Bonfim: “Aquilo que nos inspira soa hoje tão bem como quando foi gravado, e é isso que queremos conseguir”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Renato Cruz Santos

Juntos, Hugo Passos e Pedro Tenreiro são Bonfim, dupla que desvendou recentemente An Extended Play Record of Assembled Sounds for Different Kinds of Moods, projecto composto por seis faixas que vão buscar inspiração à soul e ao funk, ao disco e ao jazz, ao hip hop e ao house. O lado clássico de todos estes géneros, claro, mas também as suas dimensões intemporais.

Tenreiro tem sido, claro, um incansável divulgador e agitador: em cabines de DJ um pouco por todo o país, em gabinetes de A&R e estúdios, em estações de rádio ou onde quer que o seu amplo conhecimento possa ser aplicado. Agora, com novo cúmplice ao lado, o homem que em tempos evocou uma telenovela brasileira para nomear o seu projecto de re-edits, Dancing Days, fica-se pelo Bonfim para nos oferecer novo conjunto de ideias carregadas de classe e groove.

Pretexto mais do que oportuno para enviarmos umas perguntas ao autor de Poder Soul, programa na Antena 3, que nas respostas nos escancarou as “portas” para o processo de feitura deste trabalho.



Bonfim marca o teu regresso à produção. Como é que nasceu este projecto e porque é que renasceu esta tua vontade de voltar ao estúdio?

Na verdade, nunca estive completamente arredado destas experiências. São muitos os beats “perdidos” que fui fazendo com o Serial, o meu parceiro nos Illmatic + Phaser. Alguns nunca saíram da MPC. Outros chegaram ao multi-pistas, mas nunca foram acabados e estão a marinar num qualquer disco rígido na arrecadação dele. Acho que aquilo que nos motivava era estarmos juntos à volta dos samples como se estivéssemos a jogar FIFA numa Playstation.

Depois, enquanto fui A&R da Nortesul, para além de ter pouco tempo disponível, achava que a minha actividade artística era secundária e que aquilo que era importante era apoiar aqueles que editava. Entretanto saí da Valentim. O Hugo regressou ao Porto, depois de uma temporada em Londres, concentrado na sua actividade primordial — o design de mobiliário — e longe destas lides. 

Conheço-o há muito tempo. Era ele um adolescente que gravitava em torno dos Mind da Gap, com um gosto muito próximo do meu e uma abertura pouco vulgar naquele meio, que se tinha aventurado na produção e teve um projecto interessante com o Maze chamado Subverso. Um dia fomos tomar café e desafiei-o para tentarmos fazer umas coisas. Tinha essa vontade. Tinha tempo. E sabia que ele tinha uma visão próxima da minha. Ele levou a MPC para minha casa. Marcamos um dia por semana para trabalhar e a a coisa começou logo a fluir.

Explicas que é música intemporal, a que crias com o Hugo Passos. Queres aprofundar essa ideia?

É simples e, claro, altamente subjectivo. Significa apenas que não nos preocupamos se a nossa música obedece, ou não, a tendências vigentes. Que aquilo que nos inspira, desde a soul ou o funk e o jazz ao hip hop ou o house dos 90s, soa hoje tão bem como quando foi gravado e que é isso que queremos conseguir. Talvez por isso apenas um terço dos beats ganharam vida própria…

O sampling na era do Shazam e do site WhoSampled perdeu parte do seu mistério, isso não te preocupa?

Sinceramente não. Primeiro porque, não sendo eu (nem o Hugo…) um músico e, muito menos, um mago da electrónica, são sempre os discos que ouço que me inspiram e que estão na base da criação. 

Depois porque há muitas formas de samplar e a mesma fonte manipulada por duas mentes distintas é alvo de abordagens também distintas. É isso que, para mim, torna o Serial especial e, por exemplo, completamente diferente do Sam The Kid que é, igualmente, especial. E acontece o mesmo com monstros como o Jay Dee, o Premier, o Pete Rock, o Large Professor e tantos outros que têm feito história.

Finalmente, o desafio é ainda maior quanto mais tentas “afastar-te” das tuas fontes. Foi isso que nós tentamos conseguir. E se o “U know you can (Dance)” é uma canção construída sobre samples de um compasso, de um disco de library, relativamente refundido, o “Apresentação” é fruto do corte cirúrgico de frases de um clássico jazz funk, em notas isoladas que deram origem a novas frases.

Não estamos livres de sermos “desvendados” pelo WhoSampled mas, até ver, o Shazam não chega lá!

Como é que estes samples são eleitos? Quando ouves discos no teu dia a dia ou nos teus sets vais colocando de lado rodelas que te interessa samplar? E o que é que um disco precisa de ter para merecer ser samplado por ti?

