Boss AC no Cineteatro D. João V: Uns chegam e outros vão, mas ele não  

[TEXTO] João Marques [FOTOS] Beatriz Santos

O palco deixava adivinhar o formato íntimo do concerto. Duas cadeiras no centro e os instrumentos dispersos num plano secundário, ocupando o espaço à largura do palco — AC e TC teriam as atenções. Passavam 15 minutos da hora marcada no bilhete quando a banda de sempre de Boss AC pisou o palco. O rapper entrou poucos minutos depois, sentou-se na cadeira vazia e a música que entretanto rolava parou para que o público começasse quase instantaneamente a perguntar em voz alta, ‘então?!’. Fitou a plateia de uma ponta à outra, contou até 20 para dentro, respirou fundo e largou a primeira rima de “O Verdadeiro”. Começava assim o concerto de apresentação do novo álbum, A Vida Continua…, com a quarta das cinco faixas de Patrão, o EP lançado mais cedo este ano. “Uma espécie de aperitivo do que seria este álbum”, nas suas palavras.

Não era surpresa para ninguém que tivesse lido a descrição do concerto na plataforma de compra dos bilhetes, ou mesmo nos eventos publicados nas várias redes sociais. Seria a todo o custo um misto de conversa e performance com temas novos e antigos, “perguntaram-me se isto é suposto ser uma apresentação do novo álbum. A resposta é: sim e não”, assegurou à plateia.

Nem de propósito, sem que os músicos largassem as notas que seguravam nas cordas e teclado, AC invocou uma antiga ao cantar ‘Suddenly across my heart, I want you to be my baby’, o sample que pediu emprestado a Terrence Trent D’Arby para o seu “Anda cá ao papá”. E aqui sim, a primeira de muitas interacções com o público que definiriam o registo especial deste concerto.

Na setlist seguiu-se mais uma que não pertence ao novo álbum, “é uma música que não tocou na rádio porque me disseram que era muito agressiva. A música é tudo menos agressiva… tattoos e facas tudo bem, mas fraldas”? Estava obviamente a falar de “Queque Foi”, que ao vivo, sobretudo pela bateria, ganhou uma força impressionante.

 



Mas o mote do concerto era mesmo o do lançamento de um novo álbum. “Dá-me atenção” foi o primeiro tema do disco a ser tocado, mas com uma pequena alteração: Ella Nor não pôde comparecer deixando a TC o trabalho de entoar o refrão da música duas vezes, tudo para que, mesmo desfalcada, a canção pudesse ser apresentada. Uma versão curtíssima que valeu pela intenção e pela mensagem que o rapper fez questão de deixar aos mais novos; “Está tudo excessivamente documentado pelas redes sociais”, disse no meio de histórias que ficam com quem lá esteve.

Seguir-se-ia a primeira (e única) entrada de convidados, mas não sem antes visitar o mítico tema “Que Deus” (que sampla uma música dos Madredeus) e “Lena”, que pôs toda a gente de braços no ar. Isto porque de seguida ouviu-se “Catchupa Sab” com os próprios Supa Squad em palco. Boss AC e os primos espalharam a alegria com um tema de vibe reggae e letra ligeira depois de várias músicas com um conteúdo mais pesado. Uma escolha no alinhamento que não passou despercebida e resultou muito bem. O público cantava agora, e houve mesmo quem se levantasse na plateia para dançar ao som de uma versão “mais africanizada” do tema, improvisada no momento pelo baterista que marcava ritmos de kizomba nos tambores.

E assim, sem que se desse pelo tempo passar, estava o concerto a meio. “Tástabater”, de AC Para Os Amigos foi explicada e tocada com uma guitarra eléctrica que sobressaiu pela primeira vez no concerto, mostrando a pluralidade de sons que compõem a obra de Boss AC. Do boom bap clássico, a ritmos mais funky, a reggae e “kizombadas”, e agora também rock. Palmas para o “boa onda, barbudo e trafulha” Pedro Carvalho na guitarra.

 



Mas “A Vida (Ela Continua)”, uma canção emocional dedicada ao falecido amigo e colaborador, DJ Bernas que tem até direito a uma homenagem neste novo álbum. O público aplaudiu ao início reconhecendo a perda. “Bernas”, a penúltima faixa do novo LP, acabou por ficar de fora.

Como a vida, o concerto prosseguiu com “o maior sucesso do álbum” AC Para Os Amigos. “Sexta-Feira (Emprego Bom Já)” foi alvo de performance, histórias e piadas que viriam a ser repetidas concerto fora. Aparentemente foi mesmo Boss Ac quem gravou o mítico “Yeah!” de um dos refrões mais conhecidos do artista, e não TC como é de entendimento público. “Uma carreira definida por um “Yeah!” que não fui eu que cantei”, partilhou com a “nova família” entre gargalhadas de uns e outros.

O espectáculo prolongou-se. Tocaram-se êxitos novos e clássicos: “As Coisas São Como São”, “A carta que eu nunca te escrevi”, “Princesa (Beija-me outra vez)”, e a pedido de muitas crianças (literalmente) – “Baza, baza (Hoje não quero saber)”.

Uma actuação que deu para tudo, até para uma segunda volta de “Cachupa Sab”. Crianças aos saltos no palco, conversas com o público, solos de guitarra e breaks de bateria, cantorias de parabéns, refrões melosos e sobretudo muito hip hop.

 


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