Bison & Squareffekt: aventuras para lá do tarraxo

 

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Bison & Squareffekt deram nas vistas com produções divulgadas pela Enchufada e alinhadas com o universo zouk bass que os produtores do colectivo Buraka Som Sistema tanto têm feito para divulgar.

O SoundCloud ou plataformas como a Tropical Bass têm amplificado o sinal desta dupla da grande Lisboa que, no entanto, tem vistas largas e tem querido aventurar-se para lá das margens do tarraxo. O EP Passengers/Neon Lights que agora se disponibiliza através do Rimas e Batidas é revelador em relação a essa ambição e mostra Bison & Squareffekt em modo exploratório, aproximando-se de outros ambientes revelando a potencialidade da curiosidade aplicada á criação musical.

Conversa curta, mas reveladora com Squareffekt (à esquerda na foto) já a seguir.

 

Querem falar-nos, antes de mais, sobre o EP que agora disponibilizam através do ReB? Que material é este e o que representa no conjunto da vossa carreira?

[Squareffekt] São temas que temos trabalhado fora do universo do tarraxo, pois decidimos alargar o potencial a nível das nossas produções, porque faz cada vez menos sentido ficar vinculado a apenas um estilo musical quando ambos temos gostos semelhantes, mas ao mesmo tempo muito dispersos. Neste caso, para nós é uma mais-valia, pois podemos explorar várias vertentes e seguir em múltiplas direcções.

Não tiveram problemas ao abordar este universo musical tão específico? Para muita gente, kizomba ainda é uma palavra feia…

Não, a kizomba sempre esteve presente na nossa sociedade e com um peso bastante relevante. No nosso caso a kizomba não nos impulsionou a fazer beats com semelhante felling, mas sim o zouk bass e o tarraxo, dando-lhe uma afinidade única com sonoridades mais retro ou mesmo sci-fi. A kizomba, como toda música que é boa, tem a sua beleza. A nossa abordagem a este universo é com a finalidade de arriscar o mais possível em termos experimentais.

Acabam de assinar uma faixa em colaboração com um MC americano… As potencialidades do vosso som são imensas. Quais serão os vossos próximos passos?

Já havia uma troca de ideias com o Gary The Gent e a hipótese de se fazer uma colaboração com ele no ano passado quando fizemos um tema de trap com os produtores franceses 8Er$, em que o tema atingiu cerca de 200 mil plays no YouTube e no SoundCloud e decidimos que tínhamos de fazer algo direccionado para o hip hop. Ficámos satisfeitos com o resultado, embora não tenhamos feito mais temas de trap ou hip hop. O que nos entusiasmou foi mesmo o desafio. Os proximos passos serão continuar a trabalhar juntos e explorar as mais variadas vertentes da electrónica e lançar um EP para finais de 2016.

O telefone toca, é Kanye West do outro lado. O que fazem?

Provavelmente um bom negócio, uma mão cheia de contactos e dois pares de Yeezy 750 Boost.

Acreditam que a imposição desta sonoridade mais ligada aos terrenos da kizomba significa também uma evolução na sociedade portuguesa?

Sim, sem dúvida. Hoje em dia pode-se ouvir kizomba num club sem ser apenas direccionado para um determinado público. Pode-se ouvir um set que abre com kizomba e que termina a noite com zouk bass, bass music, grime, kuduro, cumbia etc… Acaba por estar tudo interligado e abrir novas espectros musicais. Tudo isto evolui para uma sociedade multicultural, mais abrangente, mais unida, e não exclusivamente portuguesa, mas global.

Ainda faz sentido o formato álbum? Têm alguma coisa pensada nesse formato?

No meu caso, ainda sou fã das cassetes, vinis e CDs e ter um álbum editado em formato físico é talvez um dos sonhos de qualquer adolescente dos anos 1980 e 90. Mas, hoje em dia, para além de ser dispendioso, demorado e de exigir um elevado número de cópias, deixou de fazer sentido, as pessoas consomem música de forma imediata. Para nós, o formato digital tem sido a única forma possível de poder chegar às pessoas e da nossa música ser ouvida em qualquer parte do mundo, mas fica sempre o desejo de um dia podermos ter um vinil ou CD e ficar a contemplá-lo. Isso é inevitável.

Um topo 5 de produtores que estejam a sentir neste momento.

Arca, Siete Catorce, Palmistry, Ryan Leslie, Only Now.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu