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Blastah Beatz: quem é o produtor português mais internacional de sempre?

[FOTO] Direitos Reservados

Franck Dias é Blastah Beatz, um nome desconhecido para muitos dos seguidores e fãs do hip hop nacional, mas um dos produtores portugueses mais internacionais e com um maior número de colaborações de renome no currículo. Não há ninguém como este mestre do boom-bap no nosso país, que acaba de editar Ph.D. in the Beatmaking, um álbum que inclui participações de nomes como Kool G Rap, Inspectah Deck, dos Wu-Tang Clan, Carnage, Supastition ou Apani B. Fly.

Mas o produtor também já trabalhou com Joe Budden, Vinnie Paz, Busta Rhymes, Papoose, Murs, Cappadonna, Chamillionaire, Aloe Blacc, Sean Price, U-God, Army Of The Pharaohs, Canibus ou Del The Funky Homosapien — nomes que participam nos seus discos (editados internacionalmente) ou que têm beats assinados por Blastah nas respectivas discografias.

Mas, afinal, quem é Blastah Beatz e como é que chegou a trabalhar com estes ícones mundiais do hip hop? O Rimas e Batidas procurou responder à questão, contando a história única do produtor que, além de engenheiro das batidas, ganha a vida com a palavra, ao ser um tradutor de profissão.

 


A história começa em Thonon-les-Bains, em França, onde Franck Dias viveu até aos seis anos. O primeiro contacto com a cultura hip hop teve origem precisamente na música de artistas franceses de referência como MC Solaar, Suprême NTM e IAM, cujos temas passavam na rádio e na televisão. “Ainda era muito novo, mas já se via muitos tags e graffiti nas paredes. Aquele sentimento de grupo ‘it’s all love‘, de nós contra eles [o sistema], sem dúvida foi uma das coisas que me cativaram mais.”

Filho de pais emigrantes da vaga dos anos 60, o pequeno Franck veio com a família para Portugal para morar em Braga, onde ainda vive. Estávamos em 1994 e o rap português ainda era um embrião. Os primeiros rappers que o levaram a interessar-se mais pela música foram os Wu-Tang Clan, Cypress Hill ou KRS-One.

A vontade de experimentar e criar algo da sua autoria surgiu durante a adolescência, quando tinha 15 anos, em 2002. “O meu primo que está emigrado em Londres desde essa altura reparou que eu gostava muito de rap. Ele é mais velho e tinha mais conhecimento da música e da cultura. Escreveu-me alguns nomes num papel: Gang Starr, Pete Rock & CL Smooth, Da Youngsta’s, etc., e disse-me para ouvir cenas deles. Mais tarde, levou-me à casa de um amigo dele que tinha uma verdadeira colecção de CD’s originais, uns 300, da East à West Coast. Ouvi e assimilei muita coisa, e algo que me chamou muito a atenção foi, ao ler as liner notes das capas, a repetição de muitos produtores nos meus projectos e beats favoritos. Large Pro, Pete Rock, RZA, DJ Premier, Dr Dre…”

E o bichinho pela produção de instrumentais assim começou. Influenciado pelo primo, o miúdo que viria a ser Blastah Beatz começou a ter aulas de DJing com MasterKutt, um DJ local. “Fui à primeira aula na casa dele e virámos a cena para a produção, interessava-me mais. O MasterKutt passou-me o FruityLoops e fui aprendendo com o tempo. Alguns anos mais tarde fomos a um curso de Reason no Porto e aprendi algumas dicas de mistura.”

Em 2004, fundou o seu próprio grupo com três amigos, os RAP – Regimento de Artilharia Pesada, composto por si, MasterKutt, e os MCs Bino e Retrace. Blastah era o produtor de serviço do colectivo e, apesar de só terem gravado umas demos numa rádio regional, fizeram várias actuações. “O Sam na altura estava com os Madvision e chegámos a abrir para eles, mas também para Dealema, Boss AC e Lancelot. Aliás, o feedback que ia tendo do pessoal durante os concertos sobre as nossas batidas foi o que me fez querer chegar mais alto. Eles não se devem lembrar, mas o Fuse e o Boss AC foram dois dos que tiveram a consideração de me dar o big up pessoalmente pelo meu trabalho.”

 


Concerto de despedida dos RAP – Regimento de Artilharia Pesada, em 2007, na discoteca Lagar’s Amares, em Braga.

Com a escola secundária prestes a terminar, o grupo separou-se e Blastah lançou-se a solo na produção de instrumentais. O seu estilo, até hoje, sempre foi o boom-bap, inspirado nos clássicos da escola norte-americana dos anos 90 com que conheceu o hip hop. “Aquele ditado ‘à procura da batida perfeita’ é a essência disto. Fiz beats que poderia ter gravado com um 4-track, de tão simples que são. Mas não encontro esse feeling em nenhum outro lado. É o casamento perfeito entre o sample, o breakbeat, a bassline e a percussão. Passo horas para encontrar o break que se encaixa perfeitamente num determinado sample, não propriamente em termos de BPM, mas em termos de sonoridade.”

No início, produzia com softwares como o FruityLoops e o Reason — incluindo os primeiros trabalhos, Block Blastin’ Beatz Vol. 1 (2009), 4700 Rapresenter EP e Graduate Studies (ambos de 2011). “Agora produzo com samplers e um sequenciador hardware. O que fiz para Vinnie Paz e Army Of The Pharaohs, algumas faixas do meu álbum e outras que tenho para sair em breve já foi com este método: ASR-10 e MPC mais alguns efeitos da Boss.” Antigamente, todos os samples que Blastah usava vinham de discos de vinil, mas hoje também faz muito diggin’ online.

Quanto à sua rotina enquanto produtor, confessa ao Rimas e Batidas que já não faz música todos os dias, só de vez em quando. Afinal, a sua principal ocupação é ser tradutor — faz todas as combinações entre português, inglês, francês e castelhano — e vai abrir brevemente a sua própria empresa. “Vai ser o meu próximo hustle.”

 


“Para a música tenho que estar inspirado, não posso forçar. Na altura do secundário e da universidade, a fome era outra e fazia [beats] quase todos os dias. Agora que atingi praticamente todos os objectivos a que me tinha proposto, tenho mais calma e prefiro escolher bem os passos a dar.”



Muitos destas metas atingidas de que Blastah Beatz fala são as colaborações com verdadeiras lendas do hip hop internacional. De Vinnie Paz a Inspectah Deck, de Kool G Rap aos Army Of The Pharaohs, passando por Busta Rhymes, Murs, Sean Price ou Joe Budden. E gostaria imenso de ainda poder trabalhar com KRS-One.

Os primeiros contactos internacionais que estabeleceu foram precisamente na Internet, num tempo antes da massificação e democratização das redes sociais.

“Foi através do MySpace, que era uma óptima forma de entrar em contacto directamente com os artistas ou os seus representantes. Entrei em contacto com o DJ Kay Slay que me deu o meu primeiro co-sign. O Busta Rhymes e o Papoose foram dos primeiros MCs que ouvi nos meus beats e foi através do Kay Slay. Quando estás apenas a começar e ouves logo o Busta numa cena tua, dá-te outra inspiração. A partir daí fui juntando contactos e trabalhando muito mais. O Joe Budden apareceu nessa altura também, fizemos sete ou oito sons juntos.”

Blastah não esconde a felicidade e o orgulho que tem nos seus feitos e conquistas. “É o que sempre sonhei. Devia ter uns 17 anos quando disse ao Bino que um dia ia trabalhar com Wu-Tang. Na altura era para rir, mas a verdade é que dez anos depois tinha um som num álbum em que o RZA era o produtor executivo, logo a seguir a uma batida dele. O álbum chegou a estar no top da Billboard também, e produzi em quatro ou cinco projectos que chegaram a esse nível. Trabalhei com o Deck, mas também com o U-God e Killa Beez, com o Cappadonna, o Hell Razah e os Killarmy. Ser pago para isso é muito bom.”

A maior ligação que teve foi com o veterano nova-iorquino Kool G Rap. “Foi uma verdadeira honra, já que a relação passou dos emails e tivemos várias conversas por Skype. Ele tocou-me os sons que tinha produzido para ele antes de terem saído, mandou-me as vozes acapella para treinar o meu mix e deu-me umas dicas. Teres conversas do género com lendas como ele e receberes o respeito dos teus pares é tudo aquilo que poderia querer, tendo em conta as limitações de estar em Portugal. Ter trabalhado com ele abriu muitas portas para mim.”

 



E como é que todo este processo de venda, troca, e intercâmbio de batidas e rimas acontece? “É essencialmente tratado por email, mas por vezes também se marca uma chamada pelo Skype quando é necessário falar de uma forma mais extensa. Quando é para um trabalho meu, mando a batida e o conceito que quero, os MCs escrevem, gravam e mandam-me as acapellas para eu poder mixar. Se me pedem uma cena para o álbum deles, mando vários beats e aquele que eventualmente escolherem envio por pistas para eles terem o engenheiro deles a misturar e masterizar.”

