Billie Eilish na Altice Arena: a bad girl de 17 anos que ainda vai mandar nisto tudo

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Nuno Conceição / Everything is New

17 anos, um álbum e uma base de fãs gigante e devota (neste caso 20 mil pessoas), como qualquer grande estrela deve ter se quiser alimentar a máquina, chamemos-lhe assim. Mais alguns factos aleatórios sobre Billie Eilish que aparecem normalmente nas peças que lemos na imprensa nacional e internacional: os temas são feitos em conjunto com o irmão; teve aulas em casa; Dave Grohl, Thom Yorke e Flea são três dos ilustres da velha guarda que mostraram apreço pelo seu trabalho.

Se tudo o que dissemos anteriormente é importante para se perceber o fenómeno de popularidade, a verdade é que isso pouco importa quando falamos de música. E essa é, descrevendo de uma forma resumida, electropop minimalista e envolta num qualquer tom gótico/emo, o que obviamente traz comparações com artistas como Lorde ou Lana Del Rey. Porém, não se cinge a isso: existem ali apontamentos de The xx e Kanye West — o ritmo de “bury a friend” é claramente inspirado em “BLKKK SKKKN HEAD” e ao vivo confirma-se isso mesmo com os visuais a apontar para a estética do videoclipe da faixa de Yeezus. Atrás de si, o ecrã gigante ia passando animações que corroboravam com esse cenário de filme de terror com um filtro para menores — como se Tim Burton e os realizadores de Stranger Things se tivessem juntado para a ocasião.

As temáticas das letras passam pelas “dores” normais de crescimento: amores, desamores, certezas, dúvidas… E ter Justin Bieber, Avril Lavigne, Tyler, The Creator (que já demonstrou interesse em trabalhar com ela…), Childish Gambino e Lana Del Rey como referências principais terá certamente ajudado a criar um “monstro” difícil de catalogar…

Ontem, na estreia em Portugal, Eilish (acompanhada pelo multi-instrumentista Finneas e o baterista Andrew Marshall) demonstrou que há ali uma aura qualquer à sua volta que, sem conseguir recorrer à última da hora a algum espírita para o confirmar, se deve provavelmente à sua capacidade de soar honesta e vulnerável (qualidades ampliadas pela voz etérea e sussurrada) perante um público completamente histérico — e que muitas vezes engoliu a voz da artista nesses gritos — do primeiro ao último segundo. Não nos iludimos com a reacção popular, mas é a postura lá em cima que surpreende: vestida como qualquer rapper do início do milénio (as roupas largas e a joalharia não enganam), a atitude da cantora vagueia entre essa pose de bad girl e a adolescente que é, comandando a plateia com à-vontade pouco comum para a idade e juntando-se a ela quando, por exemplo, se sentou sozinha no palco para ver o videoclipe de “all the good girls go to hell“, lançado horas antes.

De WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?, os destaques vão naturalmente para as musculadas e imponentes “bad guy” (tocada a abrir e a fechar a actuação), “bury a friend” e “you should see me in a crown” — e esta última teve até direito a comedidos mosh pits encomendados por uma das próximas rainhas disto tudo. Também houve espaço para um abanar efusivo de uma bandeira arco-íris durante “wish you were gay” ou a reprodução do processo de criação de “i love you”, com os irmãos a protagonizarem o momento mais ternurento da noite enquanto se encontravam sentados numa cama içada no meio do palco. E, como pudemos comprovar pelo cenário à nossa volta, um concerto de Billie Eilish é um local seguro para qualquer pessoa, independentemente da idade, etnia, cor, género ou classe social. É mais fácil ser adolescente ali.

Numa era em que muitos de nós viajam para os mesmos sítios para fazer a mesma pose para a fotografia e/ou fazer o mesmo tipo de stories com a mesma música de fundo, é bom ver que existe uma adolescente nascida nessa engrenagem viciosa que se está pouco ralando para isso. Mesmo que pareça pouco, a sua existência por si só já representa um acto de rebeldia. Não sabemos para onde vamos quando adormecemos, mas Eilish, neste patamar ainda precoce da sua carreira, pode perfeitamente sonhar com o céu.

Antes da entrada do main act, o alumni de 2017 da XXL Freshman MadeinTYO ficou responsável pelo aquecimento de um público que, à partida, estaria mais preocupado com o que viria a seguir, ideia rapidamente refutada quando se ouviu, em uníssono e já com as bancadas cheias, as reacções a temas como “Look At Me!” ou “Moonlight”, ambos de XXXTentacion — o artista americano morreu há pouco mais de um ano, mas parece ter deixado obra suficiente para se tornar no grande mártir desta geração. Quanto ao autor de Sincerely, Tokyo, há pouco a acrescentar, caindo na mesma armadilha dos seus pares: vozes pré-gravadas, muitas canções de outros e pouca preocupação com a performance. E pensar que Denzel Curry e EARTHGANG foram os escolhidos de Eilish para cumprir esse papel em muitas das outras datas desta digressão…