BEAT FEST 2018 – Dia 1: fez-se história em Comenda, Gavião

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] dane_santoz / BEAT FEST

Foram muitos os quilómetros percorridos, A23 a fora, até se chegar a Gavião, primeiro, e Comenda, logo depois. A típica paisagem do Alto Alentejo, no entanto, não prepara ninguém para a chegada a um pequeno paraíso, cheio de sombras e árvores, servido por uma piscina fluvial que é uma verdadeira benção em dia de temperaturas recorde.

Muitas tendas, azáfama típica de arranque de festival, muita gente nova, muitos mergulhos e, sobretudo, muita expectativa era o que se sentia no recinto, bem recheado com os campistas que já tinham sido preparados para o dia de arranque desta festa do hip hop com actuações de Gijoe, Álcool Clube, Kristóman e Sacik Brow. Mas mais gente foi chegando ao longo do dia.

O BEAT FEST, não restam quaisquer dúvidas, é uma aposta mais do que ganha, a prova definitiva de que o hip hop é a mais forte marca identitária desta geração e já não apenas fenómeno de tribos urbanas. Veio gente de todo o país para esta celebração e todos os músicos, sem excepção, ao passarem pelo estúdio da Antena 3, a rádio oficial do evento, deixaram testemunhos de uma energia especial que se sentia no palco e em todo o recinto: “senti algo assim uma vez no Hard Club”, confessou Phoenix RDC, “mas hoje posso dizer que foi igual”.

O primeiro a testar as águas foi Cálculo, homem do Norte que neste quente centro do país deixou bem explícito que esta é uma cultura que abraça todos os sotaques. Os temas de Tourquesa fizeram a parte de leão de uma actuação especial, com banda expandida com músicos, bem entrosados e perfeitamente harmonizados com os beats de recorte clássico do também produtor barcelense. “Iguais”, tema com Harold, marcou uma certíssima actuação que serviu de entrada para um banquete carregado de iguarias.

 



Phoenix RDC trouxe DJ e duas seguríssimas vozes de apoio para desfiar as suas histórias cheias de vida, rua e realidade. O rapper que confessou estar a jogar em casa – “cresci em Beja”, revelou – tem vindo a escalar de forma progressiva a grande pirâmide do rap tuga e está cada vez mais próximo do topo. A forma como o público agarrou nos seus refrões é forte indicador do alcance das suas rimas. Depois de deixar o palco, Phoenix RDC deixou a tocar no PA um tema dos seus vizinhos de Vialonga, Wet Bed Gang, que a multidão entoou a uma voz.

Quando os GROGNation iniciaram a sua apresentação já o recinto estava praticamente preenchido, sentindo-se entre as pessoas uma energia fortíssima. Ao contrário do que sucede em tantos outros festivais — em que a música é apenas um entre muitos argumentos para convencer as pessoas a adquirirem um bilhete — em Comenda não parecia estar uma única pessoa por acaso: todos sabiam ao que iam, todos estavam dispostos a dar tudo pelos artistas em cima do palco. Ou pelos que soaram apenas no sistema de som entre actuações…

 



A recta final da noite, com Mishlawi em palco com a sua poderosa banda, foi entusiasmante: o homem de “Limbo”, “Boohoo” ou “What’s Happening” manteve a temperatura bem alta, espalhou charme e competência e obrigou toda a gente a dançar. Quando chegou a “Ignore” já não dava mesmo para ignorar que esta era uma noite para se fazer história. Tudo certo para o ponto final perfeito com Piruka, quando a madrugada já ia alta.

Apesar da inexistência de rede móvel no recinto, pesada factura da interioridade que já está a ser corrigida, os ecos deste arranque do BEAT FEST hão-de certamente espalhar-se pelo país. Os artistas levam todos de Gavião a certeza de que esta é a cultura que mais consensos reúne neste momento, uma cultura para que todos eles, sem excepção, contribuíram de forma decisiva. Percebe-se que este agora é o momento de colher os frutos de tanto trabalho.

 



Piruka, secundado por DJ Nelassassin e por uma série de tropas que não pararam de injectar energia no público, deixou claro que o fenómeno das plataformas de streaming tem equivalência directa e real no palco. As histórias de AClara, as suas histórias, como fez questão de sublinhar na entrevista à Antena 3, tocaram num qualquer nervo sensível de uma geração que lhe amplifica as emoções juntando a sua voz a temas que já são hinos: “Se Eu Não Acordar Amanhã”, “Não Faz Isso” ou novidades como “Prova dos 9” pontuam uma actuação que é toda feita de nervo, entrega, comunhão e honestidade transparente. O público, é mais do que óbvio, escuta com atenção porque acredita em tudo. E Piruka retribui com amor.

No fim da noite, com filas de fãs à espera de uma oportunidade de saudarem o ídolo no backstage, DJ Nelassassin entrega uma selecção de clássicos aos resistentes que aproveitam a temperatura mais amena da madrugada para gastarem os últimos cartuchos de energia. A classe do veterano do hip hop tuga, que ao fim de mais de 20 anos de carreira tem a apetecida e merecida missão de fechar uma noite realmente histórica, é o perfeito corolário de uma longa jornada, a da cultura e também a do primeiro dia de BEAT FEST.

Gavião, sem a menor sombra de dúvida, acaba de conquistar um espaço na história do hip hop nacional. E hoje é dia de Slow J, Kappa Jota, TNT e DJ Kwan. A temperatura, vai, certamente, manter-se elevada.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu