Astúrias, reino da electrónica

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O L.E.V. – Laboratorio de Electronica Visual não é um evento de somenos em Gijón, cidade média espanhola que não é sequer a capital da remota província das Astúrias – honra que cabe a Oviedo, para onde se voa a partir de Lisboa com rapidez e total conforto. Os cerca de 270 mil habitantes desta vila da Costa Verde têm orgulho da sua identidade e são incrivelmente hospitaleiros e conscientes da sua oferta cultural: por mais do que uma vez, numa sidraria ou num táxi, perguntam se ali estamos para o L.E.V.. Claro que sim, mas a visita faria sentido por um outro sem número de razões, incluindo a bebida rainha da vila, servida de modo peculiar e apreciada sempre em ambiente de festa. Mas essa é outra história.

Quem não conhece não está realmente preparado para a sensação de esmagamento quando se chega ao complexo de La Laboral, um faraónico conjunto de edifícios herdado da era franquista, planeado para ser uma universidade, abandonado durante anos e agora de novo reclamado como cidade de cultura e conhecimento. O que é uma prova de que a história permite, por vezes, fazer justiça. Electrónica de resistência com casa num espaço outrora construído à dimensão do ego delirante de um ditador.

A primeira experiência vai para Strata #4 do artista visual Quayola. Dentro da magnífica igreja instalada no coração de La Laboral, a maior igreja do mundo com planta elíptica, garante a Wikipedia, um ecrã gigante disposto na vertical e instalado no espaço que deveria pertencer ao altar concentra naturalmente os olhares. E aí, uma série de fotos de clássicos de Rubens e Van Dyck, são usadas como base textural para transformações geométricas enquanto uma banda sonora acompanha a evolução abstracta dos quadros.

Já no teatro – outro edifício impressionante, de acústica incrível – começa-se por se assistir a um curto filme de Joaquim Bayle, Octagon, sobre o universo do skate onde a cidade de Lisboa é representada. Depois chega o trio de Jacaszek com a artista visual Alba G. Corral. Enquanto as imagens são geradas e manipuladas em tempo real, o líder, Jacaszek, controla uma viagem a partir do seu laptop a que se juntam o cravo de Ignacy Wisniewski e o clarinete barítono de Andrzej Wojciechowski. Electrónica neo-clássica de primeira ordem a que o público, sempre efusivo, responde com “bravos”.

Os dois pratos fortes do dia no que ao teatro dizia respeito chegaram, no entanto, logo depois.

Primeiro Cabaret Voltaire. Ou Richard H. Kirk. Sob um gigante ecrã tripartido, imagens subtraídas a décadas de televisão – guerra, terrorismo, repressão policial, mas também exploit cinema, reality TV, publicidade e ícones do século XX, de Warhol e Stockhausen a Khadafi ou Francis Bacon – funcionam como uma metáfora para a era da desinformação: vivemos expostos a todos estes estímulos e acabamos por desenvolver uma certa indiferença, parece dizer-nos Richard H. Kirk. O seu set, assente em breakbeats devedores da cultura rave, sobretudo, parece ser um estudo sobre as ferramentas da alienação, entregue com evidente sobrecarga de decibéis numa performance (?) que pouco mais é do que uma presença espectral. O público, ainda assim, responde com fervor sempre que uma quebra promete uma deriva pelos terrenos do drum n’bass ou do techno mais full on, algo que nunca chega na verdade a acontecer. O ruído como textura parece ecoar as imagens como detrito civilizacional e nada ali pretende ter mera dimensão funcional para a pista de dança.

A apresentação de Aurora por Ben Frost e MFO encerra a viagem a bordo do espaço do teatro, antes da debandada para a Nave do LABoral Centro de Arte para onde estavam programadas as actuações de Architectural, Bochum Welt e Legowelt, madrugada dentro. Frost tem uma presença muito mais física do que Kirk, entregando-se a espaços à sua guitarra com uma visceralidade puramente rock. Mas são as suas derivas, ambientais por um lado, abrasivas por outro, que contaminam a audiência com ecos mais ou menos distantes de rave. O que é estranho, estando toda a gente sentada, e muitos de olhos cerrados ou semi-cerrados de forma a resistir ao assalto luminoso comandado a partir de três robôs que projectam luz branca sobre a plateia. Imersivo, no sentido mais literal da palavra.

Para hoje promete-se Daisuke Tanabe e Yosi Horikawa no espaço do Jardim Botânico adjacente à Laboral e que conta com curadoria da Red Bull Music Academy e ainda, no teatro, Transforma & Yro e Paul Prudence antes da maratona final na Nave do LABoral Centro de Arte com Gazelle Twin, Blanck Mass e Akkord.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu