A$AP Rocky // At.Long.Last.A$AP

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Hip hop, Junho, 2015. Onde estamos? Já não é só acerca do loop mais f****o, da rima mais real, das drums mais afiadas, do scratch mais certeiro… Já não estamos no Kansas e a estrada de tijolos amarelos leva-nos a lugares realmente novos e nunca anteriormente visitados. O hip hop de 2015 é tão diferente e o menor dos elogios que lhe podemos fazer é o que aponta que os códigos de antanho foram atirados pela janela do BMW enquanto o ponteiro do papa-quilómetros deixava o 200 para trás e a paisagem parecia um borrão. Drake, Kendrick, Earl, Tyler, Young Thug: não há dois players iguais neste tabuleiro de xadrez e cada um propõe novas abordagens a uma cultura que sobreviveu à custa da definição de um rígido conjunto de práticas, mas que agora avança para fora de si mesma à custa do desejo profundo de reinventar essas práticas a cada novo passo. Kendrick experimenta um milhão de flows, assume fraquezas diante do espelho e ousa sofisticação jazz num terreno que se julgava antes servir apenas para estremecer os estofos de cabedal do Escalade; Tyler sabota o estranho futuro, parece encarar o rap como só mais uma ferramenta de imposição de uma visão criativa e experimenta a evolução das plataformas de interacção social. Depois há Jay-Z e Dr Dre a virarem o universo corporativo do avesso, a transformarem estratégias de hustlin’ na esquina em novos caminhos para o pantanoso universo dos negócios – se Empire falha por alguma coisa é por ser demasiado ingénua e cor-de-rosa… E Kanye? Esperem por Kanye. O jogo está 10-0 ao intervalo? Esperem até ele meter três hat-tricks na conta pessoal antes da primeira faixa do novíssimo SWISH dar o seu suspiro final…

E onde se encaixa A$AP Rocky? Onde ele quiser, basicamente. O novíssimo At.Long.Last.A$AP (A.L.L.A, novo trabalho de um tipo cujo verdadeiro nome é Rakim – depois digam que não há poesia no mundo…) sucede a Long.Live.A$AP e ousa sair daquela que era a sua óbvia zona de conforto. A bomba que assinou com Skrillex no trabalho anterior – “Wild for The Night” – não tem real correspondência num álbum em que o músico Joe Fox, literalmente recrutado nas ruas de Londres, assume posição de algum relevo num terço das faixas. Do lado mais comercial da cultura bass para um busker de rua vai uma enorme distância, e não apenas no mapa de frequências. Mas esse é um dos pontos de distinção deste trabalho novo de Rocky. E não apenas do seu trabalho. Há um paradoxo intrigante em marcha na colheita 2015 do hip hop: na segunda metade dos anos 90, quando a Rawkus ou a Fondle’ Em davam cartas, o hip hop assumia uma condição urgente e o seu principal terreno de invenção era o maxi single, com novidades a aterrarem nas prateleiras da Fat Beats ou da Godzilla todas as semanas. Os East Flatbush Project não precisaram de mais de um maxiTried By 12 – para agarrarem um canto numa das páginas da história. Inversamente, a cultura rock da época afirmava o álbum como a tela perfeita da idade dourada dos CDs.



Agora que a música se desligou definitivamente do plano físico e que todas as principais afirmações cabem dentro de um clipe de YouTube ou de uma janela SoundCloud, o hip hop responde aos tempos com uma sucessão extremamente sólida e ambiciosa de álbuns. K-Dot à cabeça, mas também, embora com fôlegos diferentes em termos de extensão, Earl, Tyler e agora A$AP Rocky. Todos estes trabalhos são álbuns realizados com princípio, miolo e fim, gizados com régua e esquadro, estruturados como obras de alcance e visão e não como meras rajadas de pensamento. Produto, certamente, de décadas de experiências na arte da urgência aplicadas em mixtapes que traduziam o momento como polaroids aurais. Isto é, definitivamente, outra coisa. E já não estamos mesmo no Kansas…

E que nos traz Rocky? Um álbum muito diferente daqueles que até agora foram assinados pelos seus mais directos concorrentes. A principal crítica que se tem apontado a At.Long.Last.A$AP repousa no simples facto de Rocky não ser o mais dotado dos liricistas. Mas isso é como tentar diminuir James Brown por não ser o melhor dos cantores de intervenção, esquecendo não apenas que o Soul Brother número Uno apontou no slogan “say it loud I’m black and I’m proud” o caminho a toda uma geração, como – igualmente importante – o facto de o correcto movimento de ancas poder ser uma alavanca de transformação política. Rocky pode não ser um poeta, mas é um esteta. O que já se sabia aliás: ícone de moda, com um poder capaz de arrasar uma nova marca com um diss numa qualquer faixa ou de elevar outra etiqueta aos píncaros só com a referência certa no momento certo. A$AP Rocky é street smart, mas também sabe como se comportar na Fashion Week.



