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As múltiplas vidas de El-P

[TEXTO] Nuno Afonso [FOTO] Direitos Reservados

 

Visionário como poucos, a vida e o percurso artístico de El-P poderiam abarcar um sem número de  mitos urbanos, depoimentos de gente peso e uma linguagem pessoal quase que única. Dotado de um toque de Midas, a sua presença foi sendo notada ao longo da última década, e não apenas no papel autoral. Há que incluir as suas influentes facetas enquanto produtor musical, agitador cultural e pilar de uma das editoras chave no rap mais aventureiro norte-americano. Se os felinos têm sete vidas, há criadores, como El-P, que se parecem fazer valer das mesmas propriedades. Aos quarenta e um anos, estamos perante um titã, ainda com um par de vidas por gastar.

 

“Those who know, lust. Trust: the flow is disgust, touch

Producto back rap rush, you’ll notice the lad crush

I’m potent, intact, a black-hearted and lunged-up

Tarded and touched, plus designer of funk rust

Oh, El is back on that shit, huh?” – “The Full Retard”

 

 


[DO PASSADO]

É necessário recuar no tempo, até aos primórdios dos 90s, para melhor entender este longo e fascinante caminho do rapper originário de Brooklyn. Foi precisamente nesse bairro da Grande Maçã que, juntamente com Mr.Len e Bigg, Jus formou os históricos Company Flow. O trio rapidamente ganhou uma estatuto de reverência no circuito independente, muito à custa de um monumento chamado Funcrusher Plus. Hoje em dia considerado um álbum altamente cotado pela sua aura de clássico, é uma obra que cristaliza uma época dourada onde as influência do battle rap se encontram com uma sensibilidade lírica abstracta, mas assertiva. Por sua vez, tratou-se de uma semente para tantas outras encarnações e demais gerações que se seguiram. O humor sarcástico lado a lado com um olhar certeiro sobre o panorama político-social, revelaram-se pistas mais que essenciais para os anos posteriores. Se o conteúdo das letras enveredavam por meios poucos ortodoxos, também a forma como eram expressas (com um flow por vezes arrastado e sussurrado, enigmático e intrigante) fizeram muitos incautos coçar os ouvidos. Iconoclastas por natureza, os Company Flow ainda hoje soam tão pertinentes como em 1996. No entanto, nenhum dos três membros vingou como El-P. Após um término de carreira com a banda, aproximava-se um outro capítulo, desta vez a solo e responsável por toda uma torrente de novos artistas – e até de uma certa sonoridade que ajudou a depurar e a deixar enquanto legado.

 


[UM SONHO CHAMADO DEF JUX E OUTROS DELÍRIOS]

No universo de um melómano existirão sempre certas editoras que formaram a sua identidade musical. O funk e a soul da Atlantic ou Motown, a electrónica de vistas largas da Warp ou da Ninja Tune ou os tesouros perdidos da Soul Jazz ou da Numero Group. No rap, a Def Jux, Bad Boy ou Death Row assumiram-se como plataformas maiores com uma mão cheia de lançamentos cruciais em qualquer colecção. Enquanto extensão de um olhar paranóico, distópico e até surrealista – que de resto tanto perfila El-P – a Def Jux desde logo se impôs como uma espécie de viveiro à margem do fluxo comercial, aberto a expressões inovadoras na cultura do hip hop. Naturalmente fundou uma estética própria, imediatamente reconhecível, apesar  das características vincadas de cada um dos seus artistas. Fundada por si e por Amaechi Uzoigwe (actual manager dos Run The Jewels), a Jux soube recolher os melhores do seu tempo. Cannibal Ox, RJD2, Hangar 18, Mr.Lif ou Despot foram apenas algumas das constelações que transformaram a label numa lenda. Infelizmente, a sua actividade entrou num hiato prolongado e saudoso – mas com novos rumos para o ex-Company Flow.

