BEAT FEST 2018 – Dia 2: Youthone e a arte de pintar o hip hop

[TEXTO] Bruno Martins [FOTOS] dane_santoz / BEAT FEST

Na segunda noite do festival de Comenda, Gavião, preenchida com actuações de Slow J, Kappa Jotta e TNT, concentrámos atenções na performance de um dos pioneiros da cultura que há 30 anos espalha mensagens carregadas de cor nas paredes de todo o país.

O writer Youthone foi o convidado da organização do BEAT FEST para trazer uma das vertentes da cultura hip hop até ao Gavião. “Estou a mostrar uma das vertentes mais antigas da cultura em Portugal… talvez antes do rap tenha aparecido o graffiti”, recorda Youth numa conversa com o Rimas e Batidas. Adalberto Brito — o nome de baptismo — tem passado as noites de BEAT FEST, na Ribeira da Venda, a deixar-se inspirar pelas batidas que vêm do palco. “Eu costumo pintar de auscultadores nos ouvidos. Aqui não é preciso, porque o power vem do palco”, conta-nos, entusiasmado enquanto TNT vai cuspindo barras para a plateia.

O estaminé está montado ao lado do contentor-estúdio da Antena 3 e é lá que pinta algumas telas com temas dedicados ao festival. “Cada dia serve para representar uma vertente do hip hop. Ontem [sexta-feira] pintei a cara do DJ Nel’Assassin e outro DJ em character. Hoje [sábado] estou a fazer a cara de um alentejano com uma lata de spray, a representar o graffiti. E aqui vou fazer algo mais relacionado com um b-boy. Amanhã é sobre outra figura do hip hop: os MCs.”

 



Ao mesmo tempo que vai pintando telas, Youthone aproveita para dar dicas ao público do BEAT FEST que se aproxima do seu trabalho. “É uma experiência agradável, porque estou a transportar algo que já faço há muitos anos para uma zona geográfica onde não há. Há pessoal que dá traços, mas se calhar não vêem isso como arte.”

Curiosamente, em 2018, ano em que acontece este primeiro grande festival dedicado exclusivamente ao hip hop, Youthone também está a celebrar algo importante: 30 anos rodeado de latas de spray de tinta. “Foi em 1988 que comecei mesmo a pintar! Celebrámos os 30 anos, há uns tempos, com um grande wall of fame”, mas o writer não enjeita que esta vinda ao Gavião também possa passar a fazer parte dessa celebração de três décadas de graffiti.

O graffiti é hoje incluído no pacote da street art. Salta das paredes para as galerias de arte e isso é algo que também deve ser celebrado “É a arte do século XXI. A coisa está a andar”, diz. “Mas na verdade isso sempre existiu. Vai haver sempre exageros, vai haver sempre exploração. Temos é que olhar para parte positiva disto. Eu tento não perder a característica do graffiti: o lado urbano e uma mensagem positiva de luta”. Estabelecendo um paralelo, é como se Youthone continuasse a ser do boom bap, mas sem renegar o trap. “Há trap bom, mas também há mau. O que interessa é a maneira como o artista transforma a sua música.”

 


Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.