pub

Fotografia: Sara Falcão

Com aterragem prevista para Setembro.

Beatbombers x Carlão: sonhos concretizados, álcool-gel e “Aviões”

Fotografia: Sara Falcão

“Até sinto falta do autocarro que atrasa/ Faz tudo parte de um puzzle gigante” – para o qual, nos últimos meses, perdemos algumas peças. A pandemia pode não ter fim à vista e os seus efeitos no mundo artístico não se esquecem, mas nem por isso escasseia a vontade de a cristalizar criativamente. E é essa a âncora do novo e glacial single dos Beatbombers em parceria com Carlão.

“Aviões” é o primeiro lançamento de DJ Ride e Stereossauro, enquanto dupla, desde o seu LP conjunto de 2017. Não é um regresso momentâneo: para além de ser a materialização de uma colaboração aguardada, é a notícia de um EP que mantém este elenco em todas as faixas – com possíveis convidados, conforme o que decidirem nas últimas gravações, antes da edição planeada para Setembro.

Até lá, é esperar que o mantra do novo tema seja realmente presciente: “Sei que vai ficar tudo bem”. O Rimas e Batidas voltou ao software oficial da pandemia para videoconferências e falou com o trio, que não deveremos ver subir aos palcos tão rapidamente: para citar Stereossauro, “de momento, ainda não podemos estar os três juntos a beber uma jola, por isso acho que não vamos dar um concerto.”



Temos aqui o vosso primeiro encontro a três – embora o Stereossauro já tivesse fisgado o Carlão para o single “A Noite” [com Marisa Liz; lançado em Fevereiro de 2020]. No Instagram, as palavras do Ride davam a impressão de que se riscou finalmente o nome do Carlão na bucket list de Artistas Com Quem Quero Colaborar.

[Ride] Sem dúvida, pá.

A decisão é recente?

[Stereossauro] Estamos sempre atentos e a falar do que está a acontecer. Apesar de não estarmos a fazer nada neste sentido há dois ou três anos, cada vez que encontrávamos o Carlão algures ou num concerto, era aquela cena: “Epá, um dia temos que fazer cenas com este gajo”. Se calhar ainda não nos tínhamos sentado a delinear um projecto, foi fruto de casualidades. Comecei a trabalhar com o Carlão num tema e entretanto não lhe mandei só esse instrumental, fui enviando mais, e ele foi gostando de uns quantos. A coisa foi começando a ganhar uns contornos… Nisto, claro que dei logo o toque ao Ride: “Olha, o Carlão está a pedir-me instrumentais, ‘bora aí…”

[Ride] Fiquei cheio de inveja.

[Stereossauro] Comecei a mandar-lhe temas, com mais frequência, a meio de 2019.

[Ride] Quando estava a fazer o post no Instagram, taggei o Carlão e andei para cima, e eu já lhe tinha mandado uns beats para aí em 2018 [Carlão ri-se]. Na altura, ele já estava acabar o álbum (Entretenimento?), porque, na realidade, não estavam tão bons como agora, estás a ver?

Pensava que isto ia ser um momento de intriga: “Carlão ignora DJ Ride”…

[Ride] Ainda bem que não chegámos a fazer nada, porque agora todos os beats – falo dos beats porque é mais a nossa praia –, em comparação àquele pack que eu tinha mandado há uns anos… E a mesma cena [para o] Stereossauro, de certeza que os beats que agora tem sofreram um upgrade. Era um sonho fazer alguma coisa com o Carlão. Veio do single do Stereossauro (“A Noite”), ele disse-me que estava a mandar uns beats, e, no início, até foi naquela de “pode ser que eu tenha sorte”, mas via [aquilo] como uma cena só dos dois. Depois, comecei a envolver-me mais, eles escolheram mais beats meus, e fez mais sentido ser Beatbombers. E estamos aqui hoje.

[Stereossauro] Epá e se não fosse, tu ias chatear-te bué…

[Carlão] Eu tenho as minhas dúvidas se os beats de 2018 eram mais fracos. Se calhar, eram bons para aquela altura e um gajo trabalhava por cima deles… Com “A Noite” também foi assim: foi um beat que o Stereo já tinha há uns tempos, curtiu, mas acabámos por fazer… quase só um ano depois?

[Stereossauro] Foi. Na altura que te enviei, estavas a trabalhar no teu disco. É sempre aquela cena… Andámos a trocar [impressões] durante um ano, na boa.

[Carlão] Isso acontece-me bué com beats, como acontece com livros, com filmes… Às vezes, estás mega busy: ou não tens tempo para ver ou ouvir bem a cena, ou então não estás naquele mindset. Ou até textos meus que vou recuperar, na altura não deu em nada, mas depois há uma coisa ou outra que rende. Eles fazem beats que vão em direcções e vibrações diferentes, mas aqueles que me puxam mais para escrever têm ambientes cinematográficos: que um gajo ouve e automaticamente a minha cabeça começa a mandar sinais, dicas, porque parece que estás dentro de um filme. Para mim, no que toca a música, isso é daquilo que me dá mais pica.

[Stereossauro] É o próximo passo. Agora é o EP, o próximo passo é uma curta-metragem [risos].

O processo foi linear, primeiro o beat e depois a melodia e as letras do Carlão?

[Stereossauro] Mais ou menos, até porque isto começou com uns loops. Foi sendo construído a par e passo…

[Carlão] Há um beat, às vezes é só um loop, como o Stereo está a dizer. Um gajo faz ali alguma coisa, eles bulem por cima, eu volto a bulir por cima do bulido: é uma bola de neve.

Podemos falar já desta música. Embora o projecto esteja a ter uma longa gestação, mas o “Aviões” dá a sensação de ter acontecido há um mês.

[Carlão] Mas foi, mas foi! Já estávamos a bulir em coisas há uns tempos, mas este tema surge mesmo na quarentena. Eu estava a fritar em casa, peguei num dos beats deles e não conseguia — até tinha outras coisas que já tínhamos começado antes –, mas não consegui pegar nelas, porque estava mesmo fixado naquele momento. Acho que não fui o único, ouvi pessoal a dizer que não conseguia criar nada de novo. Porque um gajo estava ali mesmo num mindset lixado: não podias sair de casa, gigs parados… Foi muito difícil, para mim, fazer alguma coisa que não tivesse a ver com o momento que estávamos a passar.

Por outro lado, lembro-me de ligar ao Stereo e dizer ‘estou aqui a fazer uma cena sobre o beat, mas não queria nada que saísse já neste momento. Se calhar, preferia que saísse mais para a frente’. Na minha cabeça, até estava a ver isto muito mais para a frente. Mas de todos os temas que temos, fazia mais sentido avançar com este, e foi o que fizemos. Mas foi mesmo concebido em plena pandemia.

Dá para reparar: “Ir ao pão agora sabe ao excursão”…

[Stereossauro] Nota-se ali o álcool-gel, não é? [Risos]

[Ride] Ainda está super actual e, infelizmente, durante uns tempos, vamos continuar todos a sentir o que o Carlão escreveu.

[Carlão] Mas se o fôssemos largar quando foi feito, que um gajo nem podia sair de casa, ia ser bué de cortar os pulsos. Então, [agora] até é fixe, porque até podemos olhar para isto tipo “ya, já está a passar”.

Este período deu-vos algum impulso para acabar tudo e preparar o lançamento?

[Stereossauro] Impulso não sei. Acaba por ser também um escape, porque estás concentrado a trabalhar, não é aquela coisa do “isto motivou-te para…” no caso do EP todo. Pelo menos do meu ponto de vista, é estar com a mente noutros assuntos e até é um bocado terapêutico estar a fazer beats.

[Carlão] Sem dúvida. E a verdade é que um gajo estava em casa, não tinha grande cena para fazer. O meu confinamento foi um bocado lixado: tenho duas filhas que são novas e um gajo não tem quase tempo nenhum. Mas todo o tempo que tinha disponível era para bulir nestes sons e salvou-me ali um bocado alguns dias, porque estava mesmo a fritar.

[Ride] No meu caso, a música foi também um escape, uma terapia. Isto foi um timing lixado: consegui um deal com uma agência asiática, e fiz uma tour na Ásia o ano passado e ia lá este ano quase de certeza. Em princípios de Janeiro, ia anunciar o meu regresso, mas depois comecei a ver cenas de Wuhan no Twitter… Eu dizia ao pessoal em Portugal e riam-se, “epá, achas mesmo? Essa cena nunca vai chegar aqui…” Nas primeiras três semanas, eu já andava a acompanhar as primeiras notícias do vírus.

[Stereossauro] Já sabes quando é que vai acabar também? [Risos de todos]

[Ride] Quando rebentou em Portugal, não conseguia fazer quase nada. Fiz cenas automáticas como misturas e masterizações, que não é preciso puxar muito pela cabeça numa cena criativa. Acabei músicas, uma beat tape, algumas colaborações, mas demorei bué a começar cenas do zero. Se acordava e ia ver as notícias, isso ia estragar-me o dia todo; assim que eu comecei a tentar desligar-me ou usar mais a música como terapia, as cenas fluíram um bocado mais. Por um lado, criei várias cenas novas na altura do confinamento, mas claro que não foi o meu melhor trabalho. A cabeça está noutro lugar…

[Stereossauro] Não é uma coisa linear, até porque estamos todos a levar com isto pela primeira vez. Está tudo a aprender à medida que a coisa vai acontecendo. A primeira semana, ya, achava que ia fazer bué cenas; na segunda semana, não fiz nada; na terceira, também não sabia muito bem o que é que andava a fazer. Até começar a produzir de um modo mais steady, esse começo foi em modo automático, não saía grande coisa.

