Bonde Fantasma no Musicbox: o jogo em equipa é o melhor esquema táctico

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTOS] Maju

Arrependimento. Parece estranho começar uma reportagem com uma palavra tão forte como esta mas a verdade é que esse foi um dos sentimentos mais presentes ao longo da noite de ontem no Musicbox. E explico porquê. Imagine-se aquele artista ou aquela banda que adoramos e queremos muito ver. Um dia acabamos por ter essa oportunidade, provavelmente numa sala a abarrotar pelas costuras ou num qualquer festival onde toda a gente veste a mesma t-shirt. E nesse dia apercebemo-nos, porque lemos em algum lado ou porque alguém mais atento nos informou, que esse mesmo artista ou banda já tinha tocado numa sala em Lisboa uns anos antes, para um público tão exclusivo, que quase te podias sentar no palco. Ou abraçar o Rincon Sapiência, na plateia. E é exactamente nesse momento que te arrependes.

O Musicbox esteve bastante aquém da sua capacidade, ontem à noite, quando alguns dos nomes mais importantes do rap contemporâneo brasileiro subiram ao palco da sala do Cais do Sodré para um aquecimento daquilo que poderemos ver no Sumol Summer Fest, já amanhã. No entanto, e se a expressão “arrependimento alheio” pode ser utilizada para descrever o que se sentiu ontem à noite, só o é porque a prestação em palco de DJ Nyack, Fióti, Drik Barbosa, Rashid e Kamau não obedece a regras de lotação da sala para se fazer quente.

Das 21 horas até pouco depois da meia-noite, o que vimos foi uma equipa bastante coesa que nos deixou com a sensação de que actuar em conjunto é já procedimento habitual. DJ Nyack, o gigante da Discopédia – uma das festas imperdíveis do circuito da cidade de São Paulo desde 2012 – esteve irrepreensível na função, sempre participativa, de trazer segurança aos MCs que, um a um, encontraram no DJ a rede de segurança responsável por garantir, no mínimo, metade do sucesso em palco.

Para Drik Barbosa, Rashid e Kamau, o jet lag não foi motivo suficiente para amenizar a visível satisfação de actuar no palco do Musicbox para uma plateia composta por 80% de brasileiros, 19% de portugueses e 1% de franceses. “Merci!”, a piada fez-se pronta no palco, quando Kamau aproveitou para lhes agradecer a presença. A destacar: a facilidade com que Drik Barbosa oscila entre uma presença amorosa r&b’ish e uma faceta bem mais “gangsta rap”, a fluidez de Rashid aliada a uma presença de palco contagiante, como se espera de um bom entertainer, e a técnica e à-vontade de Kamau numa apresentação que se manteve sempre em crescendo. A equipa portuguesa que se prepare: não há sinais de tréguas da parte da selecção canarinha para a noite de amanhã. O jogo em equipa é, sem dúvida nenhuma, o melhor esquema táctico.

 


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto