Em Burburinho, Leonardo Pereira olha pelo retrovisor e oferece destaque aos discos — muitas vezes não tão óbvios — que mais o marcaram ao longo do mês anterior, com especial enfoque para tudo aquilo que se vai colhendo nos campos do hip hop. Sem restrições ao nível da estética, por aqui vão cruzar-se propostas que vão desde o mais clássico boom bap às cadências soulful que aproximam o género do R&B, não esquecendo nunca as reformulações mais modernas do som nascido em Nova Iorque, que hoje gera infindáveis ecos a partir de qualquer cidade à volta do globo através das visões gélidas do trap ou do drill.
[redveil] sankofa
Várias audições repetidas de sankofa, o 4º longa.duração de redveil, não nos convenceriam que o rapper de Maryland tem apenas 21 anos. Na sua voz transporta uma sabedoria emocional e uma habilidade na tradução de sentimentos que mais facilmente atribuiríamos a alguém com mais experiência vivida em todas as arestas da vida, elevando-o a outros patamares musicais. Submete-se a uma pitoresca dissecação do que viveu até agora neste disco e ouvimos todas as lágrimas que já chorou, todos os risos que já gargalhou, todos os conflitos internos que batalhou e os momentos em que desesperou. Tudo na sua voz, que toma contrastes diferentes em praticamente todas as faixas, e nas suas rimas, que conseguem tecer uma imagem completa de Marcus Morton, uma façanha que é obrigatória reconhecer. “Sankofa” é um conceito Adinkra que representa a sabedoria de retornar ao passado para se poder construir o futuro. Não começámos aqui com redveil, mas sabemos que ele fará questão de que não esqueçamos de quando o conhecemos.
Talvez ajude a produção do disco ter sido feita pelo próprio, na íntegra, uma exibição total do potencial do artista como produtor, com um uso expressivo de sons orgânicos. Voltando à ideia do autorretrato, ouvimos todas as camadas do disco a terem o seu momento, sentimos estes 40 minutos de música vivos, como se estivéssemos a olhar para um habitat dentro de um terrário, um oceano cheio de vida natural dentro de um aquário. A transparência é tal que talvez tenhamos vivido todos estes episódios com Marcus, simplesmente não estivemos com atenção.
Talvez ajude também as únicas duas features serem absolutamente perfeitas: Carolyn Malachi empresta a sua voz do soul para adornar “lone star” com harmonias celestiais e Smino traz a sua swagger sulista para “brown sugar”, uma das faixas mais sexy e sensuais que ouvimos em 2025.
redveil tem 21 anos e faz música desde 2015. Em 2019, com apenas 15 anos, lança o primeiro disco. Desde aí, já contamos 4 projetos, várias mãos-cheias de colaborações e co-signs importantes. É altura de prestar atenção ao passado e ao futuro.
[SALIMATA] The Happening
SALIMATA é uma rapper nova-iorquina que fará 28 anos no próximo mês de fevereiro, aterrou no mundo do hip hop em 2019 e já deixou a sua marca neste panorama por 3 vezes, tendo lançado o seu primeiro disco em 2022 e ganhando a atenção de artistas como MIKE e Pink Siifu, que se juntam a ela no seu segundo disco, 2 anos depois. O caminho continuou e em dezembro passado recebemos The Happening, e talvez daqui a estrada se alargue para Salma Calhoun.
A sua voz é confortável, quase melosa, numa ostentação do seu próprio orgulho e reconhecimento da sua qualidade como MC, com uma facilidade espantosa em contar episódios de amor e desamor logo após glorificar o seu próprio come-up. As palavras vão saindo da sua boca como se fossem as únicas que serviriam os seus propósitos e vamos seguindo cada sílaba com uma ânsia exagerada para ouvirmos a próxima. É nesta hipnose que reconhecemos uma qualidade intemporal nas rimas e na escolha dos colaboradores que lhe ofereceram os instrumentais onde rimar: Ovrkast., Angelo LeRoi, Corey Fonville, Creestal, Jedi-P, Solo e Velvetian Sky reforçam o reverb, adicionam-lhe samples vocais com aquela qualidade de som vintage, brincam com o drumless nos intervalos do boom bap underground contemporâneo e inspiram uma quantidade de flows e tons que não param de entreter. Que este acontecimento se torne num de muitos para SALIMATA.
[Erick Sermon] Dynamic Duos (Volume 1)
Quem é que tinha isto na lista para o Pai Natal? Da nossa parte, agradecemos profusamente. Para quem não está a par, Erick Sermon é metade dos EPMD, grupo fundacional do hip hop nova-iorquino, e têm-se mantido ativo nos últimos anos a juntar uma série de duos lendários neste primeiro volume de Dynamic Duos. Quão lendários, perguntarão vocês? Bem, a lista passa por Snoop Dogg e Nate Dogg (que descanse em paz), pelos Cypress Hill, por Method Man e Redman, Salt-N-Pepa, Public Enemy, Conway the Machine e The Game e Heltah Skeltah, entre outros. Entre a pandemia de COVID-19 e conflitos entre editoras, só recebemos este dezembro passado o tal disco que nos devolve umas quantas vozes icónicas, propostas em produção atual, toda organizada pelo próprio Sermon. A apontar algo menos positivo, seria a duração das faixas: ficamos com fome de mais e apenas duas das 15 faixas do disco ultrapassam os 3 minutos. A combater isto, a qualidade dos refrões é intemporal, e parece que a capacidade de os escrever bem orelhudos nunca degrada, mesmo depois de 4 décadas no game. Lembramo-nos de que devem estar aqui mais de uma centena de anos de experiência entre todos os intervenientes do disco e percebemos bem que a fasquia não poderia estar mais alta.
A intenção é de eternizar oficialmente todos estes duetos no seu habitat natural do boom bap, seja ele de que região for. Porque, apesar de todos os regionalismos ou da era de cada artista, o que ouvimos neste projeto é uma unificação do som e um retorno ao propósito original, a conjunção de todos as características descritíveis e indescritíveis do hip hop, o amor à arte de fazer palavras rimar por cima de beats. Não cremos que seja preciso mais nada.