Há quem pense no confinamento como um prolongamento natural do artista, mas depois vai-se a ver…

[Ride] Para mim, estar fechado em casa é uma cena normal. Não tenho filhos, não vivo com outra pessoa…

[Carlão] Cabrão. [Risos de todos]

[Ride] Se tivesse família, se calhar teria atrofiado bué. A cena do isolamento não me afectou, porque quando um gajo não tem gigs, tenho sempre bué trabalho no estúdio e sou capaz de estar duas ou três semanas em casa e só saio para ir comer. Agora, a questão é saberes que está tudo na merda, à tua volta. Estares preocupado com os teus pais… O meu irmão, em Fevereiro, estava na América; eu já estava a ligar-lhe todos os dias para ele voltar. Saber que tenho zero receitas desde Fevereiro, mas a nossa agência, os nossos técnicos e amigos também – há muito pessoal aí a passar bué mal agora. Isso afecta-te, não tanto o isolamento…

[Carlão] Mas o contexto todo.

Todos os artistas tiveram que remodelar a agenda – o Ride deu o exemplo com a tour asiática. O que é que antevêem na promoção deste trabalho? Planeiam apresentá-lo ao vivo ou arranjar uma alternativa?

[Stereossauro] Por acaso acho que não ponderámos ainda muito isso. É como eu te estava a dizer, estamos a reagir à medida que as coisas estão a acontecer. Esta semana, vem um político anunciar o desconfinamento daqui a um mês; três dias antes disso, já há uma alteração… Não vale muito a pena estar agora a planear actuações ao vivo. Se acontecerem, é uma coisa que, com o nosso background, rapidamente conseguimos pôr o espectáculo na estrada, fácil. Mas não estamos ainda a “sofrer” por antecipação.

[Carlão] Tal e qual, meu, há umas semanas seria impossível pensar que ia ver o Dino ao Campo Pequeno, por exemplo. Não havia Santos para ninguém, já ouvi na rádio, “ah, afinal pode haver Santos, desde que o pessoal se controle”. [Risos]

Vi há cinco minutos que afinal não…

[Carlão] Estás a ver? Não dá para fazer planos. A sério? Que cena.

[DJ Ride] Nós vamos ter a oportunidade de apresentar isto ao vivo, agora não sabemos quando, né? Mas um gajo também não pode parar. Um gajo tem que continuar a mandar sons, se as estão pessoas atentas ou não, isso depois vem um bocado por acréscimo mas temos que continuar a fazer música. É a única cena que um gajo sabe fazer. [Risos]

[Stereossauro] Basicamente, de momento, ainda não podemos estar os três juntos a beber uma jola, por isso acho que não vamos dar um concerto. [Risos de todos]

[Carlão] Mas a ideia que está a passar por aqui é, em Setembro, largarmos mesmo o EP. Quatro ou cinco temas, para já, e estamos a trabalhar com esse objectivo [em mente]. Estamos realmente numa altura que é difícil ter outros objectivos para além desse, porque isso é uma coisa que está dentro do nosso controlo, por assim dizer. Podemos ter uns temas, finalizá-los, masterizá-los e largá-los cá fora, tudo o resto um gajo vai gerindo. Sempre a pensar no melhor.

Carlão, tu tens passado por vários estados de espírito durante esta pandemia: lançaste um “Assobia Para o Lado” quando tudo isto rebentou, deixaste um desabafo no dia 3 de Junho à volta do racismo e do Black Lives Matter e agora dás-nos este tema em que cantas que sabes que vai ficar tudo bem mas onde também reflectes sobre as mudanças na nossa vida (e o tom da música é mais melancólico do que alegre). Neste momento encontras-te onde? No espectro do pessimismo ou do optimismo?

[Carlão] Depende da hora do dia [risos]. Mas é um bocado isso. Se fores ver o meu último disco, o Entretenimento?, eu tenho momentos em que digo “quero é viver para sempre, embora lá, e isto tudo é bom”, como tenho momentos a assumir que tive sempre tendências auto-destrutivas. E a minha vida tem um bocado disso tudo.

Eu até posso resumir isso só num dia, que é acordar bem disposto, e chego à hora do almoço e já estou ali noutro frame of mind porque as coisas também vão acontecendo. Então, para mim, se tu fores olhar só para os singles, podes dizer que um gajo está mais virado para um sítio, mas isso não é verdadeiro. Quer dizer, é verdadeiro mas não pode ser generalizado. Em relação a este EP, acho que tem tudo uma certa…

[Stereossauro] É um bocadinho dark.


pub

Últimos da categoria: Entrevistas

RBTV

Últimos artigos