Digital

B Fachada

Rapazes e raposas

Edição Independente / 2020

Texto de Nuno Afonso

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Sem anúncio de chegada e sem uma editora a que venha atrelado, Rapazes e raposas surgiu este mês pelo Bandcamp. Sinal dos tempos, a plataforma não tem apenas sido um dos meios mais eficazes para toda uma produção independente, como nesta estranha época de pandemia, tem sublinhado igualmente o sentido de comunidade e empatia que a própria fomenta. Faz sentido, pois a música de B Fachada, de outro modo, também tem vindo a alimentar uma comunidade de outros artistas locais. Pela inspiração que provoca, pelo trato sagaz da língua materna ou a crónica lampeira que brilhantemente faz de si, dos outros e de nós.

Têm sido raras as vezes que alguém atiça algo de novo na escrita de canções; certamente não serão as rádios, com as suas playlists de barões da música portuguesa com duas ou três décadas, a lançar a pedra que agita o charco. Mas na última década houve o rap de Allen Halloween, a pop-não-pop de Conan Osiris e há o sci-fi dada retro-futurista dos Calhau!. Universos tão díspares e que lograram impor um reset magnífico no expectável – apresentando outras latitudes, outras expressões. E Fachada também está lá, claro: pela ousadia, pelo humor e pelo alcance do objecto genuíno. Todos eles serão nomes pouco unânimes, mas ninguém os pode julgar por não surpreenderem.

Rapazes e raposas teve a ajuda do habitual colaborador Eduardo Vinhas e contou com uma panóplia de instrumentos, entre os quais viola braguesa e sintetizador modular. Um pé na tradição e outro na modernidade, afinal é nessa zona entre os pólos que Fachada celebra a vida. Neste novo disco, volta a remexer em referências, em estórias e situações do quotidiano — onde mais poderemos encontrar inspiração mais valente? Há trincas à política, há baladas intimistas e há, acima de tudo, uma inspirada noção do que pop pode e deve ser nos dias de hoje.

“Regabofe d’Abertura” é um tiro certeiro no psicadelismo folk que tantas vezes nos habituou, num elo perdido entre Fausto e Animal Collective. Felizmente existe em Rapazes e Raposas regabofe para todos os gostos e feitios, momentos e estados de espírito — este tema de arranque é só e apenas o começo de algo maior. Em “Canção da Rejeição” surge um tema que persiste em ficar a ecoar, numa espécie de existencialismo de final de Verão que ficará como uma das faixas mais marcantes do álbum. “Trad-Mosh” é um bom título, per se; mas se a isto se juntar o que aqui se escuta, rasga-se uma imediata diversão com os versos: “Haja vontade de insistir todos os dias/ Mas com paciência lá convenço as minhas crias/ A juntar os bombos para bombar no Trad-Mosh/ Quero toda a gente a rir/ é nisto é que o papá é boss”. Simples sim, e rima-que-não-rima, porque a liberdade é em Fachada um elemento-chave.

Gravado nas terras profundas do Alentejo, mais precisamente em Mértola, trata-se de um disco filho do processo de confinamento. Curiosamente, tudo o que sai dele é o oposto a essa natureza. Reconhecemos uma linguagem, hoje e sempre, em mutação; e vemos cores e formas, saídas do Sol ou da Lua, definitivamente mais campestre que urbano. “Anti-Fado” e “Lambe-Cus” perfazem uma sequência de crónicas sociais que estalam qualquer vidro do politicamente correcto. No primeiro caso, entramos numa espécie de manifesto com Bernardo a evocar palavras de (des)ordem como: “Perante as grandes verdades / sou anti-cumplicidades/ Rejeito as pontas e o meio/ sou do tipo anti-feio/ Sou anti-crime e anti-leis/ anti-história e anti-reis/ Todo o saber um dia parte-se/ sou anti-Freud sou o anti-Marx/ Não há truque semiótico/ eu sou anti-patriótico”. Em suma, uma autobiografia que termina com um prometedor “ainda vou ser o Anti-Fado”. Uma peça que abre caminho para “Lambe Cus”, tão tragicamente cómico, com uma descrição que cada um merece descortinar por si mesmo — e cuja tarefa não será assim tão árdua.

Ao escutarmos Rapazes e raposas entendemos, a certo ponto, que este não é mais um mero álbum; é também um pedaço de História (com as diversas perspectivas e dimensões que possa tomar). É olhar para o passado, o que veio depois da revolução, e o que nos tem trazido o presente. Não será justo entrar em jogos comparativos que em nada levam, mas há em Fachada uma presença, lucidez e atitude que em muito recordam maiores de décadas anteriores: Variações, Fausto ou José Mário Branco. São canções como “Prognósticos”, quase a encerrar o disco, que nos trazem não apenas esses elos, como igualmente nos fazem aproximar de uma luta eterna cuja sede não tem fim.

Já no final, abra-se espaço para “Mudar de Método”: “Se não está bem assim/ não duvides de mim/ ensina-me lá/ Eu quero ser melhor e maior/ eu aguento/ ensina-me já/ E tudo o que eu não sei/ o que eu não faço bem/ ensinaste-me mal/ Tem paciência para mim/ dá-me amor e carinho/ quando eu me sinta pior/ E se não resultar o melhor é mudar de método”. Palavras sábias, daquelas que ninguém nos ensina senão nós próprios.


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