BUSTA RHYMES // The Return of the Dragon (The Abstract Went on Vaction)

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[TEXTO] Sidónio Teixeira

 

Da internet chega-nos uma prenda de Natal atrasada mas não menos convidativa, uma sequela já muito antecipada nas redes sociais e agora materializada a tempo de começar bem o ano. Veterano de longa jornada, Busta Rhymes disponibilizou nos endereços do SoundCloud o capítulo seguinte de The Abstract Dragon, editado em 2013 e agora transformado em The Return of the Dragon, até porque, como diz a segunda parte da intitulada mixtape, The Abstract Went on Vacation.

Tal como a abstração, Q-Tip foi também ele de férias. Antes de o fazer, participou na faixa introdutória com um conselho para Rhymes: “You should make a Dragon joint”. E ele fê-lo. O braço direito que deu sustento, produção e voz à primeira experiência com dragões dá agora lugar a um leque dos mais variados convidados que dão corpo à versatilidade sonora pela qual se destaca este projeto de estilos vários. Versatilidade que vai desde a genuinidade lírica de Chance The Rapper a toda a swagyness de Wiz Khalifa (“Shawty Go”), passando por toques artísticos muito próprios, sejam eles vocais ou produtivos, de nomes como MF Doom e Chicago Kid (ambos alinhados em “In the Streets”), Rick Ross (a cantar do fundo dos pulmões em “Real Niggas”) ou até a surpresa que é a participação de Mary J. Blige a ditar raciocínio e calma no flow imparável de Rhymes em “Your Loss”; entre tantos conterrâneos das ruas de toda a América.

Esta mixtape funciona muito no sentido que o hip hop tomou com o passar dos anos. Reeinventou-se, multiplicou-se e ainda criou a vergôntea que é o rap. Aqui cruzam-se áreas artísticas que se debateram pelas respectivas visões do mundo artístico. As profundas bass lines e baterias da Old East Side School, acompanhados pela voz gasta e já rouca de Rhymes, intercalam com a harmonia causada pela fusão entre as ambiências e dicções mais faseadas e resilientes, a provar que a diversidade é o atalho para a novidade. Arrojamento já fruto daquilo que é a vida de Rhymes, de provas dadas e capacidades comprovadas, seja para protagonizar ou dar protagonismo, algo que acontece ao longo de todo o Regresso do Dragão, que desde ’96 abafa o silêncio com a força das chamas em forma de rimas e batidas.

Destaque para a base fundadora do processo produtivo, que aqui é deixado a cargo de referências tanto do início do milénio (há traços de J Dilla presentes das faixas mais trabalhadas ao nível instrumental) como da vanguarda da nova escola (é impossível não anotar o sample da guitarra elétrica de “Tonight”, que Busta partilha com Sean Paul). Juntamente com outros nomes como Jahlil, Black Milk, Roc Marciano e Lex Luger, fazem de Return of the Dragon a travessia entre as news waves do hip hop e do rap. Um dá protagonismo ao som, o outro a palavra. O importante é que os dois se saibam articular e garantam o ritmo através do beat e a intenção pela escrita.

A última referência vai para a humildade da Gonglomerate Ent, editora pela qual Busta Rhymes faz de porta-voz, e que partilhou com a comunidade cibernauta e devota pelo hip hop uma experiência pelo custo de nada, promovendo esta mixtape não pelos truques do marketing mas por tweets e clique bites. Podia tê-lo feito tendo em vista o lucro, mas será que os números fariam diferença a quem segue as andanças do hip e do hop desde os anos 90 e que daí para cá escreveu uma biografia deste tamanho? Provavelmente não.

 

Sidónio Teixeira

Sidónio Teixeira

Fã incondicional do mundo artístico. Acredita que a Arte, seja ela qual for, é um mundo de universos paralelos que se cruzam. Tem especial admiração pelas ideologias e conceitos asiáticos, mais especificamente os nipónicos. Estudou literatura e jornalismo na Nova de Lisboa.
Sidónio Teixeira