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Texto: Vera Brito
Fotografia: Ana Viotti

O duo norte-americano actuou perante casa cheia no Musicbox, em Lisboa.

Battles no Jameson Urban Routes: música para dançar e desorientar

Texto: Vera Brito
Fotografia: Ana Viotti

Foram 12 anos de longa espera desde o lançamento do aclamado Mirrored, de 2007, para que os Battles se estreassem finalmente em Lisboa (um período ainda mais longo para os que seguiam a banda norte-americana desde os primeiros EPs de 2004), factor que explica que esta edição do Jameson Urban Routes tenha começado com uma sessão esgotada, por um público atento e sedento, que só desistiu de lutar por um encore que não aconteceria quando, após o concerto, John Stanier regressou dos bastidores para distribuir sorrisos e fotografias pelas primeiras filas.

No decorrer destes anos, muita coisa mudou para os Battles que, entretanto, assistiram à saída do seu vocalista e compositor Tyondai Braxton e, mais recentemente, ao adeus do baixo de Dave Konopka, obrigando a uma óbvia reconfiguração musical. Hoje reduzidos, ou quem sabe exponenciados, a duo — John Stanier e Ian Williams, na percussão e guitarra/teclados respectivamente –, parece-nos que a história dos Battles reescreve agora o seu primeiro capítulo: Juice B Crypts, editado na passada sexta-feira, composto por ambos, dominou praticamente em exclusivo o alinhamento da noite, num set coeso e musculado, em que, à parte da incrível “The Yabba”, não se sentiu particularmente a falta de outros regressos ao passado — a crowd-pleaser “Atlas” pareceu-nos até acusar algum cansaço.

O concerto arrancou potente ao som de “Fort Greene Park”, em que Williams começou por desenhar loops atmosféricos nos teclados e no tapping da guitarra, aos quais John Stanier se juntou num ataque furioso e ensurdecedor ao seu prato Zildjian, elevado a uma altura desproporcional ao resto da bateria, no qual iria desferir golpes letais, como lançamentos certeiros de basquetebol, durante o resto a noite. “A Loop So Nice…” chegou de seguida, sem pausa para palmas ou qualquer outra expressão de apreço do público, que ficou imediatamente envolvido num headbanging infinito que nos deixou de sorriso na boca — sabemos que esta visão é algo a que estamos habituados em contextos musicais mais pesados e recordamos que um dos maiores méritos dos Battles é exactamente esse: o de apagar fronteiras entre diferentes falanges do rock e da electrónica reunindo tribos.

De um lado, o músculo da bateria de John Stanier e o seu currículo metal e rock de grupos como Helmet e Tomahawk, do outro a procura incessante de loops e sons bizarros de Ian Williams, que desconstrói tudo aquilo que pensamos saber sobre guitarras, no seu currículo — o rock instrumental e matemático dos Don Caballero. Durante a noite percebemos o quão fácil é encontrar, na música dos Battles, pontos de contacto entre bandas aparentemente distantes como, por exemplo, o art rock de uns Tortoise e a electrónica experimental de uns Animal Collective — “Ice Cream”, outra das excepções da noite, com a voz pré-gravada de Matias Aguayo, trouxe-nos imediatamente à cabeça o jogo de harmonias vocais da dupla Panda Bear-Avey Tare.

O problema de traduzir intricadas composições musicais, e nuances trabalhadas ao pormenor, do estúdio para palco é comum e algo a que os Battles não estão completamente imunes, como se percebeu em alguns momentos de confusão sonora no final de “Atlas” ou em “IZM”, uma das nossas preferidas do último disco e a que mais prejudicada saiu na adaptação ao vivo, em que nem a envolvente voz pré-gravada de Ishmael Butler (Shabazz Palaces) foi suficiente para nos convencer.

Momentos menos bem-conseguidos amplamente compensados pela intensidade renovada que outras músicas receberam na sua interpretação de ontem. “The Yabba”, que começou algo alienígena, transformou-se a meio numa frenética cavalgada galáctica, fazendo-nos passar do headbanging pesado para movimentos de dança excêntricos sem qualquer pré-aviso, num atropelo de ritmos e sensações aos quais o nosso corpo teve dificuldades em saber responder. “Last Supper on Shasta”, mais adiante e quase no fecho da noite, teve um efeito parecido — a música dos Battles é para balançar e desorientar em doses iguais e o Musicbox, nesta noite, assemelhou-se a um labirinto sem saída.

John Stanier, um verdadeiro monstro na bateria, contrastou com Ian Williams, aparentemente mais descontraído — os dois são coração e cabeça de uma banda que não acusou o peso de estar agora reduzida a metade dos seus elementos. Sem tempo para nostalgias: estes são os Battles que nos conquistaram e que queremos voltar a ver, só é pena que a noite, assim como o alvoroço causado pelas suas músicas agitadas, tenha passado a correr.

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