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Texto: Paulo Pena
Fotografia: Direitos Reservados

A carreira do icónico grupo americano está em revisão na Apple TV+.

Beastie Boys: com quantos trambolhões se faz uma grande banda?

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Direitos Reservados

A História dos Beastie Boys é, sob a forma de documentário realizado por Spike Jonze, uma homenagem ao génio por detrás do fenómeno que veio agitar e desordenar as regras do jogo: Adam Yauch, o autodidacta que desafiou os ditames da música para deixar uma marca irreversível através de um dos colectivos mais impactantes no hip hop.

Recuemos aos finais dos setentas, numa altura em que o movimento punk ganhava a sua força junto da vontade de rebelião e necessidade de afirmação de qualquer adolescente inconformado. Foi à boleia desse ímpeto que Adam Yauch aka MCA formou os Beastie Boys, um conjunto de amigos movido pelo hardcore das bandas do circuito underground nova-iorquino. Formados, a princípio, e principalmente, por Adam Yauch, Michael Diamond, Adam Horovitz (um não-membro-fundador) e Kate Schellenbach, o grupo começou a arranhar os instrumentos, as roupas e as vozes pela diversão e o convívio, mas movidos pela fome de Yauch em criar música, sem saber ao certo como fazê-lo. Ainda assim, não é verdade o que se diz: há quem já nasça mesmo ensinado, e são os seus companheiros que o dizem durante a narração desta história.

É um documentário dentro de um documentário, contado pelos dois parceiros de Adam Yauch. Se já aqui revelámos o início deste grupo, cumpre referir também que esta história é contada a partir do fim, por Mike D e Ad-Rock, ao vivo no Kings Theater de Brooklyn, em exclusivo para a Apple TV. O ponto de partida é a homenagem ao falecido fundador dos Beastie Boys, vítima de cancro, em 2012, motivo esse que levou ao fim natural da banda. Porém, além do enorme legado deixado por MCA, esta apresenta-se como mais uma forma justa, e à altura, de manter viva a sua memória. Voltemos então ao fascinante percurso destes três miúdos.

Constituído o grupo, e com as primeiras desajeitadas (mas intrigantes) canções a serem elaboradas, iniciou-se a circulação do nome Beastie Boys pelos clubes nocturnos, através das escolhas dos DJs, até chegar, por fim, aos ouvidos do histórico Afrika Bambaataa. Entretanto, com a ascensão eufórica dos Run-DMC, os olhos de Yauch desviaram o foco e fixaram-se deslumbrados no universo deste fresco e arrojado colectivo de rap. Desde esse momento o fascínio pelo rap tomou conta dos rapazes do punk, e não tardaram a emular o trio embaixador da Adidas.

Desta feita, com o surgimento de Rick Rubin em cena, e o sucessivo e consequente afastamento de Kate, os miúdos viram no produtor um mentor em quem confiar uma direcção até então desalinhada. É nesse seguimento que emerge a Def Jam, encabeçada por Russell Simmons, o visionário determinado a fazer dos Beastie Boys o primeiro grupo de rappers “brancos” a furar as tabelas da Billboard. E a verdade é que Russell adivinhou o futuro. Daí seguiram-se as tours com estrelas mundiais como Madonna, Run-DMC, Aerosmith e eventualmente em nome próprio, depois do primeiro grande hit, “Fight For Your Right”. Até que, após a primeira leva de concertos nos primeiros passos de uma vida de rockstars, é finalmente editado, em Novembro de 1986, o primeiro álbum dos já famosos Beastie Boys: Licensed To Ill.

As tours multiplicaram-se, quer em número de concertos, quer em número de países, e até de continentes. Não havia quem parasse aqueles miúdos. E a juntar a atitude punk ao cenário hip hop, a tendência prendia-se cada vez mais em desafiar os limites da irreverência, da audácia e da arrogância sarcástica, enquanto a música propriamente dita perdia o seu devido espaço de destaque. Mais fama; mais dinheiro; mais excentricidade. Isto tudo vivido por três teenagers em plena formação de carácter, a passar mais tempo na estrada, no estúdio e nas discotecas do que em casa, na escola ou com os amigos. E, como já se sabe, quanto maior for subida, maior será a queda.

De hino a maldição, “Fight For Your Right” tornou-se numa cruz cada vez mais pesada de carregar. Os marginais do punk tornaram-se nos imbecis fraternity boys satirizados nesta emblemática faixa, e gradualmente cansaram-se de exercer o direito à party. Mais uma vez, a mudança despertou a partir de Yauch, mas foi transversal aos três membros. Já não se reconheciam ao espelho. Já não se reviam no carrossel da anarquia sem substância. Caíram com estrondo na realidade até ali desconhecida. Esta foi a pausa dos Beastie Boys. Mas o software da banda estava em modo reset. Mais cedo ou mais tarde haveriam de voltar a funcionar no seu melhor desempenho.



