benji price: “Nunca quis ser visto como alguém unidimensional”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

De forma totalmente inesperada, benji price publicou uma nova faixa intitulada “jörmungandr”. Numa produção de Hyzer, o artista da Think Music atirou-se a “hipócritas” e “imbecis” que estão “a mimicar o que era bom há 25 anos” e a “vir com pseudo-política”. Para muitos, a letra tem um alvo específico: Estraca, rapper que recentemente lançou “BoomBap“, tema que critica o estado actual da cultura hip hop.

Depois de uma curta “pausa” na parte das rimas — na altura retirou as três faixas que tinha lançado, mas agora voltou a disponibilizá-las –, o faz-tudo da editora encabeçada por ProfJam voltou em força e deu o pontapé-de-saída para mais uma época que se espera bastante proveitosa.

O Rimas e Batidas esteve à conversa com benji price e falou sobre o seu afastamento temporário dos versos, a nova música ou os seus planos para o futuro.

 



No ano passado anunciaste a tua “reforma” das rimas para te concentrares no resto, e até retiraste as tuas músicas do YouTube. O que é que levou a isso? Sentias que existia uma espécie de pressão sobre ti para assumires mais o teu lado rapper e quiseste afastar-te disso para te focares nas tuas outras funções?

Sim, sem dúvida. O projecto Think Music iniciou em 2016, como vocês sabem, ano esse que para nós serviu largamente para acumularmos na editora muito dos artistas que vocês conhecem hoje em dia, e na altura tínhamos estruturado um plano bastante firme de lançamento para 2017. No entanto, acabámos por dar um “blow up” muito superior àquilo que antecipámos, e basicamente estávamos a redefinir o plano de ataque quase mensalmente para responder à nossa realidade, que estava sempre a mudar. Não tínhamos metade dos recursos que temos hoje em dia (estúdio, equipamento áudio/vídeo), cada lançamento tinha de ser pensado muito cautelosamente e as coisas acabavam por sair lentamente devido a essa escassez de capacidades. Em menos de um ano, nós passamos de ser uma editora virtualmente desconhecida para estar a dar showcases em festivais de Verão e etc., e obviamente que isso muda as coisas — eu cada vez mais tinha menos tempo para dedicar aos meus projectos em nome próprio porque estava a querer dar o máximo de mim possível para o crescimento da editora, daí ter decidido fazer um hiato enquanto rapper para me focar mais em ser uma pessoa behind the scenes. Nunca quis ser visto como alguém unidimensional, queria fazer beats, fazer clips, etc., e eu senti que já tinha “provado” o meu valor enquanto escritor, o que me levou a querer concentrar noutras áreas sem ter a distracção de ter de lançar novas faixas.

“jörmungandr” é o regresso de alguém que tinha muitas coisas para dizer. E tem, obviamente, uma série de rimas dedicadas a um nome em concreto, que muitos acreditam ser o Estraca, mesmo que não uses o seu nome na letra. O que é que despoletou esta reacção?

O som é para quem é — é para alguns em particular e para todos a quem a mensagem atinja. Isto não é nenhuma espécie de beef, nem algo que a isso se assemelhe, são simplesmente divergências de opinião. Porque é que uma pessoa que também é agenciada, que também retira os seus rendimentos para se sustentar da música que faz, usa os mesmos mecanismos de promoção que os outros usam, se há-de querer separar do resto sob o pretexto de ser “mais real” ou “menos comercial”? Eu acho que esse discurso está datado e ultrapassado, da mesma forma que acho que não é a apontar o dedo aos outros e acusá-los disto e daquilo que a coisa chega a bom porto. Porque é que criticas os ouvintes e a popularização do rap se é graças a esses que todos nós fomos capazes de chegar onde chegámos? Porque é que o público mainstream não pode ouvir rap?

“Bro não tou a pedir que oiças/ tou a ver teu neurónio bem limitado/ e eu não tou pa ouvir hipócritas (…) como é que criticas rádios se vais ao swag on?”. Achas que no hip hop tuga ainda se confunde sucesso com facilitismo? E que os principais culpados dessa ideia são os auto-proclamados rappers “reais” e “conscientes”?

100%. Sempre achei, e continuo a achar, que o rap tuga é muito retrógrado na sua mentalidade, especialmente no que toca à “autenticidade” da música e que de alguma forma deve funcionar como máquina de propaganda de certas ideias. Música, e por consequência rap, é acima de tudo uma forma de expressão artística e uma forma de entretenimento. Nada é mais legítimo que outra coisa qualquer.

Aproveitando a deixa: este tema foi mesmo algo que tinhas de lançar e será caso único ou terás mais novidades deste género em 2019?

Não farei promessas, mas espero que não seja o único. Gostaria muito de lançar um projecto este ano. Tenciono continuar a produzir faixas de outros, mas tentarei ao máximo encontrar disponibilidade e inspiração para fazer mais temas meus.

Como é que revês o 2018 da Think Music e o que é podemos esperar para 2019?

Acho que tivemos um ano de afirmação incrível, e sinto-me profundamente orgulhoso de tudo o que conseguimos até agora. Quanto a 2019, faremos de tudo para que continuemos a ter o sucesso que estamos a ter e que ele siga crescendo. Vamos tentar ao máximo lançar música de qualidade da forma mais regular possível, e quem sabe até lançar um projecto de cada um dos nossos artistas, se os astros se alinharem. É esperar para ver.