É raro samplar a música que passo. Essa parece-me, quase sempre, intocável. São discos que ouço em casa e nos quais reconheço pequenos detalhes que me fascinam. Uma nota, um timbre, uma atmosfera. Um clap, um bombo, uma tarola. Enfim, uma conjugação de propriedades sónicas e musicais.Depois há coisas que nos dão matéria suficiente para conseguirmos algo autónomo e há outras que não chegam lá…

Ao ouvir Bonfim penso imediatamente no Moodymann como alguém que se posiciona no mesmo universo. Quem mais achas que anda por aí a fazer música com este som clássico? Quem é que vos inspira enquanto Bonfim?

O Kenny Dixon Jr., assim como o Theo Parrish, são fontes de inspiração desde os tempos de Illmatic + Phaser. E há, de facto, uma forte relação entre a nossa música e a que chega de Detroit, do génio do J. Dilla ao Dabrye, passando pelo Andrés a.k.a. DJ Dez, pelo Marcellus Pitman, pelo Rick Wilhite, pelo Omar S., pelo Kyle Hall e tantos outros, mas também podes encontrar pontos de encontro com gente como o Luke Vibert, no Big Ben Boy, ou os Mobb Deep, em Bonfim (será disparatada a comparação?). São pessoas que fazem ou fizeram música que nos inspira e que, inevitavelmente, nos influencia.

De resto, o facto de ter dedicado os últimos anos da minha vida a investigar e divulgar a música negra do passado, faz com que o meu contacto com o presente não seja, hoje, tão sistemático como foi em tempos. Talvez por isso não consiga fugir a esse som clássico. Talvez por isso, quando ouço o “Dilettante” reconheça hip hop dos 90 ou neo-soul, tipo Spacek, mas também Lonnie Liston Smith ou Marvin Gaye.

Tens testado esta música nos teus sets? Como é que funciona nas pistas?

Por incrível que pareça, não! O facto de usar vinil torna essa possibilidade remota. Mas tenho confiado noutros para o fazerem! Depois, embora seja um disco herdeiro da música de dança, não foi pensado como tal. O “Alfa Romeo” aponta directamente para os clubes, mas todas as outras são “multi-usos”!

Para já disponibilizaram este trabalho no SoundCloud, mas isto foi obviamente pensado para ter uma dimensão física, certo? Vai acontecer?

Vai acontecer, com certeza.Não sabemos ainda é quando e como. Prensar 300 cópias do disco é fácil, mas não chega. Gostávamos de tentar chegar aos pequenos nichos que se alimentam deste tipo de música em todos os cantos do planeta e de estar presentes nas lojas que admiramos, no Porto, em Lisboa, mas também em Londres, Amesterdão ou Berlim. Temos que tentar assegurar uma distribuição que faça isso por nós e, por muito que se ache que o mercado de vinil vai de vento em popa, não é bem assim. Vamos esperar que a coisa cresça “boca a boca” e, mais tarde ou mais cedo, o disco estará aí.

Não há editoras para esta música em Portugal neste momento?

Claro que há! Várias, que respeitamos e com quem teríamos todo o prazer em colaborar. Não sei é se aquilo que fazemos é suficientemente apelativo para elas!

Falemos um pouco do lado técnico de Bonfim: que ferramentas usaram, onde gravaram, porque foste buscar o Zé Nando para misturar, etc?

Começou tudo na sala de minha casa, onde as bases foram construídas numa pequena MPC 1000. Passámos as que seleccionámos para multi-pistas com o Expeão, assegurando que tudo era convertido como deve ser, usando um bom pré e um bom conversor. Depois houve o trabalho com o Kiko, que cantou dois temas, com o Sérgio, que tocou vários teclados, e com o PZ, que contribuiu com uma linha de uma TB 303. Tudo foi feito nos estúdios caseiros de cada um, sempre com a preocupação de usar instrumentos originais e de tirar partido das suas características. Onde ouves um Rhodes, é um Rhodes. Onde ouves um Clavinet, é um Clavinet, etc. E, antes de avançarmos para as misturas, houve um trabalho minucioso de edição, definição de arranjos e sequenciação final dos temas em casa do Hugo. Tudo feito com muita calma!

O Zé Nando é um amigo de longa data e alguém que respeito muito. Assinou discos com um som espantoso, tem uma sensibilidade única para trabalhar samples e é um mestre na acústica, sempre atento aos detalhes, às dinâmicas. Foi muito importante para assegurar a unidade sónica de coisas tão diversas. Algo que era decisivo assegurar. E, muito sinceramente, a esse nível acho que o disco está imaculado, com um equilíbrio entre músculo e espaço que me enche de orgulho.

Vão escrever mais capítulos para esta história?

Sim. Os encontros em minha casa continuam. Há coisas que ficaram em suspenso. Há um esqueleto novo que caminhou para uma espécie de drum + bass made in Bristol nos 90 que, pode ou não ver a luz do dia. Vamos ver. Espero é que, entretanto, o Bonfim não seja “empurrado” para Paranhos ou, mesmo, para a Travagem!


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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