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Boss AC: “A língua está em constante mutação, e nós também”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Pertence à chamada geração Rapública, a guarda avançada do hip hop nacional que em 1994 lançou a primeira pedra de um edifício que ainda continua a crescer. Estreou-se em nome próprio com Mandachuva em 1998 e desde então já dilatou a discografia pessoal com mais quatro álbuns, assinando verdadeiros hinos como “Baza, Baza” ou “Hip Hop (Sou Eu e és Tu)”, temas que se instalaram confortavelmente nos ouvidos e nas bocas de todo um país. Boss AC continua a ser um dos mais respeitados MCs nacionais e sabe como poucos usar a palavra.

 



Lembras-te da primeira vez que pegaste num caderno para escrever já com uma intencionalidade artística?

Diria que as minhas primeiras rimas com teor artístico foram escritas em inglês em finais dos anos 1980. Mais não eram do que cópias daquilo que já tinha começado a ouvir do hip hop americano. Paralelamente a isso, comecei a escrever umas rimas em português, mas tinha bastante pudor em usar, não me soavam bem. Ao contrário do que as pessoas julgam, eu nunca fui da Margem Sul e naquela altura já havia ali um pólo hip hop. Mas eu não tinha qualquer referência, nunca tinha ouvido um rap português ou brasileiro, só vim a conhecer esses artistas mais tarde. Então aquilo não me parecia bem e fui deixando as coisas na gaveta. Até que um dia, quando o amor pelo hip hop foi crescendo e o fui incutindo aos amigos, começámos a fazer algumas festas de escola e discotecas, onde eu até dançava breakdance, e quando as pessoas estavam dispostas a ouvir-me, é que pensei que seria engraçado começar a escrever em português. Foi assim o início da minha escrita enquanto letrista. Curiosamente, uns anos mais tarde, um amigo meu relembrou-me que na escola primária eu fazia as minhas redacções em versos. É uma coisa que nunca me tinha lembrado e que agora penso que talvez tenha sido uma premonição.

O que sentes hoje ao olhar para o Rapública?

Nunca fui muito de efemérides. O Rapública foi gravado em 1993 e saiu em 94, portanto, em 2014 podia-se ter celebrado os seus 20 anos. Na verdade, até fiz umas diligências, mas a malta dispersou-se e acabei por desistir. O “Mandachuva” foi gravado entre 96 e 97 e só saiu em 98 e também está a fazer 20 anos, mas eu como já disse não sou muito dado a efemérides. Quando começamos a comemorar muitas dessas datas e a fazer Best Of’s parece que já não temos mais nada para dar, esquecemo-nos do presente, e eu quero continuar relevante.

O Rapública foi o Big Bang de um novo Portugal?

Sem dúvida. É um marco incontornável. Atrevo-me a dizer que não só no hip hop português, como também na música portuguesa. Veio trazer algo que, embora já existisse nas periferias sem nunca ter sido gravado, contrasta com tudo o resto. É sem dúvida um marco.

És dos primeiros músicos hip hop em Portugal e dos que mais intensamente explorou diálogos com músicos de outras áreas. Nas conversas com esses músicos fora desta cultura, que equívocos foste encontrando? Que ideias erradas é que quem não era de dentro do hip hop tinha sobre o género e procurava esclarecer contigo?

A primeira de todas, e que infelizmente acredito que ainda existe, é que há muita gente, até entre os meus pares do mainstream, que ainda olha para o hip hop com muita desconfiança, como se não fosse música propriamente dita. Porque usa samples, porque muitas vezes não é tocada com instrumentos, porque não é cantada e sim rimada… Já houve mais, mas ainda há um grande desconhecimento. Há uma história que costumo contar: eu fazia as primeiras partes dos concertos dos Black Company, que tiveram o primeiro grande sucesso do hip hop nacional com o “Não Sabe Nadar”. Tivemos oportunidade de correr Portugal de lés-a-lés e, naquela altura, tínhamos quase que fazer um workshop a explicar às pessoas o que se ia passar, porque não percebiam se estávamos a cantar ou se era gravado ou até se estava a acontecer. É óbvio que hoje em dia isso está longe de ser a norma, não haverá hoje música mais mainstream que o hip hop. Não falo só de Portugal, isto é um fenómeno global. Nos duzentos e tal países do mundo haverá sempre alguém que é rapper.