Passaram-se meses até os velhos amigos se reencontrarem. A pressão de Simmons, em nome da Def Jam, para voltarem a estúdio com um novo álbum em vista abriu a brecha para a rotura entre as duas partes. Afinal, para o bem e para o mal, Russell via nestes “white rappers” uma fórmula de sucesso relativamente duradoura, dentro dos moldes desenhados até à data. Mas Yauch, seguido pelos seus companheiros, virara a página deste conturbado e preenchido capítulo. Era altura de um novo começo para os Beastie Boys, e o grupo decidiu enveredar pelo lema sobre o qual se edifica o movimento que os juntou: Do It Yourself.

Independentes, sem dar satisfações a ninguém, e fechados no seu círculo de confiança, a tripla estava decidida a mudar o rumo da sua criação. Contudo, o dinheiro era o elemento em falta nesta equação reformulada. À falta de melhor alternativa, a Capitol Records revela-se como a opção mais válida. E o carrossel, ainda que a rodar de forma diferente, volta a girar a alta velocidade. Por isso, com o chorudo cheque de assinatura, destinado ao financiamento do álbum seguinte, os rapazes de Nova Iorque mudaram-se para Hollywood.

Mudaram-se para uma exuberante, luxuosa e, sobretudo, dispendiosa mansão nas colinas. Compraram carros desportivos. Investiram incontáveis dólares em sessões nos melhores estúdios. Nesta fase, o esperado álbum ia ganhando forma aos poucos, especialmente pelo fruto da ligação estabelecida com Matt Dike e os Dust Brothers. Simultaneamente, os renascidos Beastie Boys davam largas à imaginação, inovando em tudo o que faziam que se pudesse ver. Desde as roupas extravagantemente femininas encontradas no armário da senhoria do palacete onde residiam, às refrescantes sessões fotográficas à velha moda dos Beasties.

Assim, pelo ano de 1989, o segundo álbum de estúdio dos Beastie Boys, Paul’s Boutique, vê a luz do dia. No entanto, e mais uma vez, a queda aparecera. E os Beastie Boys deram outro trambolhão. Afinal, o fenómeno “you gotta fight for your right to party” caíra em esquecimento, e este disco caiu também na vala da indiferença. Ninguém estava a ouvir este novo projecto. Um tiro ao lado, um flop. E com isto o fundo monetário sem fim aparente atingira também o seu limite. Mais uma lição para os rapazes. Mais um novo recomeço para a banda.

Roda o disco e toca o mesmo. A nova revolução começou a partir de Adam Yauch, mais uma vez. E com o financiamento para o álbum seguinte, trocaram os estúdios imponentes por um estúdio caseiro. Aliás, o novo mindset era o de voltar a casa, às raízes, e aos motivos iniciais: a música e o prazer de a fazer. Mas o acontecimento-chave para essa meia-volta no percurso deu-se com o falecimento por overdose de Dave Scilken, o amigo de longa data dos membros do grupo. Um verdadeiro membro não-oficial. E, na tragédia, talvez tenha sido essa a salvação dos Beastie Boys, que se estabeleceriam como nome incontornável na história do hip hop e da música em geral.

Por conseguinte, os miúdos verdes finalmente amadureceram. Voltaram, então, definitivamente à base, e a partir do estúdio caseiro trocaram os samples “chopados” pelos instrumentos tocados, novamente arranhados, mas desta vez com as unhas afiadas. Nova surpresa, que a certa altura, apesar de continuar a deslumbrar quem as testemunha, deixa, todavia, de surpreender: Yauch pega no baixo eléctrico, ou no contrabaixo clássico, e toca melodias como quem lê partituras. Não haja dúvidas, nasceu mesmo ensinado.

As sessões em conjunto retomam o ritmo alucinante de outros tempos, os amigos de Brooklyn voltam a conectar-se, e o pequeno estúdio montado ganha uma aura de inspiração, talento e criatividade. Voltaram a fazer música com paixão, e quando assim é não há como parar, não há como desligar. Eis que nasce, por força desta onda sinérgica, o terceiro álbum de Beastie Boys: Check Your Head, em 1992. E a partir daqui a banda encarrilou para nunca mais perder a linha. O resto é história.

Feita esta viagem, pelas vozes de Mike D e Ad-Rock, o documentário camuflado no espectáculo ao vivo chega-nos por meio de um misto de emoções dos próprios autores desta história surreal. Três amigos, duas vozes, e uma vida partilhada praticamente na íntegra fazem dos telepontos, das coreografias e dos pequenos momentos ensaiados da peça pormenores insignificantes no que realmente se está a passar nesse mesmo palco. O que fica é uma vida dividida em três, em que, quando um terço é subtraído, e se a matemática não me falha, deixa de haver um todo. Não há Beastie Boys sem Adam Yauch. Mas este axioma não se resume ao presente. Não haveria Beastie Boys sem Adam Yauch, fosse no princípio, meio ou fim. E foi essa a homenagem que ficou a MCA. Esta é a verdadeira História dos Beastie Boys.


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