Broke, Bottles and Blues: Raze recua no tempo e vai ao “início do que hoje chamamos black music

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Crashgrafia

Aterrou no último sábado a nova beat tape de Raze. Broke, Bottles and Blues conta com oito instrumentais e foi servido com uma cover assinada por Vicente Design.

O produtor de Tomar viajou para trás no tempo para nos dar uma nova visão dos blues sob a perspectiva de um beatmaker de hip hop. O género musical nascido no sul dos Estados Unidos da América foi a base para o tipo de sonoridades que vingaram durante o século XX — do jazz ao rock — e, por isso, o elemento ideal para Raze explorar naquele que é o primeiro projecto de uma nova série de lançamentos que se vão focar em sonoridades e conceitos muito específicos.

No activo desde o início do presente milénio, o autor de Sem Dados Disponíveis voltou a reclamar o protagonismo nos últimos anos com três volumes de Coffee Beats, para os quais contou com contribuições de artistas como Karlon, ORTEUM, Valas ou DJ X-Acto. No último ano, Raze serviu Perigo Público, Splinter e Ruze em vários temas soltos.

Falámos com Hélder Sousa acerca do conceito deste novo Broke, Bottles and Blues e dos planos que nos reserva para o que ainda falta de 2020.



O título e a sonoridade do teu novo trabalho remetem-nos para o género clássico nascido no sul dos EUA. Porquê o blues?

Sempre fui um fã de blues e isto acaba por ser o acumular de vários instrumentais nessa onda. Decidi a partir de agora lançar algumas beat tapes sempre com uma sonoridade/conceito perceptível. O blues foi início do que hoje chamamos black music e achei importante começar por ai.

Na press release da beat tape, traças um paralelismo entre o termo “Fátima, Futebol e Fado” e o título do projecto Broke, Bottles and Blues. Qual é ligação que encontras entre estes dois conjuntos de palavras?

Na minha cabeça, associo a expressão “Fátima, Futebol e Fado” à cultura portuguesa, às nossas raízes. São tradições tipicamente portuguesas, tal como o cultura portuguesa do “estar no café”, paralelamente ligada à vida boémia e ao “broke“. As próximas beat tapes vão obedecer a esse mesmo princípio das palavras começadas com a mesma letra.

Estes oito instrumentais são produto do teu período de quarentena?

Não, só um deles foi feito neste período, nos restantes a base já estava feita, apenas os arranjos e demais detalhes são desta altura. A quarentena deu-me tempo para ajustar tudo ao máximo e deixar tudo como queria.

Explica-me qual foi o processo que conduziste para levar os samples dos temas originais até ao que nos apresentes neste disco.

Algumas das faixas sampladas são efectivamente faixas de blues, mas grande parte são de outros géneros que acabei por transformar. Neste projecto comecei a usar uma maquina nova, a Roland SP-404sx — já tive várias ao longo dos anos mas acabei por vender todas. Sempre fui um fã da Roland no que diz respeito ao processamentos dos samples, os efeitos da máquina ao serem em tempo real dão te uma maneira diferente de trabalhar. Todo este trabalho foi feito sem qualquer tipo de quantização, compressão, e mesmo os efeitos tentei que fossem o mais soft possível para não perder a dinâmica. Também houve uma preocupação a nível de mistura e masterização para que soasse o mais real possível, mas sem deixar de ser actual.

Sei que atravessamos um período de muita incerteza. Ainda assim, tens algum plano traçado para o que ainda resta de 2020?

Estou de momento a trabalhar no álbum do Ruze, totalmente produzido por mim. E, se nada falhar, lançar ainda este ano um EP com o Lucy YK/ODC Gang. Espero ainda lançar mais algumas beat tapes este ano.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira