“Bitch better have my money”: quanto vale a vossa hora?

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Direitos Reservados

Todos os anos a conversa é a mesma. Chegamos a Março, os telefones começam a tocar e a programação enche-se de feminino. A dinâmica é, tendencialmente, esta. As opiniões divergem porque “deviam era convidar mulheres o ano inteiro e não só em Março”, as mulheres queixam-se por onde podem e começam a surgir os eventos, em oposição, criados por e para elas. DJs, MCs, you name it. A grande maioria, masculina, lá está, dos programadores de bares e clubs em Lisboa defende-se com o normal “não há mulheres suficientes” ou “elas não chegam até nós” e o mês acaba e pronto: another day, same shit. Aquelas que se conseguem encaixar no espaço que o calendário lhes reservou para atestar que existem, regressam com a quase certeza de que talvez a agenda fique um pouco mais vazia após Abril. Isso, e ter o jogo mental necessário para gerir a duplicidade entre o “é melhor que nada” e o “estão a dar-me flores porque é Março”. Mas e então: é, ou não é, melhor que nada? É, claro que sim. Há espaço e espaço é o que se pede, sabendo de antemão que nada se muda num mês e que até há relatos de guerras a durar 100 anos. Ironicamente, o Expresso da semana que passou afiançava que igualdade só lá para 2100. É provável que já cá não estejamos todos.

2019 surpreendeu-me, ainda assim. E surpresa das surpresas: não foi pelos melhores motivos. Se nas estatísticas sociais regressámos aos números do início dos anos 2000 – sim, há tantas mulheres vítimas de violência em Portugal quanto há 19 anos e só em dois meses já tivemos mais de metade dos números do ano passado – nos indicadores culturais a coisa também não anda lá muito famosa, não é? Ainda há um par de dias assistimos a uma narrativa do hip hop português, a acontecer ironicamente no dia em que se celebra a resistência feminina, praticamente desprovida de representantes. Capicua e M7, Tamin e Eva Rap Diva (a convite da primeira) marcaram presença bem como a b-girl J_onne dos Gaiolin City Breakers, é importante ficar escrito. Se formos olhar, então, para a programação daqueles que são os lugares must go para se ouvir as rimas e as batidas por Lisboa, vamos constatar o óbvio: em alguns casos, não há uma única mulher num mês inteiro. Durante vários meses seguidos.

Já agora, sabiam que a Capicua teve apenas uma hora por dia para preparar o seu espectáculo na Altice Arena? Imagino que até tenha precisado de menos, mas a questão nem é essa. A questão é que as mulheres portuguesas com um filho pequeno, segundo um estudo recente da FFMS, ficam com apenas 54 minutos de sobra no seu dia, depois de cuidar dos miúdos e da casa. Ora, isto aplica-se às irmãs adolescentes que ainda andam de esfregona na mão aos sábados de manhã em vez de andar a ver tutoriais do Fruity Loops ou às namoradas que ainda vão tratar das compras ao final do dia em vez de, sei lá, aperfeiçoarem as suas técnicas de mistura. E, claro, deixa no ar uma questão interessante: quantas horas por dia acham que precisam para manter uma carreira e viver dela? É umas das coisas em que penso, honestamente, quando olho para o lado e as referências da fundação do movimento são todas masculinas. Ou quando ouço a desculpa “convidamos mas ela não quis aparecer”, como se a questão estivesse perto de estar resolvida. Façam as contas: 54 minutos chegam?

A discussão vai muito além de qualquer história do hip hop português ou da programação dos três ou quatros bares que conhecemos, não esquecendo, também, que Portugal não é só Lisboa e que fora da nossa bolha há muita vida a acontecer. Ainda existem desigualdades estruturais e isso continua a queimar-nos tempo e dinheiro. Desculpem destruir o sonho mas “Bitch Better Have My Money” não é sobre os vossos empreendimentos gangster: é sobre o facto de eu ter que trabalhar duas vezes mais para ganhar duas vezes menos. Aliás, para sermos bem mais justos, sobre o facto da mulher negra ter que trabalhar três vezes mais e ganhar três vezes menos. 

Por esta altura a pergunta devia ser óbvia: “o que é que nós, homens, podemos fazer para mudar, então?” Fácil. Em 2020, escrevam vocês. A sério. E também não vale dizer que não há mulheres se não as procurarem. Não é isso que faz um programador, afinal? E quantos feats. nesse álbum? Ou, numa altura em que a indústria e a media se anda a pronunciar sobre o caso do R. Kelly, ainda não vi uma notícia decente, em nenhum meio/canal português dedicado ao género, sobre a hipoteca que isso potencialmente representou – e continua a representar – para a carreira de muitas jovens negras. Vou ter que ser eu ou dá para serem vocês a carregar a bandeira da igualdade só um bocadinho? É que parecendo que não, já estou a esgotar os meus 54 minutos. O Emicida disse-me isto uma vez, a propósito de estar em palco com uma t-shirt rosa onde se lia girl power: “não podemos dar para as mulheres uma lanterna e um apito para que elas tenham que ficar lá olhando para os caras, monitorando se eles estão ou não sendo machistas”. Eu tendo a concordar. É que, enquanto estou a escrever sobre isto, podia estar a falar sobre o incrível novo trabalho de alguém e a ouvir dois ou três discos. Para além de que me custa tempo e dinheiro que eu não tenho. A muitas outras mulheres, a desigualdade de género ainda lhes custa a vida. E a vocês? O que é que vos custa?


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
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