Cais Sodré Funk Connection: “Lá por não termos nascido nos anos 50 em Detroit não significa que não saibamos o que foi a repressão”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Lançado no final de Maio deste ano, Back on Track é o terceiro (e o mais recente) álbum dos Cais Sodré Funk Connection. O disco sucede a You Are Somebody (2012) e Soul, Sweat & Cut the Crap (2016).

Esta “locomotiva” é, actualmente, conduzida por João Cabrita, Francisco Rebelo, João Gomes, David Pessoa, Rui Alves, José Raminhos, Miguel Marques, Silk e Tamin, instrumentistas e vocalistas experientes que continuam a citar o soul e funk de outras eras, transportando-o para 2019 sem esquecerem as grandes referências dessas estéticas.

Antes da sua passagem pela edição deste ano da Festa do Avante!, que acontece amanhã, o Rimas e Batidas publica a conversa que teve com o baixista e o saxofonista do grupo.



Como é que vocês enquadram este disco no conjunto da vossa discografia e carreira? Que disco é este?

[Chico] Tal como o título indica, é o disco de relançamento da coisa. Nós já estamos juntos há 10 ou 11 anos, com o início das residências no Musicbox, depois com o primeiro single em vinil com o Rickey Calloway. Os álbuns vieram depois. O último álbum saiu em 2016, o qual tocámos bastante. Estava na altura de fazermos novas canções. Como sabes, também temos as nossas vidas, não é fácil, com os nossos outros 500 projectos [risos]. Portanto, foi o toque para reunir e “bora lá fazer um disco novo”. Também houve uma alteração significativa da banda — o Tiago saiu e depois entrou o David. Houve um certo refresh na coisa. E pronto, foi a altura para começar um disco novo.

Falem-me da parte mais técnica do disco. Foi gravado no teu estúdio?

[Chico] Foi como o primeiro álbum. Foi gravado live no Namouche.

[Cabrita] Houve dois temas que gravámos no estúdio Bela Flor. Servimos de cobaia para o estúdio, porque eles tinham acabado de o construir.

[Chico] E acho que houve um tema em que gravámos a bateria no meu [estúdio]. Já não me lembro.

Mas o essencial foi no Namouche, live?

[Chico] Sim. O “grosso” foi o live no Namouche.

Com biombos ou com a banda toda? Como é que a coisa foi gravada?

[Chico] No Namouche tens de sempre pôr uns biombos, para separar ali um bocadinho o baixo da bateria. E os sopros. Nós gravamos todos na mesma sala. Só as vozes é que foram gravadas na régie. Mas, por acaso, no primeiro álbum gravámos as vozes live. Parecia um concerto, quase [risos]. Mas o método foi esse. É, no fundo, o mesmo método que utilizámos nos outros álbuns e que vamos continuar a utilizar. Gravar a banda toda live, fazer quatro ou cinco takes de cada música e depois escolher aquele que, no conjunto geral, soa mais groovie, mais coladinho. O que for preciso adicionar será por cima desse take. Basicamente foi esse o trabalho que se fez.

Então é sempre um processo rápido?

[Chico] Sim. Normalmente não demora mais do que cinco dias. Às vezes não conseguimos, por razões de calendário ou de orçamento, fazer os dias todos seguidos. Podemos gravar, sei lá, seis temas em três dias e depois quatro ou cinco em dois dias, separados por algum tempo.

[Cabrita] Desta vez foi uma semana.

[Chico] Sim, mas não gastamos mais do que cinco dias para gravar.

Continuando a falar de questões técnicas: há algum tipo de cuidado na hora de escolher o “arsenal” com que vão gravar? E pergunto isto porque não sei se tu, Francisco, usas o mesmo baixo para tocar com Orelha Negra e Fogo Fogo, e se tu, João, usas o mesmo saxofone quando vais para a estrada com o Legendary Tigerman. Ou seja, a personalidade que vocês tentam imprimir aqui passa também pela escolha dos instrumentos?

[Chico] Passa. Se calhar no caso do Cabrita não tanto, porque o saxofone é uma coisa mais…

[Cabrita] Neutra.

