Boom-Boom-Bap: a grande invenção de Clyde Stubblefield

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos reservados

 

A bateria é o mais político de todos os instrumentos. Em primeiro lugar, porque retém uma ancestralidade que mais nenhum instrumento possui, afirmando-se, por isso mesmo, como uma marca de identidade. Porque, enfim, fala a única linguagem realmente universal: os padrões rítmicos repetitivos, mais do que os melódicos, têm a idade do Homem. Antes das primeiras palavras terem ganho forma, foi no acto primitivo de chocar pedra com pedra, madeira com pedra, madeira com madeira, ou madeira com pele que vibraram os primeiros sentidos profundos de uma linguagem sónica que ainda hoje perdura. Não deixa por isso de ser significativo que, impresso bem fundo no código genérico da nova realidade digital, esteja o pulsar dos tambores, que de África para o Novo Mundo se alargou, por via das modernas tipologias musicais, a um Velho Mundo que não entendeu os tambores quando foi colonizador, mas que a eles se rendeu quando foi cultural e musicalmente colonizado.

O que há afinal num break de bateria? O que se houve no “boom-bap” de um break suado que quando repetido num loop nos transporta para uma outra dimensão? História, poderíamos dizer. Ancestralidade. O som primevo das margens do Nilo… num disco de DJ Shadow. Perante esta perspectiva, o sampler funciona como uma espécie de entrada para uma dimensão alternativa, um portal cósmico. Um artefacto mágico que, quando bem usado, retém a identidade do som de bateria original, ainda que, ao mesmo tempo, permita a transfiguração desse padrão primeiro até ao infinito. O B-BOOM-BOOM-BAP/B-B-BOOM-BAP de “Zig” Modeliste (o baterista do mais zen de todos os grupos funk, os Meters) pode ser reconfigurado num B-B-BAP-BOOM-BOOM/BOOM-B-B-B-BAP, quando se transformam os sons acústicos em bem disciplinados zeros e uns dentro do sampler, e se cortam, como se tivéssemos à mão uma tesoura, os sons individuais do kit de bateria, para se reconstituir um novo mapa de pulsões, a partir de coordenadas antigas.

 


james-brown-funky-drummer


Provavelmente, o mais emblemático de todos os breaks de bateria foi assinado por Clyde Stubblefield, quando, enquanto parte da secção rítmica de James Brown, assinou momentos históricos em temas como “Cold Sweat” ou, principalmente, “Funky Drummer”. Concentrando-se no bombo, na tarola e no hi-hat, Clyde responde ao apelo de James Brown (“let’s give the drummer some…”) e, num longuíssimo break (que não é um solo…), inventa a música moderna, soando como se de um metrónomo humano se tratasse. O sofisticadíssimo desenho rítmico na tarola e a segurança do seu trabalho de pés no bombo e no hi-hat pode ser encontrado em centenas de discos de hip hop ou, acelerado, como parte da revolução drum n’ bass.

 



“Funky Drummer” é um disco de 1970. À época, James Brown usava os seus concertos ao vivo como o combustível da sua inspiração. Talvez para poupar dinheiro nas incontáveis horas de estúdio que uma banda pode queimar até estar “no ponto” para gravar, o Padrinho da Soul costumava terminar um espectáculo e levar imediatamente a sua banda para as imediações do gravador mais próximo. Nesses dias, a América profunda atravessava uma revolução da consciência. O Civil Rights Movement e as vozes aparentemente opostas de gente como Martin Luther King ou Malcolm X ainda ecoavam nas paredes das grandes cidades. James Brown era um músico no centro do turbilhão. Uma verdadeira estrela com uma visibilidade que interessava a todos os campos desse conturbado mapa político. Na segurança extrema dos seus músicos, o homem de Sex Machine reflectia a sua própria disciplina: uma disciplina de auto-afirmação, a única via que, segundo a sua opinião, poderia conduzir à elevação do Homem Negro.
E Stubblefield, naqueles segundos preciosos de “Funky Drummer”, quando toda a banda se remete ao silêncio e as peles tensas da sua bateria fazem vibrar o ar no estúdio, envia a todo o mundo uma mensagem: “Nós estamos aqui há muito tempo. Já construímos grandes civilizações. Durante 500 anos fomos oprimidos, violentados… Mas agora chegou, de novo, a nossa hora. Chega!” E na precisão sincopada daquele break lê-se a História de uma diáspora forçada, das terras quentes de um grande continente negro onde o tambor sempre transportou ideias até às margens de um Mundo Novo que durante séculos não soube reconhecer dignidade num povo. Um povo que nunca abandonou os seus tambores e que os usou ainda nas plantações para codificar ideias e reforçar laços de identidade. Que essas ideias sejam, décadas mais tarde, filtradas pelo processador de um sampler nas mãos de um jovem negro ou branco, na América ou na Europa, só vem reivindicar, de novo, a universalidade dessa vibração primordial. “A bateria,” dizia a canção, “é o instrumento mais importante.”*

* “The drums… the drums… the drums are the most important
instrument…”

 


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(Texto publicado originalmente na revista OP. em 2002.)

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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