Britain’s Got Lyricists

[TEXTO] Samuel Pinho [FOTO] Direitos Reservados

A crescente globalização, e consequente viralização dos meios de difusão digitais, veio conferir oportunidades únicas aos músicos de todo o mundo: a hipótese de se darem a conhecer a uma escala sem precedentes. Fruto disso mesmo, generalizaram-se a manufactura de hits comerciais, hoje acessíveis a praticamente qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, com mínima qualidade de ligação à Internet, poucos segundos após a sua publicação/divulgação. Porém, e se este fenómeno beneficia ambas as variáveis da equação (autores e ouvintes), há hoje um maior grau de escrutínio aos produtos desses mesmos artistas. E, numa era em que o viral é lugar-comum, sobreviver ao consumo desenfreado e emergir da espuma da Internet ao final do dia são os principais desafios a que se prestam os agentes musicais.

Se em poucos minutos é nos possível perceber quem produz, quem mistura, quem interpreta ou quem escreve determinada música, é de relativa facilidade reconhecer um beatmaker de excelência ou um liricista de fina água. E o Reino Unido tem sido palco de alguns destes fenómenos, como o surgimento e cimentação do grime, até ao surgimento de jovens MCs empenhados em cunhar a sua marca pessoal no mundo das rimas.

A súbita atenção dada à cena britânica, mais concretamente ao rap que se vai produzindo por Londres, tem sido capitalizada por uns e desperdiçada por outros, embora hoje nos centremos em quem melhor soube usar do tempo de antena disponível.

Nos últimos tempos, o número de ouvintes com playlists encabeçadas por Stormzy ou Skepta tem aumentado consideravelmente, muito por culpa da atribuição do BRIT Award: Melhor Revelação e do Mercury Prize, respectivamente, elevando o grime – onde reinam as basslines pesadas e os beats a rondar os 140bpm – a um estatuto musical nunca experimentado pelo género.

Aqui chegados, urge que olhemos para Little Simz e Loyle Carner. Dois soldados rasos num pelotão em expansivo crescimento, povoado por elementos de inegável talento. Porém, há neste duo, aparentemente antagónico, um denominador comum: uma emotividade pouco comum na altura de escrever e uma sensibilidade rítmica na hora de dar corpo e estrutura aos versos.

 



Inverto as boas práticas para primeiro abordar o rapper oriundo do sul de Londres (Croydon), já inúmeras vezes abordado – e bem – em artigos desta casa. Fruto de uma situação familiar atípica, Ben-Coyle Larner passa a maioria da infância ao cuidado dos avós: mal conhecia o pai biológico e a mãe trabalhava turnos redobrados em prol do sustento dos seus. Com isto, cresce bastante próximo do padrasto – um músico, fã do mítico futebolista Cantona – e faz dele a figura paternal em falta no seu imaginário.

Ainda na infância, são-lhe diagnosticadas dislexia e Transtorno de Défice de Atenção e Hiperatividade: é do primeiro diagnóstico que surge, mais tarde, a sugestão da mãe para o stage name por que hoje é conhecido. Loyle Carner é a aceitação e o resultado natural da dislexia aquando da pronúncia de Ben-Coyle Larner; bom jogo de palavras, não?

 



Não me cabe a mim afirmar que o jovem londrino só é rapper por um infeliz acaso. Porém, é facto que o seu primeiro EP A Little Late vê a luz do dia em Setembro de 2014, volvidos 7 meses da morte do padrasto. A temática é diversa, o estilo brutal. A primeira faixa – BFG – dá o mote para uma viagem sinuosa entre tópicos como família, crescimento, vida ou morte.

“These days never run from rain
Pattern past pain see the sun will stain
Abundant blame, strange, never done the same way
Til it’s too late to pray for the one again
Run away, run away, run away, run away…
(…)
Everybody says I’m fucking sad
Of course I’m fucking sad, I miss my fucking dad
Of course I’m fucking sad, I miss my fucking dad”

Se a habilidade lírica não é estranha, ainda que pouco comum, a crueza conferida a alguns versos é de desarmar o ouvinte. A música em causa explana a perda do “pai”, a tristeza que lhe está inerente. E o impacto é brutal: pelo menos para quem ouve e se identifica. Se não quisermos ler entrevistas do próprio autor, desça-se até à zona de comentários do próprio vídeo no Youtube.

This song means so much to me you have no idea” é o que mais salta à vista, mostrando que o que Loyle faz é uma quase-terapia: a abordagem de dores que, só não lhe são únicas somente a ele como são partilhadas por outros, que por não as saberem expressar, tanto se sentem nos seus versos.

A ostentação orgulhosa do acento proeminente – nativo de Croydon – foi uma decisão em muito apoiada pelos identidade e dialeto londrinos presentes no grime, algo que segundo o próprio, o inspirou a ser o mais genuíno possível.

Daí adiante, tem trilhado um caminho constante, pontuado por detalhes de valor acrescentado. Por exemplo, é ele quem dirige parte dos vídeos das suas faixas, surgindo mesmo como personagem em muitos deles. Controlador, é minucioso ao ponto de decidir cada frame.

No vídeo do seu single de estreia, “Tierney Terrace”, surgem-nos em tela a sua pequena casa, a sua mãe e o irmão, 6 anos mais novo. Presença que se repete nos versos.

“Uh, I keep my ear to the door holding my brother close
He knows I love him most
My heart beating I can feel it from his fucking pulse
Seeing my mother rose, froze, love of something slows
Woes, decompose, muddy clothes and a runny nose
Flows, we’re shivering, she mistakes it for giggling
Mother quivering hopping out the ceiling she’s sitting in
(…)
And now you’re leaving
Deep in the evening that we were sleeping through
So what are we to do but move with the setting sun
Uh, you know I love you like a second mum
Love you for better from, now ’til whenever
Want the family together I promise you ‘Imma get it done
Trust, ‘cos all I wanted was a fucking man
To tell the fucking truth, hold my fucking hand
Uh, to guide me through the darkness
when the others ran
Instead he was sliding and slipping I didn’t understand
I didn’t understand-stand, didn’t understand
Uh, now every time that motherfucker ran
I didn’t understand-stand, didn’t understand”

Se nos versos se adivinha o luto, é visível e recorrente a pressão que sobre ele recai: a de manter um lar unido após a partida da figura paternal. E, sendo essa a principal fraqueza de Loyle Carner, é igualmente a sua força motriz e fonte de inspiração: não o torna só num “confessional rapper” (como já o rotularam). Há espiritualidade aqui. Há um traço vincado de storytelling, um compromisso em relatar cada história da forma mais fiel possível, com o próprio a admitir que – por vezes – se questiona se o conteúdo não peca por pesado demais, com sentimentalismo exagerado, para logo depois afirmar que “nunca julguei que algo fosse exagerado ao ponto de o retirar de uma faixa”.

Quão desafiante será o processo de maturar por entre o luto, como rapper e adulto em simultâneo, à boleia de uma família necessitada de uma figura paternal masculina? Independentemente do percurso, o resultado é um belíssimo leque de músicas que, já sendo poemas com emoção no coração das rimas, podiam certamente ser capítulos de um qualquer romance.

 



Little Simz é bitola diferente: apesar de ambos fazerem da autenticidade bandeira, a MC do Norte de Londres com raízes nigerianas já possui outro estatuto, mesmo à escala internacional. Já tendo sido endossada por “mestres” como Kendrick Lamar ou J. Cole, mantém-se fiel à sua própria forma de música. E isso, por entender que as labels condicionam em demasia, passa pela independência total e sem reservas, face ao mercado das editoras musicais.

É mais fácil tomar decisões deste calibre quando somos uma MC londrina, caída no goto de lendas como K. Dot, a quem a Red Bull Academy se propôs a ceder estúdio e meios para gravação e distribuição de um álbum, sem condições e sem custos? É, pese embora o facto dela o fazer desde sempre.

Desde a primeira performance aos 11 anos, na Islington Academy, a mesma instituição que albergou talentos como Leona Lewis ou Alexandra Burke. Desde que adoptou Lauryn Hill como influência primeira, desde que preteriu o braggadocio como forma de fazer rap em prol de versos auto-reflexivos, onde “fala de coisas que a afectam”. Nas próprias palavras:

“talking about money and bitches: what is that? It’s mainly just lies”

Só pelo menu de princípios, é fácil entender porquê que esta MC de (apenas!) 22 anos está a tomar de assalto o cenário do rap. Embora a técnica de que é dona e senhora paute por estonteante.

 



Capaz de capitanear uma viagem estimulante por laivos de grime, com rimas a velocidade sónica e electrónica embrulhada (como em “Dead Body”), até aterrar num slow descomplexado, digno de casas de fado coimbrãs (que doçura em “Poison Ivy”), é esta a ambivalência da jovem que se assume como o futuro do Reino Unido neste campo de batalha.

Quando a autenticidade lírica é elevada a forma principal de criar rap, a grande contrariedade passa pela percepção de que ter nos versos a maior valência ainda não chega a todo o tipo de públicos, mas esperemos que, tanto Loyle Carner como Little Simz, um dia ocupem o lugar que lhes é devido.

 


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