BEAT FEST 2018 – Dia 2: a história é escrita pelos vencedores

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] dane_santoz

Ao segundo dia de BEAT FEST a festa não baixou de intensidade, apesar da dimensão mais contida do cartaz: apenas três nomes contra as cinco propostas do dia anterior. Ainda assim, uma evidência — os cartazes, como de resto os homens, não se medem aos palmos e TNT, Kappa Jotta e Slow J provaram, cada um à sua maneira, estarem mais do que à altura do desafio de manter o clima de festa imposto nas duas noites anteriores.

Kappa Jotta assinou o momento mais intenso e enérgico da noite. Secundado por DJ Maskarilha, o MC da “linha C” correu incansavelmente por toda a extensão do palco preenchendo-o com um carisma do tamanho do mundo a que o público respondeu desde o primeiro momento.

Antes de pisar o palco, o autor de Ligação deu espaço ao seu DJ para preparar o caminho para a viagem em que levou os milhares que preencheram a totalidade do recinto. De Chullage a Nigga Poison, houve espaço para uma série de clássicos. Mais tarde, em entrevista no estúdio da Antena 3 montado no recinto, o homem de “Fala a Sério” não deixou de reclamar a filiação na grande escola do hip hop tuga que tem óbvios expoentes em Sam The Kid ou Valete. Mas é também inegável que Kappa habita o seu próprio mundo e que vive das suas próprias histórias, feitas com memórias de uma vida que o próprio não esconde ter sido complicada.

Enérgico, de tronco nu que traduz uma entrega física total à sua arte, Kappa Jotta agitou a multidão, ofereceu bangers atrás de bangers, mostrou domínio total de um arsenal poderoso de flows e sempre com o volume no “vermelho” elevou a temperatura já de si alta demonstrando em 60 imparáveis minutos que a sua ligação a este público, que sabe de cor todas as suas letras, é algo de real que traduz muito trabalho. A felicidade estampada no seu rosto e as constantes referências aos fãs como “família” confirmam o claro triunfo num evento que ele mesmo descreveu como “histórico”. E a História, dizem os entendidos, escreve-se pelo punho dos vencedores.

 



A noite começou bem mais tranquila. TNT, rapper da margem sul, homem do leme da Mano a Mano, apresentou-se à frente de uma ultra sólida banda: DJ Sahid nos pratos, Pedro Martinho no baixo, Rui Berton na bateria e Serge Piolho nos teclados, mais o verdadeiro ás-de-trunfo que responde ao nome AMAURA (que teve direito a interpretar “Blues do Tinto”, verdadeira prova de força carregada de alma). Juntos, TNT e a sua banda, mais um grande Quaresma na mesa de mistura, ofereceram uma série de momentos do grande Menino de Ouro e um par de clássicos como “Fodi o Rap” que colocaram perante o público do BEAT FEST uma outra história do grande livro do rap tuga.

E isso é o incrível deste cartaz: um TNT mais boom bap, um Kappa Jotta mais sintonizado com o presente e um Slow J a fazer o que só o Slow J sabe fazer, cada um com uma muito personalizada proposta, cada um a apontar um caminho, cada um com uma fórmula muito apurada. O homem de Almada que nos mostrou de que se faz o seu “MS Pride” exibiu segurança, doses reforçadas de musicalidade e até ambição transformativa — delicioso o momento em que o seu DJ pega num clássico dos Pink Floyd para sublinhar o que é óbvio em “Rei dos Gazeteiros”: todas as gerações acharam a dada altura que a escola da vida ensinava pelo menos tanto como a escola real… Muito bom, o concerto de TNT.

 



E Slow J: o artista que provou saber orientar-se na perfeição nos altos voos que lhe propôs um festival de primeira linha como o Super Bock Super Rock recusou a eventual “armadilha” de se apresentar num cartaz que ergue alto a bandeira do hip hop tuga dizendo que “é um prazer trazer guitarras para um festival de hip hop, tal como é um prazer levar o hip hop para outros festivais”. Slow J tem, pois claro, a cabeça no sítio certo. Com a habitual companhia de Fred na bateria e de Francis Dale nos teclados, João Coelho canalizou algo do espírito de Kurt Cobain, fez derivas mais instrumentais, agradeceu aos artistas que o precederam, riu-se e emocionou-se, como sempre, e deixou, mais uma vez, em pratos limpos o seu carácter singularíssimo. Slow J só é igual a Slow J, mas já não há dúvidas que há vários Slow Js dentro daquela cabeça.

O final da noite foi carimbado por outro veterano, DJ Kwan, um mestre dos pratos, que sabe muito bem com quantos hits se faz uma festa rija. Na Ribeira da Venda, Comenda, ninguém arreda pé. Não é costume as pessoas arredarem pé quando a História acontece assim, em directo e feita pelas pessoas certas. É o que parece estar a acontecer aqui. Falta uma última jornada. E fecha-se o capítulo de um livro que pode muito bem vir a transformar-se num bestseller. Vale uma aposta?

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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