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Fotografia: Direitos Reservados

O amor e a paz que existem na música (e na humanidade).

ben yosei: “Há muita beleza e muito poder em ser-se vulnerável”

Fotografia: Direitos Reservados

As Edições Fauve regressaram aos lançamentos em Junho com um novo trabalho de ben yosei. luz é um álbum que afasta o artista duma vertente mais experimental a que tem sido mais associado, e aproxima-o de uma pop espiritual de produção minimalista. O músico português, parte do Coletivo Colinas, já tinha também lançado outros projectos como Sanatur a deo e richard was airs and roses.

Em trabalhos anteriores, tais como katzen e red, ambos lançados também pela Fauve, o artista navegava por texturas mais avant-garde, de electrónica ambient e leftfield. Nesta caminhada, outros projectos conceptuais mais experimentais foram ainda apagados do mundo digital. Embora o músico não se orgulhe tanto desses discos, como nos confessou em conversa, reconheceu o valor dos mesmos como parte de uma pesquisa maior pela sua sonoridade.

Em luz, o uso de instrumentos “joviais” atribui ao álbum um carácter vulnerável, quase inocente, mas o processamento desses sons dá origem a texturas etéreas, mais maduras, que reforçam a espiritualidade que caracteriza o disco e a visão do seu criador. Noiserv, Radiohead ou Jim O’Rourke poderiam ser pontos cardeais nesta estética DIY de luz – o primeiro pela leveza melódica e harmónica, os outros pela edição sonora destes arranjos –, porém, o álbum demarca-se pela sua individualidade no contexto nacional, ombreando com outros cantautores portugueses pela sua originalidade.

Por cima desta folktronica ou ambient pop de cariz bucólico e espiritual está ainda a voz do artista (mais evidente que noutros trabalhos), que vê este como o seu instrumento predilecto, encontrando nele uma característica importantíssima: a sua unicidade. A expressão vocal surge imperfeita, mas com uma grande carga emocional. E é também aí que está a beleza de luz.



Há qualquer coisa de muito espiritual em luz. O que está por trás deste teu álbum?  

Sinto que é um disco que concretiza, sim, muitas das minhas crenças, grande parte delas mais inclinadas para a dimensão espiritual das coisas. O disco é, sobretudo, um documento intrapessoal e interpessoal do que foi a minha jornada até ao dia de hoje e como esta foi pautada por todas as pessoas, criaturas, entidades, forças que se cruzaram e inevitavelmente se entrelaçaram comigo enquanto ser humano, alma, espírito, organismo em constante expansão, etc. Tento sobretudo remontar à minha infância, tipicamente rural e portuguesa, ao longo do disco, enquanto a faço também atravessar os meus afectos actuais em forma de canções de devoção – à minha mãe (“materna”), à minha irmã de 9 anos (“menina”), à minha namorada (“a lua”), a Deus e ao arrependimento (“céu”), à humanidade (“cuidar”). E abordo a infância também por vê-la como algo muito espiritual. Sinto que crianças têm o melhor “grasp” de espiritualidade possível, dada a sua pureza, a sua inocência, a sua interconectividade e fusão sem filtro com tudo o que as rodeia, sem preconceito nem detrimento. Procuro preservar essa criança interior, e isso é também algo de muito espiritual para mim.

É difícil ouvir faixas deste trabalho individualmente, conceber cada uma sem que exista a sua continuação, porque tudo está muito ligado e com transições inteligentes. Todas faixas foram pensadas para funcionar numa audição continuada? A composição teve esse foco constantemente?  

Obrigado pelo elogio! Sim e não. A primeira coisa que fiz para o projecto foi o instrumental da “lua” e, na altura, o conceito seria fazer quatro ou cinco canções longas e separadas, mas todas pautadas pela inclusão de instrumentos joviais (caixas de música, xilofones, vibrafones, glockenspiels, teclados de brincar, etc) e de elementos musicais plinky e cintilantes – na altura o título provisório do disco era “dlim-dlãos”. Contudo, foi-se gradualmente transformando numa plataforma de expressão do amor e da compaixão que sinto para com a humanidade, inclusivamente acho que enquanto sociedade seria benéfico expressarmos mais esses sentimentos positivos, familiares, universais, nutritivos e carinhosos. Comecei também a deixar o meu amor por música e estruturas pop influenciar mais as minhas composições enquanto mantive sempre um foco em mood, atmosfera, coesão e sobretudo cor. O disco é muito azul e invernoso para mim, uma das razões pelas quais tenho a minha irmã na capa com um vestido de Elsa do Frozen. Fico muito feliz por te soar a um disco uniforme, completo e continuado! Tenho muito amor à arte do long-play album e da componente holística dos projectos musicais. É muito importante para mim. 