Facto importante é At.Long.Last.A$AP surgir alguns meses depois do desaparecimento de A$AP Yams, um dos cérebros por detrás da força do colectivo A$AP Mob, vítima em Janeiro último de uma overdose acidental. Danger Mouse acaba por substituir Yams e é citado como produtor executivo, mas é provável que boa parte deste trabalho já estivesse realizado quando Yams faleceu. O que explicará a falta de temas directamente apontados a esse acontecimento. Mas, em boa verdade, Rocky não foi muito verbal acerca desse assunto, o que poderá igualmente querer dizer que mesmo com mais tempo provavelmente ainda preferiria manter o impacto da morte do seu amigo no domínio privado. Outras coisas que supostamente deveriam ser mantidas privadas, como a história de Rita Ora em “Better Things”, são expostas sem qualquer pudor levantando óbvias questões morais. Ora, se A$AP Rocky pode ser acusado de ser desbocado e de revelar intimidades com outra estrela pop, somos obrigados a questionar-nos sobre os limites da expressão e sobre a moralidade de tudo isto. Desconte-se a óbvia falta de bom senso ou até de educação (“Don’t kiss and tell”, etc), mas é impressão minha ou em tempos I’m With The Band – Confessions of a Groupie afirmou Pamela des Barres como uma espécie de ícone feminista? Zooey Deschanel esteve mesmo para aí a cinco minutos de despir a pele de Pamela numa série da HBO

A verdade é que Rocky não faz apenas os trapos da Ferragamo parecerem cool, com aquela qualidade que algumas pessoas têm de parecer cabides perfeitos, a quem tudo assenta bem. As palavras que debita, mesmo que pouco profundas, conseguem ainda assim brilhar, porque a sua garganta dá-lhes o sublinhado perfeito. Ainda assim, quando se aplica, Rocky é homem para cuspir uma ou duas verdades:

They ask me why I don’t go to church no more
Cause church is the new club and wine is the new bub
And lies is the new drugs
My sister the next stripper, my brother the next victim
My usher the next tricker.

Ou:

Satan givin’ out deals, finna own these rappers
The game is full of slaves and they mostly rappers
You sold your soul first, then your homies after.

Quem escreve assim não é inteiramente desprovido de visão nem completamente oco. E essa é apenas a primeira faixa de um álbum que tem vindo a ser descrito como psicadélico. Rocky pode ter experimentado as capacidades transformativas da realidade oferecidas pela LSD, mas isso não significa que o estúdio se tenha enchido de incenso e que se escutem sitars a cada 16 barras. Algures entre a desaceleração lisérgica dos grandes heróis de Houston, a típica cadência nova-iorquina e a ambição de sofisticação que parece marcar os mais criativos rappers de ambas as costas, At.Long.Last.A$AP sucede em manter a personalidade de Rocky acima de todas as colaborações. E são muitas: Kanye West uma vez mais em topo de forma no fantástico e bluesy “Jukebox Joints”; Mos Def (aka Yasiin Bey) a marcar inesperada e triunfal presença na faixa final “Back Home”; Lil Wayne a matar tudo em cima de um incrível beat em “M’$”; e ainda há UGK, Schoolboy Q, Miguel, M.I.A., Mark Ronson… Muitas estrelas, certo. Mas nenhuma que na verdade brilhe tanto que ofusque totalmente Rocky.

A impressão que At.Long.Last.ASAP dá, no final, é de que Rocky não tinha o clube ou o sistema de som do SUV na cabeça quando escreveu este disco. Há aqui um desejo notório de seriedade, daí o investimento claro na moldura mais larga do álbum. E uma vontade de ombrear com os clássicos. Rocky já falou mesmo em Beatles para tentar oferecer uma referência real para este trabalho. O que bate certo com a presença de Danger Mouse, o tipo que cruzou os Fab Four com Jay-Z e que foi condenado por esse ousado gesto a produzir os Gorillaz. Só que em vez do telhado da Apple, vamos um dia destes ver A$AP Rocky numa penthouse qualquer de Nova Iorque, com o Harlem ao alcance da vista, enquanto uma série de modelos tentam impressioná-lo do alto dos seus impossivelmente caros sapatos. Mas o mais provável é que nesse momento, Rocky, depois de ter engolido um ácido, veja tudo púrpura e esboce um enigmático sorriso…


https://www.youtube.com/watch?v=NHkLlAW1YfE

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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