 



É a mais local e ao mesmo tempo a mais global das culturas. Abraça a sua própria cultura porque se és cigano andaluz, samplas flamenco; és árabe, samplas rai; és nórdico, samplas folk local. O hip hop é uma cultura imediatamente reconhecível, mas não há dois países a fazerem hip hop igual.

É verdade, exactamente. É local porque o hip hop tem aquela coisa de se representar – “represent”; e é global porque está em todo o lado. O Preto no Branco, álbum que lancei em 2009, foi masterizado aos Estado Unidos no estúdio do Herb Powers, que é uma grande figura do género e que já trabalhou com imensos artistas hip hop. Ele fez-me dois elogios que guardo com imenso carinho: diz que foi o álbum mais musical que masterizou naquele ano; e que a música que mais o intrigou foi a “Alguém Me Ouviu”, que fiz com a Mariza, porque ele não conseguia encontrar paralelo com nada que tivesse escutado. Isso para mim é o maior dos elogios. O tema tem qualquer coisa de fado e os próprios arranjos soam a Massive Attack / Carlos do Carmo e ele não conseguia perceber aquilo. Eu explicava-lhe que era hip hop em fusão com uma música tradicional portuguesa e uma visão muito própria. É engraçado porque lembro-me, quando fiz o convite à Mariza, das interrogações, como é que aquilo ia funcionar, mas o resultado foi o que se viu e ouviu. É um caminho natural, os artistas de hip hop nacional irem buscar cada vez mais coisas à música portuguesa. Adoro os James Brown da vida, os Sly and The Family Stone, os Kool & The Gang, mas samplar isso é não trazer nada de novo. Se vou buscar um Sérgio Godinho, um Vitorino, um Carlos do Carmo, então é algo nosso e diferente.

Há um documentário do Ice-T, Something From Nothing, em que a dada altura aparece o Rakim a explicar que tem uma abordagem quase matemática à escrita de rimas. Ao longo dos anos, como é que dirias que a tua abordagem ao papel em branco se transformou?

Não diria que tenho uma fórmula. Eu até falo disto numa música minha: “Cada vez escrevo menos / mas acho que escrevo melhor”. Eu escrevia imenso, tinha cadernos e cadernos de rimas, algo que hoje em dia já não acontece. Se for preciso passo meses sem conseguir escrever nada. Penso que hoje sou mais científico, no sentido em que defino na minha cabeça o que quero dizer e escrever baseado num conceito. Ou seja, antes de escrever a letra, já tenho um esboço mental do que quero dizer. Gosto sempre de ter alguma coisa para dizer e sinto que muito do hip hop actual não diz nada. São palavras, as coisas rimam, soam bem, o beat está fixe, mas não diz nada. É uma coisa que tentei, penso que com algum sucesso, contrariar ao longo destes tempos. Mesmo uma música que seja egotrip tem sempre um conceito, há sempre alguma coisa que quero dizer. Essa é a minha arma.

Quando estás a trabalhar num álbum novo, o primeiro passo é pensar num mapa mental de conceitos que queres abordar?

De certa forma, sim, embora individualize, penso mais no que quero dizer numa música do que num álbum. Ainda sou bastante saudosista no que toca a álbuns. O conceito, admito, faz cada vez menos sentido, a música é tão efémera e sai em tanta quantidade e é consumida tão depressa que o conceito de álbum está a desaparecer. Mas ainda gosto de pensar nisso, gosto de pensar que cada álbum é uma foto de determinado momento da minha vida, todas as músicas reflectem o que estou a viver em dado momento. Gosto de pensar nos álbuns com encadeamento – esta música depois daquela, aqui faço um interlúdio, conto uma história. Que faça sentido no todo. Mas assim que aquilo vai para o shuffle, acabou-se. Das 12 músicas, as pessoas escolhem duas, metem-nas no meio de uma playlist com outros tantos artistas e o conceito dissipa-se. Não sei se é bom ou mau, é diferente e eu tenho de acompanhar. Estou num processo de introspecção e de perceber como me quero posicionar e manter relevante. Apesar de vir da old school, não quero estar com a bandeira de que já cá estava porque fiz isto e aquilo. Isso pouco importa, não me vou manter relevante com o que já fiz, e sim com o que tenho para fazer agora. Tenho uma ideia, um conceito, para o meu próximo álbum que deverá andar em torno de um revival. Tenho escutado coisas mais boom bap, tenho posto em segundo plano a banda, desta vez quero voltar às máquinas, ao processo mais solitário. Voltar aos sons que ouvia nos anos 90, mas dando sempre um toque de 2016. Não quero datar a música nem estar preso à old school. É o meu estado de espírito neste momento.

