Beaver & Krause // In A Wild Sanctuary / Gandharva / All Good Men

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Quando Paul Beaver e Bernie Krause editaram In a Wild Sanctuary em 1970 a música electrónica existente fora da academia ainda era uma realidade rara, mas a dupla já tinha história e poderia considerar-se veterana na imposição de uma outra via para a então nascente música electrónica, paralela à que vinha sendo desenvolvida desde os anos 50 por instituições como o Groupe de Recherche Musicales em França, o Radiophonic Workshop da BBC em Inglaterra, o San Francisco Tape Music Center ou os estúdios de investigação situados na Holanda com ligação à Philips ou em Colónia, na Alemanha, onde Karlheinz Stockhausen explorava novos caminhos.

A edição de The Nonesuch Guide to Electronic Music logo em 1968 colocou a dupla Beaver & Krause na dianteira da música electrónica de apelo mais amplo e popular. A dupla ainda editaria Ragnarok (Electronic Funk) em 1969 na Limelight antes de marcar a entrada dos anos 70 com uma trilogia para a Warner que a Cherry Red agora reúne neste duplo CD.

O pioneirismo de Paul Beaver e Bernie Krause ficou a dever-se à sua íntima ligação a Robert Moog de cuja companhia foram representantes de vendas na Costa Oeste, funcionando os seus discos então como um conjunto de demonstrações práticas das capacidades revolucionárias dos instrumentos que o pioneiro da síntese electrónica então desenvolvia na sua pequena oficina de Trumansburg, em Nova Iorque. As origens de ambos eram, no entanto diversas: Krause tinha sido manager e parte dos Weavers, um grupo de folk, e produtor na Elektra, ao passo que Beaver, profundamente interessado em Cientologia e OVNIs, tinha um passado de músico de jazz. O interesse de ambos nas nascentes possibilidades da música electrónica e a sua ligação à Moog levou-os a colaborar em gravações muito distintas, de George Harrison à Mystic Moods Orchestra, da banda sonora de culto para The Trip ao clássico Psychedelic Percussion do recentemente desaparecido Hal Blaine, da banda sonora de Performance de Mick Jagger a pequenos ruídos em The Notorious Byrd Brothers dos Byrds.

Depois do sucesso de Walter (mais tarde Wendy) Carlos com Switched On Bach, lançado também em 1968, provou-se a versatilidade dos módulos Moog como instrumento, a sua capacidade de executar peças escritas originalmente para outros instrumentos, mas não se tinha ainda procurado ainda uma nova linguagem musical pensada à medida das suas características específicas. Uma nova máquina era, afinal de contas, capaz de falar uma nova língua. 

O trio de lançamentos que Beaver & Krause assinou em 1970, 1971 e 1972 integra um mais amplo esforço por parte de uma série de pioneiros que, dos dois lados do Atlântico, procuravam impor os novos instrumentos electrónicos não apenas como ferramentas ao serviço de uma visão mais académica e cerebral da música, não só como mais uma peça no arsenal tímbrico de outros géneros musicais (como acontecia no prog-rock ou nalgum jazz de fusão), mas também como interfaces para uma nova música, mais vincadamente electrónica.

Uma das mais evidentes marcas destes álbuns de Beaver & Krause é o seu entendimento do estúdio como um instrumento, tal como a década de 70 viria a definitivamente impor graças a experiências conduzidas por visionários como Brian Eno. 

In a Wild Sactuary, o registo de 1970, nasceu, de acordo com as notas de capa desta reedição assinadas por Dave Henderson, de conversas que a dupla manteve com o arranjador Van Dyke Parks em torno do tema da ecologia (assunto premente no arranque dos anos 70, era que assistiu ao nascimento da organização não governamental Greepeace e à crescente consciencialização de criadores como Marvin Gaye que, na sua obra magna de questionamento dos rumos do mundo, What’s Going On, de 1971, incluiu o belíssimo “Mercy Mercy Me (The Ecology)”). 



Em estúdio, para a criação deste clássico, o grupo recorreu a gravações de campo manipuladas em fita, diálogos, instrumentos convencionais da música pop que traduziam a inclinação psicadélica dos tempos, e, claro, Moogs e efeitos, num declarado gesto de procura de uma nova linguagem que, a espaços evoca até algumas das marcas “ambientais” mais tarde reclamadas pela new age. Este é, sem dúvida, o mais “electrónico” dos três registos, aquele em que a música surge mais liberta de tipologias convencionais e se aventura por zonas desconhecidas.

Em Gandharva a dupla gravou em parte na Grace Cathedral de São Francisco, fazendo uso do reverb natural do espaço, e recorreu a músicos de jazz e blues estabelecidos, como Gerry Mulligan, Bud Shank ou Mike Bloomenfield, para a construção de uma suite apoiada em modos mais tradicionais, do jazz ao gospel. A Rolling Stone compreendeu a ideia da dupla e descreveu Gandharva como “uma mistura de Moog, Bloomenfield, gospel, Gerry Mulligan, Howard Roberts e Bud Shank, banhada pelo sol e ecoada pelas paredes da Grace Cathedral”.

Para o terceiro elemento do tríptico, All Good Men, a electrónica manteve-se em modo subtil, com o duo a parecer dar um passo atrás nos seus impulsos mais exploratórios. O disco, que era descrito nas notas de capa originais, como sendo composto por “vozes, cordas, Bach, melodias, letras, spoken word, Scott Joplin e, claro, o Moog”, mas aí deixava-se também claro que “isto não é uma pilha de ‘bloops’ e ‘squishes’, mas corpos quentes e sons bonitos, canções reais com melodias intemporais”. A real recompensa da audição de All Good Men, no entanto, reside na “leitura” das entrelinhas, nos pequenos efeitos, na manipulação de algumas vozes que antecipa o que se viria a fazer mais tarde com algum sampling, na aplicação de efeitos e na integração dos moogs nos arranjos mais convencionais, como fica claro no tema “Between The Sun and the Rain” cujo título parece remeter para a tentativa da música percorrer a distância entre o samba/bossa nova do Rio de Janeiro e o jazz que se criava na Costa Oeste da América, com as paisagens planantes do Moog a ditarem o arranque da viagem.

Depois do trabalho na Warner, o duo regressou a território mais experimental e começou a trabalhar num sucessor para o seu trabalho de estreia, The Nonesuch Guide to Electronic Music, mas o trabalho nunca foi concluído ou editado devido à morte prematura de Paul Beaver em 1975, quando contava apenas 49 anos.

O regresso do duo a projectos mais exploratórios obriga-nos, no entanto, a questionar, se o compromisso entre a sua vontade de imposição de uma nova linguagem electrónica bem fundamentada em In a Wild Sactuary e depois crescentemente abandonada nos mais convencionais registos seguintes não se terá ficado a dever ao facto de estarem a trabalhar integrados numa major que imprimia aos seus projectos requisitos necessariamente comerciais.

Este duplo CD contém por isso um trio de documentos de uma época específica, claramente datados, mas ainda assim de profundo interesse para quem queira compreender como as novas tecnologias eram aplicadas na música no arranque da década que nos haveria de dar os Kraftwerk e os primeiros passos em direcção a uma pop sintetizada que nunca mais nos abandonaria até aos dias de hoje.

Parte desta música poderá escutar-se aqui.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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