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Fotografia: Alípio Padilha

Um regresso ao passado e a realização de um sonho de miúda.

Aurora Pinho: “Este álbum é o meu encontro com um novo corpo”

Fotografia: Alípio Padilha

No mundo trans, “luta” e “bravura” são palavras na ponta da língua. Quem não se revê no corpo com que nasceu combate uma fisionomia recebida por engano e o preconceito da selva exterior. Requer a coragem para se assumir dissonante dos binários da vida; desenvolve uma defesa que se torna uma língua nativa. Aurora Pinho é fluente neste discurso e não só no sentido metafórico.

A artista nascida em Travanca, aldeia de Santa Maria da Feira, usou a performance e a música para compreender a sua batalha interior (plasmada pela realizadora Carlota Flor no documentário Aurora). Fez coreografias sobre androginia – o fluxo entre masculino e feminino – e instalações, como Aurora de Areia e Heteroptera, em que a heteronormatividade deixava de ser um eixo sustentável para o planeta Terra. Quando editou o seu primeiro álbum, Uterus, falava da carne que se lhe apodrecia; imaginava uma nova, da qual estava apenas a algumas cirurgias de distância.

Ser transgénero endurece a alma, mas também cultiva um doce pomar. No fim da transição, a destruição já deu lugar ao renascimento, e Aurora encontrou-o em 2020. Flesh Against Flesh, o seu segundo álbum, é a súmula do processo; uma contenda do novo corpo contra os vestígios do anterior. Sinaliza um conforto antigamente seu desconhecido, aquele que lhe permite revisitar origens: do r&b mais espacial de Janet Jackson e Ciara, sentido em “Thank U”, ao hip hop que começou a dançar com 11 anos, culpado pelos breakbeats de “Witch Bitch” e a pujança electrónica da faixa-título, comparticipada por Moullinex.

O som beligerante de Uterus volta para as últimas faixas – como “Showdown” com Odete e “Bed Dead Head” –, caldeirões de techno e house. Instrumental é apenas a primeira parte de Flesh Against Flesh. Onde está o resto? Em conversa com o Rimas e Batidas, Aurora Pinhoexplica que a pandemia suspendeu as gravações em estúdio do material sobrante. Mas ainda este ano se conclui este manifesto auditivo da euforia de género.



Na intro, além das ondas a marulhar, confundem-se sons bélicos e imagens campais… Que história contas neste LP? Que carne, contra qual carne?

Este bebé [volta] às minhas raízes urbanas, ao meu background e às minhas influências da cultura hip hop. Sempre ouvi e vivi fascinada com artistas r&b, rappers. Foram a minha base e fazem parte da minha construção. Como por ex: Janet Jackson, Lil Kim, M.I.A, Ciara, Missy Elliott, Ashanti, Jill Scott, Nas, 2Pac, The Prodigy, entre outrxs.

Eu ingressei na dança hip hop muito cedo, tinha 11 anos. Por volta dos meus 14 anos já dava aulas, e usava as músicas delxs. Fiz parte de uma companhia de hip hop, durante oitos anos. Competíamos em campeonatos, participávamos em battles e afins. Neste último ano, andei super nostálgica e tenho imensas saudades de tudo isto. Este LP é o regresso ao meu passado, à minha história. É a realização de um sonho desde miúda, afigurar beats que me fazem mover na pista. Sentir o groove, o breakbeat. A minha carne presente contra a carne que outrora fui.

Dedicaste o Uterus à tua auto-destruição, mas parecia menos guerrilheiro do que ominoso: uma viagem pela tua alma como se fosse um poço. O Flesh Against Flesh é o voltar dessa energia “auto-destrutiva” para o exterior?

Este álbum foi criado dentro dos processos cirúrgicos mais intensos que vivi. Foi a primeira vez que senti vontade de matar. Um percurso único que mudou radicalmente a minha vida. Parte do álbum foi desenvolvido no hospital. Mais tarde em casa, enquanto o meu corpo recuperava de diferentes tipos de violência a que fui submetida. Posso dizer que é o encontro com um novo corpo e a ânsia de curar a minha identidade, o meu passado. É a extracção de uma dor física que jamais irei esquecer. Depois do desmame deste processo corrosivo, de estar acamada durante tanto tempo, posso dizer que sou um corpo pronto para dançar e festejar.

Embora a segunda metade do disco seja bastante bélica, há uma certa matriz r&b subjacente a “Thank U” – que evoca “What’s It Gonna Be” de Busta Rhymes com Janet Jackson –, a “Witch Bitch” e a “Body Control”. Talvez portanto este pareça o teu trabalho mais convidativo à partida. É intencional?

