LP / CD / Digital

Butcher Brown

#KingButch

Concord Jazz / 2020

Texto de Rui Miguel Abreu

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É possível identificar uma linha transversal que une projectos tão díspares quanto os SAULT, Mourning (A) BLKstar, Big Joanie ou Black Pumas: o olhar que todos lançam sobre o passado da música negra – sobre a soul e o r&b, o hip hop e o jazz, sobre o rock… – é ancorado num claro acto de resistência política. Mais ou menos alinhados com os protestos que se agigantam pelas ruas das cidades, de Londres a Cleveland, de Los Angeles a Richmond, estas bandas parecem, sobretudo, apostadas em recuperar o pulsar colectivo como vibrante ferramenta criativa. Nessa simples opção pode ler-se uma vontade de combater aquilo que parecia ser, olhando para as tabelas de vendas e para a maior parte dos fenómenos pop virais, uma certa normalização digital do acto de produção musical. E tendo em conta o estranho momento presente que nos envolve – com a cena de clubes global, que funcionava como autêntico sistema circulatório para este tipo de bandas, a ter sido praticamente obliterada pelas circunstâncias pandémicas –, mais força simbólica adquire esta música de espírito cooperativo, militante e orgânico. Adicione-se outro nome a essa cada vez mais vital lista: Butcher Brown.

Na verdade, este colectivo de Richmond, na Virgínia, já soma uma dúzia de anos de intensa actividade, com registos discográficos a recuarem a 2013, ano em que lançaram o seu EP de estreia, Blacktracks. Os Butcher Brown não beneficiaram apenas de uma bem estruturada cena de clubes na cidade que revelou ao mundo o génio de D’Angelo, mas também de um progressivo programa de ensino de jazz ministrado na Virginia Commonwealth University e frequentado pela maior parte dos seus membros.

“Eu diria que o legado de Prince em Minneapolis é semelhante ao de D’Angelo aqui”, explica o produtor, engenheiro e teclista DJ Harrison no press release de #KingButch, álbum de estreia dos Butcher Brown na Concord Jazz, acabadinho de lançar. “A diferença é que Richmond é uma cidade mais pequena, com muito mais história e cultura negras, algo que marcou muito D’Angelo. Há uma vibrante cena musical aqui. É uma cidade pequena em que as pessoas frequentemente passam a caminho de outro lugar qualquer na Interstate 95”. História longa e viva, um modelo inspirador, uma cena de clubes bem oleada com muitos palcos e amplas oportunidades para tocar ao vivo e um fértil programa de ensino de jazz na instituição universitária local são os vectores principais que explicam o nascimento dos Butcher Brown e a sua chegada a 2020 com uma sólida reputação de grupo de palco, firmemente centrado numa tradição jazz, mas de ouvidos generosamente abertos para o funk, a soul, o r&b, o hip hop, o rock e outras linguagens trazidas para a equação graças a um ecossistema de bandas que foi permitindo a cada um dos membros da banda adquirir experiência noutros contextos. Como revela Morgan Burrs, guitarrista, em conversa (a ser brevemente publicada) com o Rimas e Batidas, “antes de pandemia, numa típica semana aqui em Richmond, seria normal ver os diferentes membros do grupo a tocarem ao vivo com uma variedade de bandas locais. Temos todos agendas bastante preenchidas”.

DJ Harrison, que como produtor assinou em 2017 um fantástico HazyMoods lançado pela Stones Throw (além de registar no seu currículo colaborações com Jack White e trabalho de produção para Kamaal Williams, Phonte Coleman ou Koncept Jack$on), está na génese do grupo, bem como o baterista Corey Fonville, natural da vizinha Virginia Beach. Andrew Randazzo, baixista natural de Washington que chegou a Richmond para frequentar o curso de jazz da universidade local, completou o núcleo inicial do projecto que registou a sua estreia em palco em 2009, num clube chamado Bogart’s. O saxofonista e MC Marcus “Tennishu” Tenney, que entrou em 2014, e o guitarrista Morgan Burrs, “recrutado” em 2017, completam o line up actual, fruto de uma série de experiências com vários outros músicos, frequentemente tidas em palco, mas também na sala de DJ Harrison, que funcionava como espaço de ensaios e estúdio para ir documentando a evolução colectiva.

#KingButch é assim a oitava entrada no já generosamente povoado catálogo destes nativos de Richmond, sucedendo a Camden Session, registo direct to disc efectuado no estúdio londrino de Mark Ronson em 2018, e AfroKuti: A Tribute to Fela, EP editado já em 2019. A chegada do grupo à Concord Jazz, editora que ainda recentemente lançou SOURCE de Nubya Garcia, traduz a visibilidade crescente que os Butcher Brown foram adquirindo graças à sua séria ética de trabalho, mas também não se pode, nem se deve, descurar dessa particular circunstância o facto de catálogos mais progressivos, como o da Concord, procurarem agora sintonizar-se com aquela que parece ser a banda sonora mais adequada para o #BlackLivesMatter, movimento que teve especiais repercussões na cidade que historicamente foi uma das capitais da confederação, palco de inúmeros protestos e laboratório avançado para novas abordagens críticas ao passado de opressão racial ao permitir a remoção institucional de estátuas altamente simbólicas do período esclavagista dos Estados Unidos. Os Butcher Brown, afinal de contas, são uma banda harmoniosamente multirracial.



Claro que sabendo do calibre necessário para se sobreviver uma dúzia de anos no ferozmente concorrido circuito de música ao vivo nos Estados Unidos, facilmente se percebe que todos os elementos do quinteto são dotados de técnica instrumental refinada, facto amplamente demonstrado ao longo das 13 faixas do alinhamento de #KingButch, mas esse está longe de ser o elemento que define o grupo, que se revela muito mais interessado em soar como um colectivo coeso do que como um conjunto de feras com pronunciadas competências instrumentais individuais. E isso garante-lhes uma orgânica fluência num álbum em que exploram a distância passível de percorrer entre o p-funk mais abrasivo, o jazz de fusão mais elegante, o hip hop ou o jazz mais dançante, posicionando-se algures entre a memória, sobretudo aquela que remete para a década de 70 do passado século, e o agitado presente que habitam.

Há duas versões no álbum: “Love Lock”, tema que primeiro viu a luz do dia no álbum de 1978 Kiss The World Goodbye do super-percussionista James Mtume (ele que integrou a banda de Miles Davis na primeira metade dos anos 70), e “Tidal Wave”, pedaço de algodão doce aural que o saxofonista Ronnie Laws assinou para o seu álbum Pressure Sensitive, de 1975. Tempos houve em que o hip hop evitava samplar qualquer disco lançado depois de 1973 com a mesma energia com que o mafarrico supostamente foge da cruz, mas os Butcher Brown descobriram ambos os temas na biblioteca sampladélica de DJ Harrison, rapidamente encontrando aí matéria para reintroduzir no presente, permitindo-lhes explorar uma particular ideia de elegância de que o jazz andou muito tempo alheado enquanto buscava nos clássicos bebop as fundações para um certo neoclassicismo que dominou boa parte da mais visível produção do género assinada pela geração de 90.

O disco abre com uma espécie de declaração de intenções expressa de forma demasiado breve no contagiante (e de revelador título…) “Fonkadelica”, exercício que precede o tema que dá título ao álbum, de tranquilo bounce hip hop que suporta as rimas de MC “Tennishu”, “coming like a freight train/ in the left lane/ 150 miles an hour, kinda insane”: o peso gerado parece de facto equivalente ao de um comboio de carga, já a velocidade será bem mais compatível com a da lava incandescente que escorre montanha abaixo depois de uma erupção, longe das tais 150 milhas por hora, mas ainda mais incandescente. Para lá das rimas funcionais do saxofonista da banda, há ainda que contar com o único convidado do álbum, o rapper emergente Fly Anakin, que marca de forma vincada com o seu mais rebuscado liricismo uma das últimas peças do alinhamento, “For The City”, um hino à cidade e à sua vibração particular, servido por um groove tão denso como geleia e igualmente capaz de se revelar pegajoso na forma como se recusa a descolar dos nossos ouvidos.

Ao longo do álbum, são inúmeras as manifestações de pleno domínio das sinuosas dinâmicas do groove (“Broad Rock” ou “Cabbage (DFC)” são bons exemplos), bem como os “chops” jazzy dos solistas: em “Gum in My Mouth” é uma dolente cadência tropical que acomoda as rimas de “Tenishu” e as elegantes colorações guitarrísticas de Morgan Burrs enquanto que “Frontline” permite que Marcus Tenney deixe bem claro que o seu flow é igualmente musical quando larga o microfone e pega no saxofone. “IDK”, a tour de force que fecha o álbum, é uma montra de propulsão pronunciada para Tenney demonstrar que é igualmente um trompetista capaz, também aproveitada por Burrs e por Harrison para solos que deixam bem evidente que todos aqui foram dedicados estudantes do mais expansivo e fusionista lado do jazz dos 70s e que compreenderam na perfeição a linguagem que melhor encaixa com os solos quando se adopta esse registo.

Exuberância, elegância, um propósito definido, capacidade de perfeito encaixe colectivo, domínio absoluto do groove necessário quando o público para que habitualmente se toca está de pé com uma cerveja na mão e se mostra disposto a dançar. Tudo marcas que os Butcher Brown poderão perfeitamente exibir quando o circuito de festivais voltar a funcionar. Esta é uma banda que precisa de palcos para brilhar. Foi assim que nasceu e só assim poderá crescer: enquanto isso não é possível, audições repetidas de #KingButch trarão, certamente, amplas recompensas.


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