro que tenho ido a mais concertos de hip hop – a minha namorada, por exemplo, ofereceu-me bilhetes para irmos ver os The Roots – e comecei a conhecer mais, claro. O próprio som de Londres é diferente do americano, uma sonoridade um bocadinho mais crua, mais dark. Há um mano de que gosto muito, o Eric Lau. Ele vive aqui perto de mim e é um produtor que não conhecia, muito na minha onda. Já fui a muitos concertos desde que aqui estou e até te vou mostrar aqui [e vai buscar para mostrar para a câmara de Skype] a assinatura do KRS-One aqui neste quadro (sorri). É mais fácil ir a concertos – sempre que há uma tour europeia, a malta passa cá.

Relacionas-te com outros produtores, fazes parcerias de beats? Como é que isso funciona? A internet, estando tu em Londres, é uma boa ajuda?

Parece egocêntrico, mas nunca gravei nenhuma música a não ser num beat meu. Mas mantenho contacto com outros produtores daí, troco ideias, mando amostras de beats para ter segundas opiniões. Conheço muitos, de todos os cantos do país – a malta vai-se conhecendo toda! Hoje há muitos mais produtores – ou pessoal que se diz produtor. Mas eu nunca trabalhei numa música minha com outro produtor. Talvez porque nunca tinha lançado nada como rapper e quis lançar algo primeiro com beats meus para tentar ser reconhecido nas duas vertentes. Agora, com outros trabalhos, até vou encontrar outros produtores. Gosto de trabalhar com pessoas por quem sinto alguma energia ou de quem gosto muito do trabalho. Nunca vendi um beat só por vender: trabalho com as pessoas, mas quero que o beat mereça aquela letra. Já produzi para um grupo que tive em Barcelos, os Sonoplastia; produzi o primeiro disco do SimpLe (Parece Fácil Mas Não É) e outros. E espero que este ano saiam ainda mais uns projectos.

 

 

A Zul está disponível para venda no iTunes, Bandcamp, GooglePlay e pode ser ouvido no Spotify.

Cálculo toca no dia 7 de Novembro Hard Club, no Porto, e, no mesmo dia, em Barcelos no 3 Pancadas.

Sigam o trabalho de Cálculo no Facebook e no SoundCloud.

Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.