Brockhampton, os desenquadrados que decidiram começar uma boy band

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Julian Berman

Numa casa em Los Angeles, cerca de uma dezena de pessoas juntaram-se para conquistar o mundo. Bem, o mundo da música. Melhor, o mundo da música pop. Para ser mais exacto, talvez comecem por conquistar-vos, miúdos desenquadrados. Tenham cuidado: a próxima grande “All American Boy Band” nasceu na Internet e está pronta para conquistar todos os mundos que conhecem.

 



Tal como os Odd Future na sua génese, os Brockhampton – que nasceram a partir dos Alive Since Forever, primeira tentativa de Kevin Abstract em reunir um conjunto de pessoas com algo especial – englobam várias valências dentro do colectivo: designers, produtores ou músicos são algumas das diferentes formas de expressão criativa que aí se cruzam. Rewind para o princípio: um grupo de talentosos artistas conheceu-se em Kanye To The, comunidade digital, e, depois de comunicarem bastante através da rede digital, decidiram mudar-se todos para o mesmo espaço, dedicando-se de corpo inteiro a uma causa: a arte. Tyler The Creator, Louis Armstrong, Lil Wayne, Nirvana, Will Smith, Frank Ocean, Childish Gambino, Kid Cudi e Kanye West são linhas-mestras na arquitectura moral e sónica da banda liderada por Abstract, o mais mediático dos membros.

“Ao crescer como um miúdo negro e uma pessoa criativa, eu sentia-me como se não pudesse existir. Foi por essa razão que meti a minha música online. Eu podia ser o que quisesse online”. As palavras são de Kevin Abstract, “o rapaz do capacete” e herói suburbano, à Outline. A desconstrução da sensibilidade no sexo masculino e a homossexualidade assumiram-se, recentemente, como assuntos recorrentes na cultura popular: Moonlight, filme vencedor de Óscar – e Dear White People – nova série na Netflix – abordam directamente esses temas, tabus gigantes até há bem pouco tempo. Frank Ocean, a super-estrela pop que carrega a bandeira da bissexualidade desde Channel Orange, é um nome importantíssimo para esta nova geração de criadores que não vê entrave nas suas opções e percebe que a diferença é uma qualidade e não um defeito.

 



Em entrevista ao The Guardian, Ian Simpson contava que queria ser colocado ao lado de nomes como Lorde, Justin Bieber e One Direction. Estranho? Só para quem não ouviu os refrões megalómanos que foram escritos e interpretados pelo próprio em American Boyfriend: A Suburban Love Story, um disco editado em 2016 que pega nos ensinamentos de Ocean – inevitável não chamá-lo para a mesa – e dá-lhe aquela toada indie que esperaríamos ouvir noutro tipo de projectos – mas, claro, vivemos num tempo em que uma coisa já não é só uma coisa e o preto e branco são duas cores entre tantas. Se não acreditam, ouçam “Empty”, um malhão açucarado com refrão meio cheesy que merece ser hino de uma revolução, seja ela qual for.

Mas, afinal de contas, a que soa um trabalho completo do grupo? All-American Trash foi o primeiro conjunto de canções editado em Março do ano passado e, como seria de esperar, é uma obra diversificada: “Ben Carson” poderia ter sido produzida por Timbaland ou Pharrell, “Contacts” é balada amorosa com voz e guitarra e “Flip Mo” é um banger moderno que mete os vossos rappers favoritos em sentido. Num universo tão expansivo, existem versos que envolvem sempre um certo teor cómico e a procura de respostas sobre o amor, o futuro e a solidão ou seja, temas recorrentes no imaginário de qualquer adolescente isolado no seu quarto. Quando falamos no rap como o novo rock’n’roll, temos a impressão que eram os Brockhampton que procurávamos, na realidade.

 



Em 2017, o colectivo está a preparar uma nova mixtape e “Face”, o primeiro avanço, tem, literalmente, todos os elementos enumerados até agora: Dom McLennon, Matt ChampionAmeer Vann são os protagonistas a colocarem três versos habilmente manuseados e separados pelo refrão de Joba – sim, já existem realizadores de filmes indie a escreverem guiões de propósito por causa desta canção. O trabalho é todo feito em “casa” e Abstract é o responsável pela realização do vídeo.

Saturation, a segunda mixtape, sai no próximo mês e promete consolidar o estatuto de Brockhampton como o grupo mais entusiasmante a surgir desde os Odd Future. Alternativos no som, vanguardistas na mensagem: a voz que precisam de ouvir está aqui.