Pela comunidade que ajudou a criar, viu editados três importantes álbuns, amplamente recebidos com entusiasmo tanto pela crítica como pelo público. Fantastic Damage representou um primeiro tratado, trazendo já uma sonoridade intensa, capaz de invocar estórias e personagens fora deste espaço físico. Influenciado pela literatura de ficção científica de Orson Wells ou Philip K. Dick , estabeleceu-se como uma banda sonora ideal para a viragem do milénio (com os fantasmas do Y2K e diversas profecias a assolarem a ordem dos dias). De facto, um dos grandes trunfos de El-P sempre foi o seu sentido apurado e atento às mais diversas manifestações sonoras, frequentemente extremas, atentas a detalhes sónicos. Um conjunto de elementos que ganharam dimensão e relevo no seguinte I’ll Sleep When You’re Dead. Lá encontra-se uma palete infindável de texturas, entre o ruído e o caos organizado, encapsulando o sentimento geral de tensão e terror que se viveu no período pós- 11 de Setembro. A clareza da sua perspectiva é dura e deixa rasto; acima de tudo, a força das imagens criadas pelos versos torna-nos espectadores de uma película do mundo em que vivemos.  Pelo meio, Collecting the Kid expôs um sólido trabalho baseado em instrumentais e gravações inéditas. Interessante pela proposta e arrojo, mas relativamente dispensável em comparação aos restantes. Já na casa Fat Possum, 2012 marca o regresso do patrão, no estado mais pleno e visceral possível, com Cancer For Cure. Alargando convite a comparsas tão nobres quanto Danny Brown, Mr. Muthafuckin’ eXquire ou Killer Mike (em modo embrião para o projecto a dois), nada nesta obra foi deixado ao acaso. Pujante e revolucionário como só El-P consegue ser, soa a uma metamorfose pessoal adquirida com suor, músculo e mestria. Possivelmente um dos statements mais fortes do rapper até à data, imprescindível até ao osso.

 


[A VIDA COM RUN THE JEWELS]

Dias antes do lançamento de Cancer For Cure, Killer Mike editava R.A.P Music. Coincidência, ou nem tanto, 2012 foi um ano de especial simbolismo para ambos. Dois magníficos discos que não só marcaram um poderoso retorno às lides como inclusive a um público mais jovem ou menos familiarizado com a estrada que cada um percorreu até então. No fundo, a consolidação inequívoca de dois reis absolutos de uma linhagem de representantes máximos do espírito DIY e reinventores de si mesmos.

A colaboração, agora vista à distância, parecia pouco provável, mas, de certo modo, igualmente obrigatória. Principalmente pela proximidade de personalidades e pela partilha de uma ética de trabalho – ainda oriundos de um passado distinto. O álbum homónimo chegou cerca de um ano, em Junho de 2013. Foram um fenómeno instantâneo, como uma fórmula mágica à espera de ser usada.  Numa entrevista à Juxtapoz Magazine, El-P referia o carácter natural com que se deu esta união de forças cujos resultados eram então imprevisíveis.

 



Eis que o segundo take de Run The Jewels acontece. Consigo vem um sentimento de se estar perante uma unidade criativa e não tanto de uma cooperação de entidades. Depois da faísca estonteante, o rastilho não apagou e RTJ2 limou arestas, redefiniu capacidades olímpicas e fez ainda mais do que se poderia esperar: subiu a fasquia com êxito. Por outro lado, também o conceito dos RTJ trespassou os limites musicais, ocupando as ruas através da iniciativa de graffitti Tag The Jewels, em que convidaram cerca de quarenta artistas a reinterpretar o grafismo de assinatura da banda (onde surgem duas mãos; uma encenando uma arma e a outra a segurar uma corrente). Hoje, sexta-feira 13, (qual superstição?) celebra-se o fecho de uma sólida trilogia que colocou, definitivamente, este mano-a-mano de EL-P e Killer Mike no pódio do rap actual. É já difícil imaginar um cenário futuro sem eles. Eles são, afinal, boa parte desse futuro.

 


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