Pedimos que nos desse a sua lista de 15 álbuns obrigatórios em termos de produção, que pode ser uma inspiração para outros tantos beatmakers, rappers ou simples ouvintes. Blastah Beatz entregou-nos a seguinte listagem, sem ordem específica: IV, Cypress Hill; Deltron 3030, Deltron 3030; The Chronic 2001, Dr. Dre; Art de Rue, Fonky Family; Full Clip: A Decade Of Gang Starr, Gang Starr; Liquid Swords, GZA; L’École du Micro d’Argent, IAM; Legacy Of Blood, Jedi Mind Tricks; Madvillainy, Madvillain; À Procura da Batida Perfeita, Marcelo D2; The Infamous, Mobb Deep; The Future Is Now, Non Phixion; Mecca and the Soul Brother, Pete Rock & CL Smooth; Only Built 4 Cuban Linx, Raekwon; Wu-Tang Forever, Wu-Tang Clan.

É uma playlist carregada de boom-bap e de instrumentais que tanto podem soar mais pesados e “gordos”, como mais soulful ou até sujos. Apesar de sempre ter sido fiel ao hip hop estrangeiro, não deixou de ter várias referências portuguesas. “Dos primeiros álbuns de que me lembro de ouvir e gostar muito, foram o Mandachuva [Boss AC], Sem Cerimónias [Mind da Gap], Expresso do Submundo [Dealema] e umas demos dos Triângulo Dourado. Mais tarde, o Sobre(tudo) [Sam The Kid], A Verdade [Mind da Gap], Rimar Contra a Maré [Boss AC], Sintoniza [Fuse] e Educação Visual [Valete]. Mas também ouvia outras cenas, como Rapresálias [Chullage] ou o Reflexologia [Berna]. Há muita qualidade no panorama nacional também. Micro, Filhos de um Deus Menor, Força Suprema, etc… A minha primeira exposição foi com Black Company, como muita gente da minha geração. Na produção sempre segui muito o AC, o STK, o Serial, o Mundo Segundo e o Kronic.”

Da nova geração norte-americana, é fã dos Pro Era — de Joey Badass, CJ Fly e Nyck Caution — de Kendrick Lamar, Schoolboy Q, e dos colectivos Odd Future e Asap Mob. “Prefiro os clássicos com quem cresci mas admito que ainda haja talento no movimento. Mas também há muito mais lixo musical hoje em dia, o que acaba por causar algum desequilíbrio.” Em termos da ciência rítmica avançada das batidas, vê em Mustard, Metro Boomin, 808 Mafia, Jahlil Beats e Zaytoven bons novos valores.

Aos 29 anos e com uma carreira recheada de motivos de orgulho, Franck Dias tem novos projectos em mente, apesar do seu cunho marcado enquanto mestre boom-bapper. “Já atingi as metas a que me tinha proposto quando comecei como Blastah Beatz, e ter editado dois projectos sob o meu nome com editoras internacionais é algo que nunca esperei. Quando vêem o nome Blastah Beatz sabem o que esperar: vão ouvir boom-bap, trabalhei durante muito tempo para esse fim e para criar uma certa imagem e não quero estragar isso ao fazer cenas diferentes.”

Mas se pensam que nunca vamos poder ouvir os talentos de Franck Dias aplicados a outras sonoridades do hip hop que se desenganem. Só que será com um nome diferente, um pseudónimo ainda por definir. “Ainda estou a desenvolver esse conceito. Terá sem dúvida um toque mais electrónico e contemporâneo, mas o sample será sempre a base. Vai ser mais virado para o trap tendo uns samples disfarçados na mistura. Estou apenas a começar a ouvir o género agora por isso ainda tenho muito TPC para fazer!”

Além disso, conta aventurar-se brevemente noutro projecto com um dos convidados de Ph.D. in the Beatmaking, o cantor Darnell McClain. “Quero produzir um álbum hip hop/soul, mais downbeat, para o Darnell McClain, que canta no meu single ‘Keep On Runnin’. Já trabalhámos várias vezes no passado e falámos recentemente em fazermos um álbum juntos. É uma experiência que sempre quis ter e que vai ser com certeza um desafio interessante.”

 


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