Quando abordas a escrita de um novo tema, acreditas que o que estás agora a escrever, agora de pés bem fincados em 2016, tem um recurso linguístico maior do que o que escrevias há 10 ou 20 anos? Tens um léxico mais vasto?

Gosto de acreditar que sim, senão vou dizer que parei no tempo. A língua está em constante mutação, e nós também. O rap usa a linguagem de rua e o calão de hoje não é o calão de amanhã. Muitas vezes oiço na rua ou nos cafés palavras que nunca tinha ouvido e aponto no telemóvel. Hoje, com as novas tecnologias, estão sempre a aparecer palavras novas, há sempre coisas novas a acontecer. Uma das coisas que o hip hop nunca teve pudor foi inventar o seu próprio léxico, usar palavras inglesas e francesas e transformá-las em português.

Como é que escreves: caderno ou telemóvel?

Sou adepto das novas tecnologias, têm-me dado muito jeito. Muitas vezes tenho ideias e gravo pequenos snippets de voz ou escrevo nas notas e vou tendo pequenos fragmentos que muitas vezes acabam em músicas. Ainda há uns meses estive em estúdio até às três da manhã e fui para casa frustrado porque não estava a sair nada. Não me perguntes como, mas assim que entrei no carro surgiu-me uma ideia e comecei a cantarolar. Parei na bomba de gasolina e escrevi uma letra inteira no telemóvel, algo que nunca tinha feito. Cada vez escrevo mais no computador. Há pouco tempo voltei a escrever com caneta, deu-me saudades do risca-e-volta-atrás, mas é muito mais prático escrever no computador.

Isso mudou a tua escrita? A própria ferramenta da escrita altera o que se escreve?

Creio que sim. Não te sei explicar porquê, a própria ferramenta altera o discurso. Talvez pela facilidade de apagar e do copy-paste eu tenha mais possibilidades à mão, eu sinto diferença em relação ao tempo em que escrevia rimas inteiras em papel.

Costumo dizer que o hip hop ajudou a colocar um presidente negro na Casa Branca. Às vezes também ouvimos pessoas na Assembleia da República a usar uma linguagem que nos é familiar no hip hop. Quando vais tocar a uma terrinha em Portugal, longe do litoral, e és o único africano no sítio onde estás a tocar, sentes que hoje há uma atitude diferente e que o hip hop contribuiu para essas mudanças?

Não há a mínima dúvida. Temos histórias do início dos anos 1990 que são absolutamente hilariantes. Posso garantir-te que, quando andámos na estrada por Portugal em meados dos naos 90, fomos os primeiros negros a pisar o palco em diversos pontos do país. Hoje em dia isso já não acontece, porque as pessoas também têm a internet e a televisão. Por exemplo, eu já tinha previsto este fenómeno actual da kizomba, mas nunca imaginei que fosse com a dimensão que observamos. De certa forma, era inevitável. Por mais que se pense diferente, Portugal é multicultural.

 



O que sentes hoje em dia ao escutares miúdos brancos a rimar em crioulo?

Há imensos, eu moro na Amadora e vejo imensas vezes miúdos brancos a falarem entre si em crioulo como se nunca tivessem tirado os pés de Cabo Verde. E nunca lá tiveram. É dos amigos com que se dão, aquilo assume uma espécie de subcultura, os miúdos depois falam crioulo porque os professores e outros alunos não percebem e torna-se hip, cool. Isso ajuda a transformar a língua. Hoje em dia, muitos dos vocábulos que usamos no calão vieram do calão angolano – bué, cota, e muitas outras coisas. Esta história do kizomba tem muitos pontos em comum com o hip hop. Já não é a música dos pretos, é música nossa. Digo isto no sentido de lhe chamarem música do gueto, confinada a um determinado grupo. Hoje em dia a kizomba é mainstream, mas não sei se será cíclico, chegou a um ponto em que atingiu quase uma overdose. Mas isto vem reflectir o que é a sociedade portuguesa contemporânea, a força da comunidade africana é cada vez mais evidente, porque estamos a falar de várias gerações que estão perfeitamente enraizadas e que trazem as suas raízes para cá de forma inconsciente, seja pelo modo como falam ou pela música que fazem. Portugal era um melting pot, algum dia tinha de acontecer.

