Black Knights // The Almighty

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A capa de The Almighty mostra uma só máscara e, mesmo assim, há tanto para dizer sobre ela. Uma máscara que se trata mais especificamente de um elmo, parte da armadura metálica que cobre por completo a cabeça do cavaleiro medieval. O símbolo adequa-se perfeitamente ao segundo disco dos Black Knights produzido por John Frusciante e com uma fortíssima presença musical dele mesmo, tal como de resto havia acontecido no anterior álbum Medieval Chambers (início auspicioso de uma trilogia que haverá de terminar com All Skills No Luck).

Mas e o elmo? O que faz ali? Representa talvez as incógnitas inevitáveis em torno de um duo (os Black Knights sobreviventes Rugged Monk e Crisis) que, ao estar associado à grande família Wu-Tang Clan, atrai vários dos estigmas do colectivo lendário de Staten Island. Com o grande W acorrentado à identidade dos Black Knights, serão eles heróis ou vilões? Abençoados ou amaldiçoados? Serão mesmo os Black Knights? A certeza é que aquela cortina de metal tem tudo a ver com a ambiguidade e o mistério que encobria o Wu-Tang Clan, pelo menos durante a primeira fase de existência. O importante nem era tanto quem rimava, mas como rimava, e a verdadeira filosofia Wu obrigava a que o arremesso de palavras fosse hardcore, marcial (como nos filmes dos estúdios Shaw Brothers) e afiada. The Almighty, tendo RZA e Prodigal Sunn, entre outros convidados, consegue pelo menos reavivar uma parte disso, o que por si só já lhe confere bastante valor.

Paralela a essa postura Wu-Tang existe em The Almighty toda uma ciência John Frusciante (produtor e principal pensador do disco) que garante muito mais do que um pano de fundo instrumental para o rap dos intervenientes. Chegados ao segundo capítulo da saga, o que acontece é sentirmo-nos um pouco mais adaptados à complexidade deste hip hop algo abstracto, que Frusciante elabora à revelia de qualquer escola (velha ou nova), embora apegado a uma progressividade que passou a ser mais evidente a partir do seu álbum de renovação The Empyrean. Com essa tal progressividade surge também a inevitável abundância de ideias e ritmos, que resultam por vezes numa experiência cansativa para ouvidos incapazes de digerir tanto em tão pouco tempo.

Mas, lá está, aqueles que possam ter vindo a acompanhar John Frusciante (ele mesmo uma fé), no seu passado mais recente, estarão de alguma forma preparados para estas súbitas mudanças de rítmo, assim como para os coros de uma voz só que o ex-Red Hot aplica quase como uma marca de água por onde passa. The Almighty permanece longe de ser o furacão de breakbeat que era Pbx Funicular Intaglio Zone e o apêndice Letur-Lefr, mas ainda mais longe andará de ser um álbum de hip hop linear e de contextualização fácil. É uma peça curiosa, nem que seja por colocar um MC a rimar em português ao lado de RZA em “Finish Line”. Com duas faixas exclusivas (“Gang Related” e “The Devil’s Pig”) na sua edição japonesa, The Almighty fica bem instalado na sua posição de disco recomendável.

 

Miguel Arsénio

Miguel Arsénio

Escreve, desde 2004, sobre música, filmes, actualidade no mundo e na sua querida Ericeira. Ocasionalmente também faz imitações de vozes célebres.
Miguel Arsénio