Quanto do que está neste disco é mesmo tocado e quanto dele são samples? Fala-nos um pouco do trabalho técnico e de produção do luz

Há um equilíbrio, acho eu. Há uma mistura de sampling e instrumentação feita de raiz em quase todas as músicas. Sou apaixonado por composição desde que sou gente – desde sensibilidades pop e electrónicas até a abordagens mais radicais dentro da música clássica, avant-garde, minimalista, etc – e quis polimerizar as minhas aptidões melódicas com samples de coisas que gosto. Por outro lado, sempre fui também apaixonado por sampling no geral e é das coisas mais fascinantes do mundo para mim. O reapropriar de um excerto musical e a transformação do mesmo em algo novo através da recontextualização é algo tão bonito e precioso! É também parte do que actualmente torna a música numa coisa mais transversal e conectada em todas as suas multiplicidades do que alguma vez foi. O Kanye West e o Person Pitch do Panda Bear particularmente foram duas das minhas gateways criativas desde o início das minhas aventuras musicais enquanto produtor. Mencionaria o Burial e o J Dilla como figuras importantes também, na sua atitude samplecentric aos conceitos de dubstep/garage e hip hop experimental/instrumental, respectivamente. 

O disco, apesar de um belo trabalho de sampling e (creio eu) found sounds, com harmonias e arranjos inteligentes, tem uma instrumentação contida e relativamente simples. Por vezes menos é mais. Porque quiseste abordar a composição duma maneira mais despida? 

Para além da influência minimalista que referi acima (ainda bem que disseste “less is more“, esse é o meu motto para basicamente tudo na minha vida – desde coisas simples como o que eu visto ou como organizo as prateleiras do meu quarto até coisas mais lofty como as minhas crenças espirituais, muito enraizadas em vertentes orientais de espiritualidade particularmente acerca das pequenas coisas na vida), acho que não fazia sentido de outra forma. Sobretudo desde o início quis que o disco soasse sereno, quiet, low-key e introvertido, mas também inegavelmente etéreo, expressivo, vocal acerca da sua vulnerabilidade e ressonante na sua humanidade. Todos os temas do disco apresentam algum tipo de fragilidade, acho eu, e acredito que essa mesma é também a nossa maior força enquanto espécie, de todas as pessoas. Há muita beleza e muito poder em ser-se vulnerável, em nos crermos e assumirmos bebés e velhotes a toda a hora e em simultâneo. Ser “cool” passa um bocado por isso, mesmo para mim, por ser aquático, fluido e nesse exercício ser-se delicado. Sobretudo gosto de acreditar que faço música humana. É isso que pretendo, que nessa vulnerabilidade que a minha música habita se faça sentir humana. 

Curiosidade: de onde vem o sample da “folclore”? Originou um loop muito fixe. 

Thanks! Até falo dos dois samples. O primeiro vem de um documentário incrível acerca das tradições culturais e folclóricas da Nazaré e dos seus ranchos, tenho muito amor aos ranchos provincianos portugueses – cresci numa aldeia e rodeado deles! – e a canção procura honrar um bocado esses sons e esse ethos tradicional. O loop vem de uma snippet breve de uma canção chamada “T R U S T”, do FAUXE. Saiu pela CHINABOT, uma plataforma colectiva que procura modificar e expandir o diálogo que contorna a música asiática no geral. Recomendo vivamente o disco I K H L A S em que essa canção se encontra – aliás, o catálogo inteiro dessa label! – e shout-out enorme ao meu amigo Telmo por me ter mostrado esse som e por consequente esse catálogo quando estudávamos juntos na faculdade em Coimbra. 

Há uma clara disparidade entre o luz e as coisas que lançaste para trás, tanto algumas mais experimentais (que já me tinhas enviado há mais tempo e eventualmente apagaste), como outras mais ambient com o teu heterónimo richard was airs and roses – ainda no catálogo da fauve. Vês estes heterónimos com personalidades e estilos diferentes?

Sim, a ideia na altura era mesmo serem heterónimos. Havia muita auto-mitologia envolvida também – LGBTQ+ era o meu lado mais combativo, furioso, bélico e obscuro, enquanto sanatur a deo remetia para uma espiritualidade bué self-condemning, ocultista, esotérica e profundamente obscura; richard was airs and roses era o comfy introspective poetry project que servia de outlet para uma destilação muito crua de sentimentos, etc. Era tudo muito experimental e, de certa forma, cada projecto desses é um dos vários baby steps que caminhei para chegar até aqui. Há referências no disco a todos os estilos que abordei sob esses heterónimos todos e que aperfeiçoei desde então, acho eu. Não tenho muito orgulho em nenhum deles actualmente, mas cada um foi importante enquanto uma stepping stone, I guess. Desfiz-me dessa auto-mitologia também, era tudo muito produto da minha introspecção. Acho que demasiada introspecção é quase sempre narcisismo by default. Procuro retratar também o que me rodeia e as coisas fora de mim mesmo – afinal, também as sou e elas são-me.

O que te fez abordar uma música mais acessível e de estruturas mais claras e objectivas? E, também, o que te fez trazer a voz para um plano mais central da produção? 

A minha ideia sempre foi ter a voz como plano central. Podia falar pelo meu amor por música coral, de throat singing, a capella, de inuit vocal games, de um grupo como os Le Mystère des Voix Bulgares ou de alguém como a Björk, mas vou tentar focar-me na voz em si. A voz humana muito provavelmente constitui o meu instrumento favorito, é o mais vulnerável e versátil de todos eles. Cada pessoa tem uma voz, cada voz tem um timbre, cada timbre tem várias inflexões, cada inflexão tem uma técnica ou uma emoção… a cadeia de associação e de virtudes nunca mais acaba. A voz é algo verdadeiramente mágico e emocionalmente carregado, eu sinto. Já com os instrumentais que tinha na altura fazia versões muito impromptu ao vivo com vocalizações diferentes de gig para gig, e já haviam indícios de um romance entre mim e a voz nalgumas das minhas cenas antigas. Sinto que tenho coisas importantes a dizer, palavras importantes para comunicar, coisas pertinentes a acrescentar à linguagem enquanto veículo e muita fraternidade para expressar. Sinto também que devemos todos cantar mais e de forma cada vez mais sincera, comungar mais de forma cada vez mais despida e vocalizarmos mais os nossos princípios, ideais, sentimentos, etc. É vital e beneficiaremos todos disso, eu acho. 

Que projectos tens para um futuro próximo? Tens alguma colaboração em vista, também?  

Musicalmente? Estou à procura desse comungar que referi anteriormente, desse sentido de comunidade, de consciência universal e de comunicação e expressão através da coisa linda, sublime e maravilhosa que é o som, que é a música. Quero sobretudo colaborar com amigos, como o Miss Portugal, o Miguel Coutinho, o Francisco Oliveira, toda a minha irmandade no Coletivo Colinas, gente dentro da minha periferia na realidade, mas também estou a conceptualizar outras colaborações mais high-profile, I guess. Tenho um projecto colaborativo muito ambicioso em mente para daqui a uns bons tempos e anseio o dia em que finalmente o possa mostrar ao mundo. Porém, procuro sobretudo tirar um período da minha vida para reflectir e ser mais pessoa, descobrir mais música, ler mais, educar-me mais acerca do mundo que me rodeia, nutrir-me cada vez melhor espiritualmente, cultivar paz e harmonia em mim mesmo e nos outros, ser melhor para as pessoas e para o mundo à minha volta e crescer nele e com ele. Espero que o luz manifeste e transmita exactamente isso, a minha devoção e gratidão a tudo o que há, a todos os que vivem e a todo o amor que existe no mundo. Espero que seja um “obrigado”. É isso que tenho a dizer, que sou muito grato e que me sinto abençoado. Esta conversa em si é uma bênção, obrigado. 


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