[Chico] Nem é a questão de ser neutra. Como é um instrumento que envolve a boca, por isso tem um contacto directo com o organismo. Com os baixos e com os teclados as coisas são um bocadinho diferentes. Na realidade, neste disco, por acaso e por várias questões de logística, uma boa parte da minha colecção foi parar ao estúdio. Como eu toco com muitas bandas, decidi, “olha, quando acabar o concerto de Orelha Negra, façam-me o favor de deixar as coisas no Namouche. Quando acabar Fogo Fogo deixem-me as coisas no Namouche”. [Risos] Então acabei por ter ali sete ou oito canhões, as minhas armas [risos]. E de facto fui escolhendo. Nalguns temas escolhi um tipo de som, noutro escolhi outra coisa. Com as guitarras e com os amplificadores também tivemos muito cuidado com os efeitos. Os teclados também. E pudemos usar o piano acústico, que é uma coisa que nós não temos normalmente ao vivo. Por comparação com os outros, este disco tem bastante piano nas gravações. Portanto sim, temos algum cuidado com esse tipo de coisas.

Stand-up ou de cauda, o piano?

[Chico] De cauda. É um Petrof.

De três quartos?

[Chico] Não. De cauda completa.

[Cabrita] É um maquinão do caraças.

Como é que vocês resolveram — que eu imagino que seja um problema gigante — o facto de não terem nascido nos anos 50, não serem negros de Detroit, não terem crescido com o movimento dos direitos civis, não terem sido vítimas de repressão, etc., e ainda assim fazerem música desta?

[Chico] Podemos não ter nascido nos anos 50 em Detroit, mas nem por isso deixamos de levar com outro tipo de repressão [risos].

No fundo, o que eu vos estou a perguntar tem que ver com o dominar de uma linguagem.

[Cabrita] O motivo inicial pelo qual nos juntámos todos neste projecto foi gostarmos todos deste género e de um certo tipo de discos. Já tínhamos uma afinidade com este género musical. Depois, nas residências no Musicbox, em que tocávamos só versões, serviu precisamente para irmos dissecando essa linguagem, ao mesmo tempo que íamos escrevendo os arranjos.
 
[Chico]
A nossa escola de funk e de soul tem muito a ver com discos. Ouvíamos e vamos continuando a ouvir. Muitos discos. Muitas horas a ouvir.

Quais são — e tu tens escrito muito — os teus mestres no que à escrita de canções para este projecto diz respeito?

[Cabrita] Na verdade, eu não tenho um mestre no qual me baseio. Eu toco há 30 anos e já toquei em muitos formatos diferentes. Eu tive um grupo de baile em que tocava muita música dos anos 60 — Otis Redding, Cole Porter, por aí fora — e que, mais tarde, vim a contactar via Cais do Sodré Funk Connection. Desde o princípio, de uma maneira ou de outra, parece que andas ali a passar pelas coisas. Eu quando componho os temas tenho fases em que ando a ouvir os Dap-Kings, ou uma compilação maravilhosa de northern soul que descobri por acaso e andei a ouvir aquilo durante um Verão inteiro enquanto ia para a praia com a família. Todas estas coisas passam uma espécie de ambiente, de feeling, que ficam na tua biblioteca e vêm ao de cima quando estás a compor. Não seria honesto se te dissesse que o James Brown era uma grande influência na minha escrita, porque não o é. É, no sentido em que estive exposto, como quem esteve exposto à radiação em Chernobyl. Alguma coisa transpira sempre no resultado final. Tu estás sempre à procura daquele estado de espírito, daquele tipo de galvanização ou aquela coisa que te faz dançar. Acho que às tantas, com o passar do tempo, tu dissecas um bocadinho as coisas e ficas só com os blocos essenciais da matéria prima. Depois reconstróis.

Vocês fizeram questão de se “cruzar” com a Sharon Jones, o Lee Fields, o Charles Bradley quando passaram por Portugal? Foram ver esse tipo de concertos?

[Chico] Eu fui a todas as aulas. Não faltei a nenhuma [risos]. Fui a todas as aulas e filmei o mais que pude. Vi como é que eles micavam os instrumentos, como é que funcionam…

Ah! Tu já foste com esse olhar?

[Chico] Eu já vou com esse olhar.

[Cabrita] Nós fizemos a primeira parte da Sharon Jones, uma vez. Então aí foi fixe, porque deu para fazer a espionagem industrial.

[Chico] Fomos corridos pelo stage manager [risos].

“Não tirar notas.”

[Chico] Não, não. “Apaga tudo o que tens no disco!” Eu disse, “ok, já apaguei, estás a ver?” Carreguei num botão, disse que tinha apagado mas é claro que não apaguei nada. Também nunca publiquei nada. Mas fiquei com a lição [risos]. Foram experiências… São aulas. Para mim são aulas. Absorvo aquilo tudo — como é que eles funcionam, como é que respiram, como é que os músicos comunicam musicalmente uns com os outros, a dinâmica do concerto, a maneira como tocam, a maneira como se cruzam, como interagem com o público, a forma como reagem… Para mim tem a ver com soul, que é uma escola que já vem do James Brown. Isso é muito importante para quem toca este tipo de música. Conhecer esse respirar. É como ir a uma casa de fado para aprender fado. Esses concertos foram e são sempre excelentes concertos. Desses exemplos que citaste, eu fui a todos. Epá, pronto, são lições. Que nos inspiram.

Infelizmente nem a Sharon nem o Bradley estão agora entre nós, mas nunca vos passou pela cabeça ter um Eli “Paperboy” Reed ou um Lee Fields como convidado num disco? Vocês começaram, aliás, com uma voz internacional no vosso primeiro single. Nunca pensaram em repetir a brincadeira com algum destes embaixadores da cultura?

[Chico] Sim, já pensámos nisso. Se bem que, muitas das vezes, as coisas não são assim tão simples, como a gente quer. No caso do Rickey foi mais simples porque ele está assim numa espécie de semi-reforma, o que o torna mais acessível para nós. Na altura em que lançámos os outros álbuns, a Sharon estava também num auge de carreira muito grande, o Charles Bradley também, a The Budos Band, que tem muitos dos músicos que tocam com os Dap-Kings. No concerto que fizemos com a Sharon em Cascais, no fim foi engraçado porque o Rui Alves, o baterista, fazia anos e a Sharon e as coristas foram dar-lhe os parabéns e cantámos todos. De repente, ali no backstage, o ambiente ficou muito familiar. Foi brutal. Fiquei amigo do percussionista, quando ele cá vem vamos sempre sair, encontramos-nos. Até temos esse elo criado. É só uma questão de encontrar a oportunidade.

Alguma vez enviaram alguma versão instrumental para alguém lá fora, naquela de mandar o barro à parede, como se costuma dizer?

[Chico] Chegámos enviar no princípio, logo no primeiro álbum. Enviámos para Inglaterra. Tivemos lá alguns contactos. Um agente disse-nos que era possível e enviámos algumas coisas. Não tivemos grandes resultados. Acho que agora, este ano, com o lançamento deste álbum novo, já temos outra posição. Já temos as coisas visíveis de uma forma que não tínhamos no início. Temos as coisas no iTunes, no Spotify… Toda essa parte está muito mais organizada, que nós no início não tínhamos e dá-nos outro tipo de peso e de credibilidade para chegar ao pé de um artista e dizer, “olha, a banda existe e tem este papel neste país. Era fixe fazer esta colaboração.”

Continua nos vossos planos, portanto.

[Chico] Claro.

[Cabrita] Sim. Desde que faça sentido e a oportunidade surja. São os dois únicos requisitos.

Há algum nome assim específico na vossa cabeça, que fosse um objectivo da banda?

[Cabrita] Lee Fields era uma granda malha.

[Chico] Era.

Quem sabe se um dia destes a coisa acontece….?

[Chico] Sei lá. Há tantos. E nem têm de ser cantores. Podem ser instrumentistas. O Kamasi [Washington], o Thundercat…

[Cabrita] O Anderson .Paak tambem.

[Chico] Fazíamos assim uma mega banda internacional [risos].

Uma coisa que eu acho muito curiosa na vossa banda é que todos vocês eram músicos muito experimentados. Mas os cantores nem por isso. Eu sei que ambos já tinham algum background mas vocês, de certa maneira, formaram estas vozes. Neste contexto, tanto o Silk como a Tamin são muito alimentados e criados por vocês. Sentem isso desta maneira?

[Chico] Sim, um bocadinho. O Silk sempre teve um passado ligado a projectos de soul e funk. Se calhar não tão inspirados em termos de roots como aqui. A Tamin tinha já o seu background no hip hop e no fado, mas fora dos Cais do Sodré Funk Connection nunca se assumiu como uma cantora soul. Aqui assume esse papel em pleno, não só na performance vocal, mas também na composição. Porque há muitas melodias que são dela.

