Blackground do Duo Ouro Negro reeditado pela Armoniz

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A Armoniz prepara-se para recuperar uma obra fundamental da memória afro: Blackground, álbum do Duo Ouro Negro. Foram produzidos 500 exemplares da nova edição do histórico trabalho, que estará disponível a partir de Abril, de Raul Indipwo e Milo MacMahon, tornando-se o terceiro projecto recuperado pela editora — os álbuns homónimos de José Cid e Quarteto 1111 foram os dois primeiros.

A presente reedição — que se vem juntar a outras oportunas e recentes recuperações para os escaparates de obras de Bonga ou Pedrinho — carrega a já reconhecida marca de excelência da editora comandada por Miguel Augusto Silva, contendo não apenas fiel reprodução do artwork original, mas também apurado trabalho de pesquisa documental e, talvez ainda mais importante, beneficiando do facto de ser uma nova prensagem feita a partir dos masters originais analógicos. Este Blackground, pode garantir-se, nunca soou tão bem.

 


blackground duo


Em 2017, Rui Miguel Abreu esteve encarregue de escrever sobre o longa-duração no livro da Antena 3, Cento e Onze Discos Portugueses – A Música na Rádio Pública, texto que podem ler na íntegra em baixo:

A obra do Duo Ouro Negro ainda aguarda uma correcta avaliação que analise a sua importância e alcance no contexto mais amplo da “música portuguesa”. Marissa J. Moorman, a académica que estudou a fundo a identidade musical angolana, dedica algumas linhas ao Duo Ouro Negro no seu estudo Intonations – A Social History of Music and Nation in Luanda, Angola, from 1945 to Recent Times (Ohio University Press, 2008). Escreve Moorman que “o Duo Ouro Negro teve um sucesso tremendo tanto dentro como fora de Angola. Representaram Portugal em competições musicais internacionais. Foram importantes em espalhar uma variedade de estilos musicais angolanos, embora Albina Assis recorde que aqueles envolvidos nos movimentos nacionalistas os menosprezavam por tocarem a música dos Ngola Ritmos sem lhes darem o devido crédito”. Que a menção mais significativa ao Duo Ouro Negro ocupe apenas uma nota de rodapé neste importante estudo já é, em si, significativo, mas nas entrelinhas das palavras de Marissa J. Moorman adivinha-se a mais complexa relação que o grupo estabeleceu com Angola, com a sua identidade revolucionária, com Portugal e com o Império.  Não se atribuiu ainda o devido valor à sua obra talvez porque não se saiba exactamente onde a colocar. Na esfera da música angolana, na da música portuguesa? Talvez ajude se a colocarmos apenas num contexto histórico muito específico.

Blackground, o álbum que o Duo Ouro Negro lançou em 1971 e que teve uma espécie de sequela 10 anos mais tarde com o regresso à mesma ideia em Blackground II, deveria bastar para atribuir a correcta dimensão à visão de Raul Indipwo e Milo MacMahon. Sim, de facto, o Duo Ouro Negro foi também um símbolo pop do império, cantou em francês, inglês ou “brasileiro”, mas tinha igualmente consciência da sua própria identidade cultural e bastas vezes cantou nos dialectos que se escutavam nas ruas de Luanda. E quando cantavam em português, como em “Venho de Longe”, deste fabuloso trabalho de 1971, não deixavam de colocar o dedo na ferida imperialista: “Venho de longe, de longe eu sou / tem outro nome quem me comprou”.

O duo imaginou Blackground como uma experiência conceptual, um disco que pensava não apenas Angola, mas África e a sua diáspora. Com a colaboração dos Objectivo de Kevin Hoidale, Zé Nabo e Mário Guia, o Duo Ouro Negro apresentou em Blackground um mosaico intencional em que a música de Angola representava uma das nuances. E em temas como “Amanhã” desenhavam uma esperança de mudança que não era muito diferente daquela que cantavam os grandes nomes da soul durante o Civil Rights Movement, na América. A riqueza percussiva, aliada à beleza melódica e às harmonias vocais renderam pérolas como “Napangula” que sublinhavam a multiplicidade de registos que o Duo Ouro Negro alcançava (o interlúdio jazz deste tema, por exemplo, é absolutamente delicioso). No fundo, um reflexo da realidade que os rodeava. O Duo Ouro Negro não se escondeu do seu tempo, mas o nosso tempo parece querer escondê-los. Um pouco, pelo menos…

 


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