Sinto-me demasiado lisonjeada para aceitar [a referência a Busta Rhymes e Janet Jackson], são os maiores. Mas acho normal haver referência à Janet, sendo ela a minha maior influência; é, sem dúvida, a minha artista favorita. Não consigo afirmar que foi intencional, mas posso dizer que há muito tempo que queria desenvolver algo assim. Só não me sentia preparada para remexer o meu passado.

Fico um pouco surpreendido com a indicação “Instrumental” no título, visto que a tua música não é propriamente vocal. Sempre ouvi o Uterus como sendo movido pela estética e pela batida, na base de eventuais apontamentos de voz – e quase anti-melódicos. Sentiste que não eram necessários neste álbum?

Em Março estava em estúdio a gravar o disco, mas devido à epidemia o álbum ficou suspenso. Então pensei lançar em dois formatos, foi a solução que encontrei.

Primeiro formato, Flesh Against Flesh (Instrumental), com oito músicas em que dou mais ênfase à parte instrumental, tendo só pequenos apontamentos de voz. Mas a ideia é depois lançar o formato final, Flesh Against Flesh, com 16 músicas. E aí contém todas as letras que escrevi, diversos featurings e vozes.

Quanto tempo demoraste a produzir este disco? A abordagem foi igual à do Uterus?

Não foi igual, porque foi um processo bem mais rápido. Enquanto que o Uterus foram dois anos e tal, este demorei seis meses. De qualquer forma é um disco que ficou “suspenso”, portanto seis meses não é o tempo que estava previsto.



Tens aqui input do Moullinex e do Diogo; a Odete volta a ser uma presença forte aqui. Como aconteceram estas colaborações?

A colaboração com o Moullinex foi criada para o Uterus, mas achei que não fazia sentido. Então deixei a música em stand-by e fez click neste disco.

A Odete porque, actualmente, para mim, é a melhor artista portuguesa. Por mim, estaria em todos os meus discos, sou mega fã da minha girl. E sinto que necessito sempre do seu input.

O Diogo surgiu mais tarde, quando já tinha o álbum praticamente fechado e senti que ainda faltava algo. Senti que dentro desta colaboração inesperada poderia surgir algo bastante interessante. Sou muito uma gaja do improviso.

Da última vez, pedi-te para me falares da tua faixa preferida no Uterus, que é um pouco como escolher um bebé. Importas-te de fazer o mesmo para o Flesh Against Flesh?

Desta vez não consigo escolher uma favorita. Talvez ainda seja tudo tão fresco para mim e todas batem de formas diferentes. Mas posso dizer que o meu objectivo era desenvolver um álbum, onde as pessoas carregam play, deixam o disco correr e dançam sem parar.

Dedicas este álbum à tua avó, à tua mãe e à tua irmã, mas também vem em memória do teu amigo Matias Pinto. De que forma os sentes neste disco?

A minha avó, mommy e irmã Xana são as mulheres da minha vida, as minhas maiores aliadas. Fazem parte do meu maior crescimento mental e físico. Sinto por elas o maior amor do mundo, por isso decidi dedicar este álbum.

O Matias, infelizmente, foi a primeira vez que perdi um amigo. E através da dor que senti nasceu a música “Thank You”.

Imagino que a quarentena tenha alguma influência na forma de lançar este disco. Nesta altura, como planeias lidar com a componente performática? (Sei que há alguma separação entre a Aurora música e a Aurora artista de palco, mas a simbiose é-te bastante natural também.)

Sem dúvida alguma que a quarentena teve impacto neste lançamento, como referi atrás. Quanto à componente performática, não tenciono fazer lives online, ou nada que se pareça. Não faz sentido para mim, eu necessito de público e de todo o suporte que até hoje tive num palco. De qualquer forma, tenciono lançar videoclipes e por enquanto é isso!

Sente-te livre para descartar esta questão, mas não têm sido tempos fáceis para o “poder trans” – como, de resto, nunca foram realmente. É impossível ignorar o que se passa agora na Hungria, onde se acabou com o reconhecimento legal para pessoas transgénero e intersexo, muitas das quais estão a queimar as suas certidões de nascimento. Quantas nuvens ainda vêm tapar este arco-íris?

É nojento o que se passa no mundo e o método conspurcado que usam. Aproveitar esta pandemia para destruir o reconhecimento legal de um ser, deixa-me raivosa. E mais uma vez recuamos numa evolução que é super urgente.

Não existem nuvens suficientes para nos abafar. Felizmente somos imensxs e lentamente vamos estando na primeira fila. Por muito que nos tirem os sapatos, não vamos deixar de correr. E continuaremos a gritar infinitamente, para sermos representadxs por todo o mundo. Quanto às pessoas intersexo, é crucial referir que ninguém fala, ou seja, na minha perspectiva temos de fazer alguma coisa. Porque são os seres mais fascinantes que este planeta tem.

Nós somos o futuro, portanto mais tarde, ou mais cedo terão que aceitar. So fuck them all.


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