Imagino que tenhas sido convidado a visitar escolas e a falar desta cultura. Que experiências curiosas tiveste nessas tuas visitas?

Para quem está fora do hip hop, o egotrip – aquela conversa muito narcisista – é uma personagem criada que as pessoas às vezes têm de separar, embora às vezes seja difícil perceberem isso. Tenho uma rima no primeiro álbum em que digo: “Os teus filhos hão-de estudar Boss AC em história”. E não é que estudam mesmo? Hoje em dia tenho textos meus em livros de filosofia, português, religião e moral e isso enche-me de um grande orgulho e mostra que felizmente não andei a perder tempo. Tudo o que andei a fazer serviu para alguma coisa. Também vem, de certo modo, quebrar um paradigma, é muito mais interessante para uma criança estar a analisar uma letra de um artista de que gosta do que estar a ler textos de autores do século XVIII. Não estou a comparar-me nem a retirar mérito, estou apenas a mencionar uma forma mais fácil de chegar aos miúdos e de os cativar. Hoje em dia sinto que os jovens que querem ser músicos em Portugal querem ser rappers.

Quem é que colocas num pedestal no que à relação das palavras com a música em português diz respeito?

Tenho uma grande admiração pelo Sérgio Godinho, pelo Chico Buarque, por toda aquela malta da bossa nova, que escrevia aqueles belíssimos textos. Tenho sempre coisas a aprender. Infelizmente já não leio com a frequência que devia, mas gosto de pegar em Mia Couto, Pepetela e escritores semelhantes. No que toca a música, também gosto do Gabriel O Pensador, do Carlão. Há contemporâneos meus a escrever muito bem.

Recentemente tiveste uma aproximação à cultura africana, cantaste músicas cabo-verdianas. É um projecto para desenvolver?

Sabes o que acontece? Vamos ficando mais velhos e levamo-nos cada vez menos a sério. Tenho uma série de projectos que fui adiando por receio ou por achar que não estava preparado. Agora, tenho cada vez menos pudor em relação a isso. Isto não se tratou de um projecto, foi uma ideia que tinha há anos. Eu já era cabo-verdiano antes de ser rapper e cresci no meio desses músicos e dessa música. Dizem que a maçã nunca cai muito longe da árvore, e é verdade: quase que me sinto atraído de forma natural para a música cabo-verdiana. Uma das primeiras coisas que me levou a esta ideia foi um convite, que me deixou boquiaberto, para fazer uma homenagem aos Tubarões. Isto aconteceu em Janeiro de 2009 no Coliseu dos Recreios em que os vocalistas eram eu, o Miguel Ângelo, o Miguel Gameiro e a Sandra Horta. Os Tubarões tinham como vocalista o Ildo Lobo, que entretanto faleceu, e depois recebi um convite da parte dos próprios Tubarões para reavivar a banda tendo-me a mim como vocalista. Fiquei super lisonjeado, agradeci, mas não me senti ao nível de calçar os sapatos do Ildo Lobo. Não há comparação sequer possível. Mas fez com que o bichinho ficasse. Acabei por cantar uns funanás e coladeras e adorei a experiência. Em 2014, juntei uma malta conhecida, fizemos uns ensaios, e posso garantir-te que foi dos concertos com que mais me diverti na vida. Fiz questão de não promover exaustivamente, não queria ter a pressão de fazer aquilo como Boss AC. Queria fazer algo para curtir, tanto mais que se chamava Coladeras Para Dançar. Eu não queria que olhassem para o palco, queria mesmo um baile. O feedback não podia ter sido melhor, até fui convidado a ir a festivais em Cabo Verde com essa ideia. Acabei por não ir, nem fiz mais concertos, não queria que se tornasse numa obrigação, mas foi uma experiência maravilhosa que quero repetir. Tenho o áudio gravado e misturado e ando a pensar se o disponibilizo ou não. Parece-me que sim, que vai acontecer.

Lembras-te de um poema, escrito ou cantado, que te acompanhe na tua vida?

Sem querer ser narcisista, as minhas letras dizem-me muito. Há uns poemas do Livro do Desassossego de que gosto bastante. Mas não vou nomear nenhum outro porque não me recordo. Então, não me considerando o escritor mais importante da minha vida, escolho o “Mais Que Amor”, a última letra que escrevi e que é para a minha filha.

 


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