Porque é que ainda não a ouvimos a solo?

[Chico] Isso tens de lhe perguntar a ela [risos].

[Cabrita] Talvez em breve.

Resposta à político.

[Cabrita] Sei que há movimentações nesse sentido.

[Chico] Ela está a trabalhar nisso.

O Francisco recentemente levantou-me um bocadinho o véu de um projecto que vocês estão a fazer e que passa precisamente pela colaboração com algumas vozes carregada de história. Vocês já fizeram isso no passado com o Paulo de Carvalho, com excelentes resultados. O que é que me podem adiantar sobre esse projecto?

[Chico] Posso adiantar-te quase tudo. Nós vamos lançar um EP em vinil, numa edição limitada de 7”, que é o resultado da nossa participação com o Eduardo Nascimento e o António Calvário. No Festival da Canção deste ano fomos convidados para fazer aqueles momentos de separação entre as canções e as votações. O (Nuno) Galopim, na altura, convidou-nos para fazermos este projecto e nós aceitámos. Foi um desafio engraçado. No caso do Eduardo Nascimento, a canção até está esteticamente mais próxima daquilo que nós fazemos mas no caso da “Oração” [com o António Calvário] está um bocadinho distante. Foi necessário repensar um bocadinho a coisa. Mas acho que o resultado ficou muito fixe e ambos adoraram. A experiência que passámos nos ensaios e na montagem da cena da RTP foi espectacular. Eles adoraram e nós adorámos. Na televisão correu também muito bem. Toda a gente gostou. Para mim fazia sentido. Em Portugal padecemos um bocado deste mal que é, às vezes, encomendam-se obras muito grandes e depois faz-se um espectáculo e a coisa não é firmada ou fixada. Na maior parte das vezes nem sequer é repetida. Como eu já passei por isso N vezes [risos]… Falei aqui com o Cabrita e disse-lhe que íamos mesmo ter de perpetuar isto. Por duas razões: é um momento importante na televisão, um momento importante de homenagem a dois grandes cantores que foram o Calvário e o Eduardo e também a nós, porque foi uma experiência muito interessante e importante para nós, enquanto músicos e para o currículo da banda.

Eles ficaram surpreendidos por haver o interesse de uma nova geração muito mais nova do que a deles pela figura e pela história que eles representam?

[Chico] Eu acho que sim. No entanto, eu acho que o Eduardo tem um bocado mais de consciência em relação a isso do que o Calvário. Em termos de carreira, a do Calvário é muito maior, não tem sequer comparação. Mas o Eduardo foi uma pessoa que cedo deixou as lides da música mas nunca se desligou daquilo que envolve os músicos. Ele foi responsável por muitas coisas importantes, que muita gente não sabe. O Eduardo foi o responsável pela primeira vinda dos Finaçon a Portugal, numa altura em que o funaná era proibido, antes do 25 de Abril. Na altura, tendo um peso importante na TAP e a representar a marca em Cabo Verde, conseguiu trazer o primeiro grupo fora das ilhas para vir aqui tocar. E tem muitas outras histórias… Ele conhece toda a gente da música e é uma pessoa muito respeitada. O Calvário não tem esse tipo de perfil. Sempre foi mais um homem de palco e, portanto, se calhar não terá tanto essa consciência, daquilo que hoje estamos a fazer. Ele quando ouviu o primeiro arranjo ficou um bocadinho céptico — “ah pois, vocês mudaram a estrutura e as pessoas estão habituadas àquilo e podem estranhar…” “António, vamos experimentar e vamos ver como é que corre”. Ainda nem tínhamos gravado e ele já queria ficar com a maquete para poder tocar nos espectáculos dele [risos]. “António, já agora esperas um bocadinho até termos isto tudo com bom som e depois nós oferecemos-te isso na boa para os espectáculos. Agora não vás é com a maquete fazer espectáculos pelo país” [Risos]. Agora sim, eu acho que o Eduardo tem muito mais consciência disso.

[Cabrita] Ele já nos conhecia. E disse que gostava muito.

Por causa do Paulo de Carvalho, será?

[Chico] Hum. Não sei se necessariamente por causa do Paulo de Carvalho. Talvez através do Miguel Ângelo, uma pessoa com quem ele trabalhou durante algum tempo. Nós até chegámos a falar na eventualidade de se fazer alguma coisa com o Eduardo, ainda antes disto. Mas ele adorou. Disse-nos que é difícil de ter uma banda com esta energia e ele tinha muitas saudades de sentir uma banda com esta energia e gostou muito. Gostou muito e mais coisas poderão vir daí. Mas para já ficamos-nos por aqui.

Fechamos então a torneira. Eu tenho reparado que vocês fazem — se calhar é impressão minha, corrijam-me se estiver errado — uma quantidade um bocadinho anormal de concertos privados.

[Cabrita] É verdade.

[Chico] Por acaso ainda hoje estava a pensar nisso [risos]. Epá, sim, acabamos por ter um mercado de concertos privados que, normalmente, só costuma acontecer mais para aquela malta que já é consagrada. Tipo o Rui Veloso, essa malta.

[Cabrita] Se calhar são uns 30% por ano.

[Chico] Eu acho que isso tem a ver com a nossa música ser festiva. E também um bocadinho abrangente para pessoas já… Ok, nós temos de ser honestos, não fazemos música para teenagers, não é? Mas muitas vezes, quando tocamos, tanto dentro como fora de Lisboa, há pessoas que vêm no fim dos concertos para nos pedir os contactos e comprar os discos, e já não é a primeira nem a segunda nem a terceira vez que, logo no sítio, “eu vou fazer um evento na minha quinta ou na minha empresa e gostava mesmo que vocês lá fossem.”

[Cabrita] É verdade.

[Chico] Isso acontece. Acontece directamente. Também há um trabalho de agenciamento, obviamente, mas tem acontecido muitas vezes…

[Cabrita] Ainda no outro dia, num ensaio, estamos a tocar com a janela aberta e há um gajo, do lado da rua, “vocês são quem? Dêem-me lá o vosso contacto”. Pouco tempo depois já estávamos a discutir o orçamento [risos].

Fantástico. Agora, eu sei que isto poderá mexer um bocadinho com o segredo, que é a alma do negócio e não se deve dar os trunfos todos assim à concorrência, mas eu preciso de saber quem é o vosso alfaiate.

[Chico] Oh pá, não queiras saber, vais ficar desiludido [risos].

Não há um velhinho na Mouraria que vos faça os fatos por medida?

[Chico] Estes fatos que nós temos agora, vermelhos, foi uma série que a Zara fez há uns dois anos. O Silk topou. “Epá, estão aqui umas merdas que eram fixes para nós, baratas”. A questão dos fatos é que temos de os costumizar. Têm de ser feitos à medida. Isso deve andar à volta dos 500 paus. Isto multiplicado por uma banda com 10 macacos… Estás a ver a despesa que não é… Durante uns tempos nós andámos a tocar com uns fatos que foram até financiados por um outro projecto que nós gravámos antes.

[Cabrita] Também eram da Zara [risos].

[Chico] Mas esses já foram “kitados” por costureiros. Bem, nós temos isto no play, mas no outro dia estive a pensar numa ideia, de uns fatos inspirados num filme…

[Cabrita] E é isso.

[Chico] Epá, temos de ir devagarinho.

[Cabrita] Exacto. Temos de tratar do dinheiro primeiro [risos].

Para terminar — e tem tudo a ver com o que vocês estavam a falar agora — não é fácil ter uma banda com tantos elementos. Quantos são ao todo, a contar com técnicos?

[Chico] Na estrada somos 12.

Duas carrinhas?

[Cabrita] São.

[Chico] Por muito que possa custar a algumas pessoas a acreditar, a nossa banda e o nosso som é assim. Se eu retirar dois sopros, já só ficamos com um. Epá, é assim. É assim que soa. Tu vais pegar naquelas bandas clássicas de funk e soul e eles têm sempre esta composição. Às vezes pedem-nos “vocês são muitos, não podem vir cá só com uma versão reduzida?” Quando essas coisas acontecem só me apetece é dizer “ok, então o cantor e o baterista não vão”. Não dá. Tem que ser assim. É assim que funciona, é assim que soa e é assim que é. Se não for assim já não é a mesma banda e já nem soa à mesma coisa, então mais vale não fazer.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu