Blasph e Beware Jack: O Processo de fazer arte (agora) em cima do palco

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTOS] Margarida Vaz

O processo de fazer arte não tem fórmulas obrigatórias nem um regulamento a cumprir. Mas Beware Jack e Blasph, irmãos de rimas, não hesitaram em conceber um álbum de hip-hop clássico – afinal, é a sua essência e paixão – com todas as suas regras de código não escritas: à cabeça, a receita inclui instrumentais boom-bap (neste caso, do mestre Kilú), uma boa dose de groove, cortes profundos (de Nel’Assassin, “o melhor DJ português”, elogiou Beware Jack), e, claro, os melhores versos dos dois MCs, intercalados com algumas participações enriquecedoras de convidados que condimentam o trabalho e abrem, desta forma, o apetite.

Depois de jantar, ontem à noite, no Santiago Alquimista, o duo apresentou-se com Nel’Assassin nas costas a disparar as batidas. Se o concerto começou rápido e com ritmo – “não vos vamos dar tempo para respirarem” – com os principais êxitos anteriores dos dois protagonistas – “Rap D1 Gajo“, “O Último Grande Junkie” ou “Nuvens Cinzentas“, entre outros – teve de se ambientar e desacelerar para se dar início ao esperado O Processo, interpretado na íntegra pelos rappers da Grande Lisboa – para encontrarmos uma denominação comum para a Margem Sul e Odivelas, as zonas de onde são oriundos Blasph e Beware Jack, respectivamente. E não há grande desafio em relação a isso. “Sou um lisboeta assumido”, disse Beware com orgulho, no Santiago Alquimista, em plena Olisipo.

O yin e o yang, o equilíbrio perfeito entre os dois MCs em palco. Blasph personifica o seu MS Style de forma despreocupada, embora mais sério do que o companheiro – o que não o impediu de partilhar uma garrafa com o público devoto na linha da frente -, enquanto Beware é uma alma livre, um artista e performer nato, que, não sendo uma surpresa para quem o conhece, tenta sempre envolver o público nos seus concertos, de uma tal maneira em que muitas vezes se dissipam (literalmente) as fronteiras que os separam. Os dois juntos, com as suas diferenças, que, de forma natural, também se traduzem na música, são uma das duplas mais carismáticas e com uma química mais forte que o rap nacional já viu em palco.

Com eles, trouxeram os convidados que participaram no disco: o veterano Sanryse veio relatar uma “Cidade Vigara“, Nerve personificou um “Jorge Palma” e Maura Magarinhos foi uma autêntica “Vulcânica” com a sua voz doce e suave, que já conhecíamos de outras colaborações com Beware Jack. No fundo, tudo se resume ao processo de fazer arte em cima do palco, depois de já o terem feito no estúdio, com (mais) um disco excepcional para todas as hip hop heads deste país. Hip hop puro e duro feito em Portugal.

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Antes de os senhores da Mano a Mano, João Tamura e Holly abriram a noite com vários temas – alguns desconhecidos provenientes de um EP futuro, outros mais badalados do rapper lisboeta -, num concerto onde também apareceu Harold, MC dos GROGNation, para completar a alcateia. Os três são alguns dos artistas jovens em quem muitos interessados do rap português mais depositam confiança: a visão poética de João Tamura fundida com os instrumentais prodigiosos de Holly e todo o potencial do rapper completo que é Harold – num resultado que já pudemos verificar em “Marfim“, o single do EP Os Lobos Comeram a Lua, ainda por editar.

Entre O Processo de Beware Jack e Blasph e a prestação de Tamura com os companheiros, houve também outro concerto com várias características especiais e que importa realçar. Foi a primeira actuação “a sério” de TOM, a última contratação da Mano a Mano, que editou no início de 2016 o primeiro trabalho, Guarda-Factos. Ontem não os guardou perante a audiência – que puxou pelo jovem rapper ao ponto de o terem levado a escrever no Facebook, no dia seguinte: “Não podia ter pedido mais. A todos os presentes, obrigado!”

Sobre instrumentais clássicos, que nos fazem acenar repetidamente com a cabeça – a maioria da autoria de TNT, CEO da editora independente – TOM não cessou de cuspir barras para todos os que marcaram presença no Santiago Alquimista, numa noite que terminou da melhor forma com um DJ set de Sam The Kid. O momento alto do concerto do MC foi muito possivelmente “Manifesto“, com TNT, o single do álbum; ou, com a participação de Diurne, “Sei Que Estão Comigo“, que fez as tropas da Margem Sul alinharem-se e estarem à altura da faixa do rapper de Almada, mais uma jovem promessa que cresce no ninho frutífero da Mano a Mano, que continua a dar presentes de qualidade a todos os seguidores do hip hop português.

Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha