Cabaret Voltaire: a electrónica como resistência

[Foto]: ©Direitos Reservados

Não são bem os Cabaret Voltaire. Richard H. Kirk ostenta o nome, mas falta Stephen Mallinder e Chris Watson para que a equação original esteja completa. Ainda assim, a apresentação de Kirk sob a marca Cabaret Voltaire na edição presente do L.E.V – Laboratório de Electrónica Visual., em Gijón, Espanha, (hoje, no espaço do Teatro) constitui para quem reside em Portugal a melhor oportunidade (geograficamente falando) de observar de perto o eco presente de uma extraordinária aventura electrónica que emanou de Sheffield e impactou o mundo na ressaca do punk.

Tal como os Kraftwerk já só contam com Ralf Hütter para garantir uma ligação humana às origens, os Cabaret Voltaire vêem hoje o peso da sua história repousar apenas nos ombros de Richard H. Kirk. Tem sido ele, aliás, o guardião mais activo do legado dos Cabs no presente, instigando reedições de fôlego como aconteceu em 2013 com a fabulosa antologia #8385 Collected Works (1983 – 1985). Mas, ao contrário de Hütter, Kirk prefere não assumir o catálogo dos Cabs como o alfa e o omega do seu presente e usa o nome apenas como moldura conceptual para apresentar trabalho novo. O que isso significa exactamente tendo em conta a memória associada à música que produziu, sobretudo até 1985, ainda se perceberá depois da sua apresentação em Gijón, mas é inegável a importância extrema do trabalho efectuado pelos Cabaret Voltaire numa época chave da história da música electrónica. Abaixo, cinco momentos decisivos no período clássico e mais exploratório dos Cabaret Voltaire. Ou uma visita rápida ao passado para calibrar devidamente o vislumbre de futuro que Richard H. Kirk agora propõe.

O trabalho dos Cabaret Voltaire, como qualquer outro produzido em contexto exploratório no passado e continuamente reavaliado ao longo das décadas seguintes, é hoje encarado como parte de um mais vasto corpo de trabalho que impactou correntes electrónicas como o techno. No entanto, os primeiros passos do grupo devem ser ouvidos não como tentativas de inaugurar algum novo caminho, mas como procura de uma saída para uma necessidade de expressão e de uma certa falta de outros recursos técnicos. Na Inglaterra pré-punk, certamente inspirados por alguns dos estranhos ruídos que adornavam algumas séries de televisão e pelo mesmo sentido de alienação derivado da deslocação tecnológica em direcção ao futuro que animava as páginas de JG Ballard, os Cabs entenderam velhos rádios e gravadores de fita como uma possibilidade de comentar o presente, muito mais do que antecipar o futuro.

O tom pesadamente processado dos primeiros registos dos Cabaret Voltaire – com Kirk na guitarra, Mallinder no baixo e vozes e Watson nos diversos artefactos electrónicos a implodirem e expandirem os limites orgânicos do clássico power trio – tinha menos que ver com um desejo de mascarar limitações técnicas do que transcender as formas e as texturas então à sua disposição. Mais do que afirmar uma posição, o grupo parecia interessado em negar impossibilidades; mais do que explorar um só caminho, os Cabs pareciam mais decididos a incorporar tudo o que lhes interessasse numa amálgama de sons e referências onde cabia o lado mais abrasivo do punk, as arestas mais afiadas das vanguardas, as possibilidades discursivas da electrónica, os ecos do dub e até a ética de livre improvisação das margens mais remotas do jazz. O mesmo em termos políticos: os Cabaret Voltaire não possuíam uma agenda e uma cartilha definida. Mais do que exclamações, o seu discurso apresentava interrogações.


 

[Nag Nag Nag]
(Rough Trade, 1979)

Punk destilado com ácido de bateria banhado em tons distópicos, como se fosse possível fazer garage a bordo de um cargueiro espacial a caminho de lado nenhum.


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[The Voice of America]
(Rough Trade, 1980)

A Voz da América e o sentimento já muito real da ameaça globalizante da sua cultura mais baixa, a da fast food e do capitalismo selvagem. Tudo processado com tape loops, ruído e uma urgência experimental realmente diferente.


 

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[Red Mecca]

(Rough Trade, 1981)

Mais um disco confuso em termos conceptuais, tão confuso quanto uma tv mal sintonizada, mas mais claro na sua experimentação uma vez que foi suportado por um avanço para um gravador de oito pistas capaz de dar espaço a outro tipo de arquitectura. Um pouco menos lo-fi, igualmente obtusa.


[Yashar]
(Factory, 1983)

Uma voz samplada de um velho episódio de Twilight Zone e um mantra singular para as pistas de dança antes de Chicago e Detroit terem dado os primeiros passos.


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[Micro-phonies]
(Virgin/Some Bizzare, 1984)

A pista de dança mais presente em Micro-Phonies – álbum já concebido na era pós-Watson – indicia que o duo Mallinder-Kirk acredita no sistema de som como ferramenta libertária e no clube como espaço de resistência. “Sensoria” é uma das provas.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu